Cores Sólidas

Por Allan Johan

A rotina daquele sobrado verde, em um bairro calmo do subúrbio da capital, estava preste a ser modificada. Ali, desde que fora construído aquele condomínio de seis belas casas geminadas, moravam os pais de Ernesto. Desde a última primavera o menino tinha quatro anos de idade. Este ano, após o verão, entraria para a escola. Era hora de deixar os altos muros verde água para se aventurar no mundo lá fora. Era tempo de novas experiências.

Desde muito cedo, Maria do Carmo e Vilmar sabiam que o seu primogênito era especial. Começou a falar tardiamente e era excessivamente dependente dos pais. Era um menino quieto, de poucas palavras, mas de uma inteligência incomum para a sua idade. Aos poucos, o seu atraso para começar a falar era esquecido e a cada dia ele se mostrava um menino esperto. A não ser quando algo o irritava. Quando isso acontecia, ele corria para a proteção de um de seus pais. Se a razão da irritação fosse algo que Maria do Carmo ou Vilmar tivessem feito, Ernesto corria para o armário. E lá se trancava. Ficava horas trancafiado entre os cobertores, até que seu estômago o fizesse esquecer o aborrecimento anterior.

Naquela manhã de outono, a vida de Ernesto tomaria novos rumos. Seu pai o acordou às 7 horas. Sua mãe lhe desejou um bom dia, enquanto seu pai o ajudava a vestir o uniforme. O cheiro de tecido novo era delicioso e invadia o ambiente. Calças azuis e camiseta branca. A malha não era da melhor qualidade mas por se tratarem de peças virgens, eram macias e brilhantes. Ernesto não estava acostumado a acordar tão cedo. A pequena tontura e bocejos sucessivos não foram embora após o copo de achocolatado. Um dia ele descobriria a utilidade do café, mas isso seria muitos anos depois.

Já no carro, sua mãe trouxe-lhe a lancheira que ele havia esquecido sobre o balcão de granito da cozinha. A porta foi batida e em menos de 10 minutos já estavam em frente a um grande prédio de coloração azul piscina. Algumas mulheres vestindo roupas pretas e com as cabeças cobertas por véus circulavam pelo local. Por um momento Ernesto pensou que eram daquele país onde as mulheres precisam esconder os rostos. Logo ele percebeu que se tratavam de freiras. Como de costume, Ernesto não mencionou uma só palavra. Ele não era um menino triste, era apenas uma criança observadora. Os pais achavam que isso era fruto de alguma capacidade intelectual além do Q.I. dos filhos dos outros.

Após tentar se prender às pernas do pai, o menino foi levado para a sala de aula. Não era de chorar, percebeu a professora. Este não ia dar tanto trabalho, pensou. Ernesto ia sendo levemente arrastado. Percebeu que ao lado do grande prédio havia um menor. E as crianças menores estavam todas seguindo para dentro dele. Já dentro de uma sala, encontrou várias outras crianças, todas vestidas com a mesma roupa que seus pais haviam lhe dado naquela manhã. Todas traziam merendeiras. Todas sem os seus pais. Ernesto começou a pensar que seria algum tipo de festa, mas no terceiro dia percebeu que a rotina se repetia e se perguntava até quando precisaria estar ali.

No quarto dia, após fazerem uma fila no pátio, cantarem algumas músicas e seguirem em trenzinho para a sala, foi dada uma simples tarefa para todos. Deveriam pintar um lindo sol. Ernesto já havia desenhado vários sóis em sua casa. Vou fazer o mais bonito, pensou. Ele se dirigiu à caixa de giz de cera, pegou algumas folhas de papel e se pôs a desenhar. De longe, a tia veio aos berros, gritando com Ernesto, que, assustado, correu para o armário de brinquedos. Lá dentro, ele se agarrou à estante como um filhote de primata à sua mãe ao perceber o perigo. Por ser impossível de tirar o garoto de lá, seus pais foram chamados. Maria do Carmo e Vilmar ficaram assustados. O filho jamais dera algum tipo de trabalho em casa e na primeira semana de aula havia aprontado na escolinha. Ao chegarem, Ernesto já estava brincando com os outros amiguinhos mas não podia mais ver a cara da professora que se encolhia em seu corpo franzino.

Aos pais, a professora disse que havia repreendido o garoto porque ele havia começado antes dos outros e isso o aborrecera. Mostrou o desenho do menino, um grande sol. Radiante e cor-de-rosa. Delicadamente a professora disse que as crianças deveriam pintar as cores de forma correta, mesmo não sabendo seus nomes. Era uma questão de observação espacial.

Ernesto foi para casa, não voltou mais às aulas naquele mês. Muitos anos depois veio entender a cara de espanto de sua professora. Anos após o incidente, ele aprendeu a importância das cores, na escola mesmo. Descobriu que o mundo dividia-se por cores, uma cor tinha mais poder que a outra. Os times de futebol, as bandeiras, as casas, homens, mulheres, tudo tinha suas próprias cores. E então, ele olhou para o céu, cinza, como tudo em seu mundo, e agradeceu. Agradeceu, mais uma vez, por ser daltônico.

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