A nova cruzada

 

Em recentes declarações na mídia, tanto o Vaticano quanto o presidente norte-americano George W. Bush se posicionam como defensores do sagrado, lutam contra os mesmos inimigos e ainda se dizem protegidos por Deus. No caso do Vaticano o alvo do momento é a comunidade homossexual, que, sob sua ótica, ameaça a instituição da família e os valores cristão. Esta vem recebendo artilharia pesada da Madre Igreja. Nessa batalha, o apoio do presidente Bush é total e se não bastasse em se engajar nessa cruzada santa, os Estados Unidos da América ainda se colocam como defensores da democracia no mundo, pois nenhum outro modelo de governo poderia ser tolerado, por ser injusto com o povo.

 

O último ataque da Igreja contra o movimento homossexual se deu na segunda-feira passada, dia 20, quando foi lançada uma campanha contra a cultura gay em todo o mundo. Uma série de palestradas serão dadas por especialistas renomados que irão buscar aliados para a Universidade Lateranense de Roma e ao Instituto João Paulo II para a Família, responsáveis pelas conferências. O primeiro objetivo será a análise dos "riscos de se negar a diferença sexual", segundo folheto informativo. Entre os conferencistas estão o jurista americano David Crawford, o teólogo espanhol Juan José Pérez-Soba e o teólogo moralista José Noriega.

A hierarquia da Igreja rejeita toda possibilidade de "equiparar" o casal heterossexual com o casal homossexual e considera a homossexualidade um "pecado grave", imoral e contrário à lei natural. O Papa Bento XVI, pessoalmente, chamou de "grave erro" a introdução de leis que regulamentem a união entre homossexuais, inclusive os chamados Pactos Civis de Solidariedade (PACS). Cinco países - Grã-Bretanha, Espanha, Bélgica, Holanda e Canadá - autorizam o casamento entre homossexuais, enquanto a França reconhece direitos e deveres às uniões livres, entre elas as homossexuais, através do pacto civil. A possibilidade de que um dos países mais católicos da Europa, como a Itália, introduza leis que reconheçam os casais "gays" forçou o Vaticano a lançar a ofensiva a poucos meses de eleições consideradas decisivas. Portugal, outro reduto católico, também sinaliza a possibilidade de criar uma lei a favor dos casais gays.

A grande polêmica ficou no discurso de Livio Melina, presidente do Instituto que leva o nome do último Papa "O movimento gay é uma formação cultural poderosa e permissiva, com muita influência entre intelectuais e executivos, e acho que busca compensar os sentimentos de culpa que sofre com a reivindicação jurídica e cultural do casal homossexual", declarou o Monsenhor Melina.

Já os EUA travam batalhas em diversos territórios para terminar com regimes ditatoriais e assegurar a democracia. Em muito lembra a arrogância dos debravadores europeus que chamavam o seu sistema de progresso e acabaram por dizimar as culturas tribais. Em países da Ásia, não apenas o modo de vestir como a língua, os costumes, tudo não é mais o mesmo. A Igreja não interfere no trabalho de democratização dos países que os EUA julgam precisar de intervenção, mas assim como aconteceu na Ásia, missões de catequisação seguem o fluxo de produtos que acompanham a democracia, assim como a Coca-Cola, calças Levis e lanchonetes do McDonalds.

Não vejo a ameaça que a legalização de casais gays oferece às famílias tradicionais. Não vejo o porquê dos EUA acharem que culturas milenares necessitam sofrer modificações. A nova cruzada tem menos sangue. É uma luta pseudo-intelectual, que usa velhos artifícios como se fossem modernos. É uma briga de grandes decadentes que julgam o resto do mundo ignorante. É uma briga de asnos pois lutam contra o nada, inimigos imaginários. Sempre existiu homossexuais e assim como diversas minorias estes buscam seus direitos. O que comprova que nenhum sistema democrático garante a felicidade de seus cidadãos. A luta dos gays é pela sua cidadania que a tal democracia assegura, ou deveria. Sistema, inclusive, criado por um homossexual. Como o mundo dá voltas...

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