Gilberto Braga nos apresenta mais um casal gay

Bem, antes de começar o texto do título, meus parabéns à Revista Lado A. Por completar seu primeiro ano de vida e de luta pela expressão gay na sociedade. Ao Allan Johan, por me permitir fazer parte disso, e aos demais colaboradores que, juntos, impulsionam este projeto para frente.

Voltando ao assunto da chamada. A Rede Globo nos traz mais um casal gay na novela das oito, Paraíso Tropical. – É, pelo visto está virando moda – Os belos atores, Carlos Casagrande e Sérgio Abreu (que viveu o Beto, em Malhação), protagonizam na trama um casamento estável. Seus personagens serão completamente integrados na sociedade, sem sofrer as dificuldades comuns que se sofre sendo gay neste país. Bem, isso não me parece condizer muito com a realidade. Enfim...

Nessas ocasiões me pergunto: por qual motivo, a emissora tem investido em papeis homossexuais, mesmo sendo sempre secundários? Olhando por um ângulo positivo, fico contente e satisfeito. Pois, esse tipo de programa costuma possuir uma audiência imensa entre a comunidade. E me dá a esperança de que com a “integração” desses personagens na sociedade de uma teledramaturgia, possa, dessa forma, ser um bom exemplo para a sociedade real. A freqüente mensagem, subliminar ou não, de que é comum conviver com um casal homossexual, pode levar as pessoas a refletirem essa verdade. E consequentemente, pelo menos, ter mais tolerância.

Porém, há controvérsias. Em um mundo canibalmente capitalista, nem tudo é feito com boas intenções. Tudo bem, é até compreensível. Mas, sinceramente é difícil de acreditar que um casal gay, que nem ao menos viverá a realidade de uma sociedade machista, possa estar na trama por outro motivo se não aquele de chamar a atenção do público homo. Às vezes até me irrito, pois, imagino que estejam pensando que somos bobos para não perceber algo assim. Porque, ou nos deixam num canto ou nos fazem de palhaços com personagens estereotipados. E, se não bastasse, ainda lucram às nossas custas.

Pois bem, nem tudo é perfeito ou um mar de rosas. Tudo tem um preço. Mas, seja lá qual for a intenção desses personagens na programação, ainda sim, fico contente. Como já diz aquela conhecida frase: “dos males, o menor”.




Comentários

Não entendi o que o autor quis dizer com "chamar a atenção do público homo" ... Quanto ao "lucrar às nossas custas", acho supernormal que - em se tratando de uma tv aberta, e portanto essencialmente comercial - qualquer tipo de personagem, esteja embutido na lógica do lucro. Isto não é puramente negativo. É da natureza da tv aberta. Para mim, a grande lacuna ainda é o medo em que estão envoltos os personagens gays das novelas. Sejam cheios de drama (como em "América") ou super bem resolvidos (como em "Páginas da Vida"), a todos nunca é permitido qualquer gesto de afeto ou intimidade amorosa. Fica parecendo que um casal gay não passa de dois-grandes-amigos-castos. Não se abraçam, dificilmente se tocam, não andam de mãos dadas, não se beijam, não fazem declaração de amor, não simulam cenas de sexo. Tentem comparar com qualquer cena de casal heterossexual, seja principal ou secundário. Então, o grande desafio da televisão é romper o medo. Medo de perder audiência, patrocínio, medo da opinião da Liga-das-senhoras-e-senhores-guardiões-da-moral-e-dos-bons-costumes... Claro que acho ótimo ver um casal gay, ainda que cheio de limitações, na novela das oito. Quando eu era um adolescente enrustido, na década de oitenta, nem em sonho poderia imaginar uma coisa destas. Avançamos, e muito. Tenho consciência disto. Mas o que quero dizer é que nunca devemos nos contentar com migalhas e caricaturas (igual a quando a gente ganhava um sabonete de amigo secreto e , por educação, fingia que gostava). E que tal, amigos, começarmos a "representar" - melhor seria "apresentar - este papel, nós mesmos, nas ruas, nas praças, nos restaurantes, nos bailes da vida. Que tal não esperarmos pela novela dos oito e nos anteciparmos com mil beijos na vida real. Afinal nem só de televisão e ficção vivem os homens. O mundo real é nosso. E o compromisso de mudar este mundo, para melhor, também é nosso. Ninguém fará isto por nós. Beijo bom, carinho bom, abraço bom, tem que ter cheiro, cor e gosto!

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