Confiança: sentimento abstrato! Quem o merece?

Quando somos crianças, aprendemos com nossos pais o significado do sentimento confiança. Ao darmos os primeiros passos, precisamos das mãos firmes do pai ou da mãe para confiarmos em nossas próprias pernas e alçar algum caminho.

Na medida em que vamos crescendo, cresce também o rol de pessoas dignas de nossa confiança, e ainda neste momento sob a supervisão de nossos pais. Quem nunca ouviu do pai ou da mãe a seguinte frase: “nunca aceite balas, chicletes, suco, nem água, de ninguém estranho meu filho! Não confie em ninguém!”

Normalmente, essa frase é dita quando entramos na fase escolar. Mas parece que a teimosia é inerente ao ser humano. E durante toda a vida confiamos, por vezes em demasia, em pessoas que não eram tão confiáveis assim.

Os tombos causados pela confiança em excesso durante a vida vão, aos poucos, causando uma resistência a este sentimento e normalmente quando chegamos a idade adulta, temos mais reservas com relação às pessoas, não mais nos atiramos de cabeça nas relações e tão pouco nos entregamos completamente por medo de sermos feridos pela decepção.

O que ocorre é que nem sempre os tombos levados na vida criam uma crosta suficientemente protetora para não nos machucarmos mais. Foi o que aconteceu comigo.

Há 10 anos, fui levada pela primeira vez a um estúdio de gravação em Curitiba. Este amigo me apresentou ao dono do estúdio, à época o proprietário era um dos poucos cantores paranaenses com reconhecimento fora de Curitiba. O sujeito foi com a minha cara e principalmente gostou da minha voz. Propôs que eu gravasse um material para ele. Fui até o estúdio, tudo muito organizado e limpo.

Equipamentos muito bons, coisas que nunca tinha visto antes. Quando entrei no aquário (é como chamamos o estúdio propriamente dito) vi do outro lado um rapaz novinho, com uns 17 anos, mas muito sério, até um pouco carrancudo na verdade. Ele, cheio de propriedade, dirigiu toda a minha locução. Eu, completamente inexperiente, ao sair do estúdio agradeci ao menino, e perguntei o que ele tinha achado, me disse que estava bom, mas que eu teria que interpretar mais! Perguntei se poderia então fazer de novo. Ele disse que sim, apesar do semblante sério, que parecia até meio mal humorado. Fiz novamente e dessa vez ele disse que estava ótimo! Esse foi somente o primeiro de muitos trabalhos que fiz neste estúdio e com este rapaz.

No decorrer da vida, vi o menino crescer, casar, ser pai. Graças aos caminhos que a vida traça, o tio dele, muito influente nas rádios em Curitiba, sempre me ajudou muito, dando preciosas dicas de trabalho. Os caminhos tortuosos da vida fizeram também com que a irmã do menino sério que conheci no estúdio aos 17 anos, viesse a fazer faculdade na mesma turma que eu.

O estúdio foi vendido, mas permaneceu na família dele, quem comprou foi o pai. E eu continuei a fazer trabalhos para eles e sempre tendo a direção do meu agora AMIGO.

A vida prosseguiu com seu curso, mas sem nos separar e em 2003 fui trabalhar com rádio, para o governo do estado. Surpresa boa! Não surpresa ótima, quando encontrei meu amigo de anos, como operador de áudio no local onde iria trabalhar. Que alegria! A amizade só cresceu.

E como, teimamos em contrariar nossos pais, eu confiava nele. Confiava como um irmão!

Cheguei muitas vezes a ligar para ele perguntando sua opinião antes de comprar um carro, um computador, uma televisão. A opinião dele era mais do que importante para mim. Eu acreditava nele, e mais acreditava que ele se importava com o que era melhor para mim.

Em fevereiro deste ano tirei férias no trabalho, como ele era da minha total “confiança”, pedi que cuidasse de tudo na minha ausência. Ao faltar uma semana para meu retorno ao trabalho recebi um telefonema dele dizendo que havia brigado com um outro funcionário, ele me explicou que não havia sido qualquer briga, tinham ido as vias de fato e resultado em lesão corporal.

Como chefe de um setor, eu nada poderia fazer a favor dele, a não ser ouvir ambas as partes e encaminhar o problema a quem de direito. No entanto, acredito que por termos tido esta amizade que agora completava 11 anos, seu desejo era de que tomasse partido a seu favor. Não foi o que fiz. Mantive a postura profissional que deveria ter eticamente.

Essa atitude causou uma rusga irreversível em nossa amizade. Ele passou a ser hostil. Não tínhamos mais a convivência harmoniosa de antes. Trabalhar com ele tornara-se uma dura pena.

No inicio de abril, inconformado com esta situação, ele preparou o “nosso” ambiente de trabalho, como quem prepara uma arapuca para um indefeso passarinho. Deixou um dos equipamentos de gravação que tínhamos para trabalhar, e que conseguia alcançar até o som dos quero-queros que coabitam as áreas verdes do Centro Cívico, gravando, propositadamente no horário do almoço em que só eu e outra colega estávamos lá.

Naquele dia, eu tinha conseguido resolver um grave problema. Talvez comum na esfera pública. A modorrência de um servidor que tinha a missão de encaminhar um pedido de aumento de salário para mim. Finalmente, iria conseguir trabalhar dignamente. E contei a esta colega, que me fazia companhia, o que havia acontecido. Certamente por ter esperado 10 meses por esta vitória me senti aliviada e acabei falando algumas obscenidades a respeito do cidadão modorrento. Tudo ficou registrado.

Meu amigo de 11 anos, caprichosamente gravou um não, mas três Cd’s e partiu distribuindo. Um para o modorrento, outro para meu chefe imediato e outro nem imagino o destino.
Resultado?
Demissão!
Para mim e para ele!!!
É, parece que o modorrento senhor, enfim teve uma atitude sensata! Talvez tenha pensado: “se ele fez isso com ela que é amiga dele, o que não pode fazer comigo?”

Ensinei o senhor modorrento barbudo que não se deve confiar plenamente nos outros. E aprendi com meu amigo de 11 anos, que confiança é um substantivo abstrato, muito abstrato.

- Aos meus leitores peço desculpas pela demora em um artigo novo, pois com tudo que aconteceu, levei um certo tempo para voltar a ter equilíbrio emocional e conseguir escrever.

- Ao meu amigo de 11 ano – G.D.S. – saiba que eu lhe perdôo, pois se não fosse assim não teria conseguido escrever sobre isso.

- Á minha mãe, minha filha, meu amor e minhas amigas de verdade, meu agradecimento pela paciência, pois sei que foram 4 meses muito difíceis (sei que eu estava uma chata!)




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