Brokeback Mountain - Crítica por Allan Johan

Brokeback Mountain - o amor é uma força da natureza (nota 10)

Indicado para sete Globos de Ouro, o filme já abocanhou o prêmio de melhor filme no Festival de Veneza, da Associação de críticos de cinema de Nova Iorque, de Los Angeles, entre outros, e na semana passada recebeu quatro indicaçôes na premiação do Sindicato de atores profissionais. Agora, o filme é considerado favorito absoluto para o Oscar 2006, que acontece em março, em Los Angeles. A boa bilheteria do filme também segue inabalada e arrancando elogios dos maiores críticos de cinema, ganhando destaque na mídia e recebendo uma divulgação atenciosa por parte de seus produtores, Odeon filmes e Focus. Nos EUA e Canadá, o filme recebeu a classificação de inapropriado para menores de 14 anos.

 

"Magnífico", diz a revista Première. Para Stephan Holden, do New York Times, o filme é um marco, com ação e majestoso. Mas é Joe Morgenstern quem mais se aproxima de uma descrição perfeita da obra do diretor Ang Lee: "Excepcional - histórias de amor vêm e vão, mas essa permanecerá em você". Não à toa. O filme retrata o ralacionamento de dois cowboys do estado de Wisconsin na década de 60. Ao pé da montanha que dá nome ao filme, os dois descobrem o amor diferente.

 

Jack Twist (Jake Gellenhall) e Ennie Del Mar (Heath Ledger) se encontram em frente ao escritório de um empreiteiro e recebem a tarefa de levar o rebanho de ovelhas para o outro lado da grande montanha. A princípio, os dois se mostram distantes, mesmo tendo trocado alguns olhares desencontrados, nesse momento a platéia se sente cúmplice e desapontada mas aos poucos a distância entre os dois diminui e surge uma grande amizade. Em uma noite fria, o inevitável acontece. Bêbados, os dois se amam. No dia seguinte, quase nenhuma palavra. Apenas um "eu não sou viado" e uma resposta "nem eu".

 

O filme consegue revelar com delicadeza a intimidade do pavor que homossexuais vivem ao se assumirem. Depois de muitas noites frias, Ennie lembra que certa vez seu pai o levou para ver o corpo de um gay que fora espancado e teve suas partes íntimas removidas. Viver juntos não era uma opção, as pessoas matam homossexuais. Cada um para seu lado, ambos se casam, têm filhos, mas o amor reacende a cada vez que se encontram. Por anos, vivem uma vida dupla, no fim, algo supreendente. O roteiro dificilmente perde o Oscar, bem como os atores indicados pois agem com perfeição e passam sensibilidade em todas as cenas. O filme consegue captar a atenção sem ser apelativo. Tudo é dosado com precisão. Nada está fora do lugar com a realidade, cenas de sexo discretas, olhares que dizem tudo. Um clássico por natureza. Esse é o mérito dessa obra que deixa qualquer roteiro de romance no chão. Alguns chegam a comparar o filme com o antológico E o vento levou. Mas Brokeback Mountain é um espetáculo único, supreendente e divisor de águas.

 

Sucesso de público e crítica, o filme causa reações variadas. Muitos casais de gays de mais idade se aventuraram a irem ao cinema, muitos daqueles que não costumavam hã anos enfretar esse tipo de programa. A maioria da platéia era de gays  grupos de amigos de gays, casais heterossexuais e mulheres. Sem dúvidas, o espectador precisa enfrentar seus preconceitos, ir de mente aberta para a sala de projeção. A garantia de não se arrepender é quase total. O filme abriu um novo mercado para o cinema mundial, veio em um bom momento para os defensores das uniões de pessoas do mesmo sexo e ainda consegue levar para a década de 60 toda a discussão que ainda se tem hoje sobre direitos, violência, preconceito, homofobia internalizada e hipocrisia. A imagem positiva passada é a de que gays também se amam, não são seres promíscuos e que nunca é tarde demais para amar.

 

 

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