Olhos Imaculados

Ela olhava no espelho e a rigidez de seus traços descrevia sua imaculada aura de respeito e tradição; O codinome senhora sempre lhe foi atribuído por seus filhos, netos e um pequeno bisneto. Nenhuma blasfêmia jamais fora proferida sobre sua personalidade ou sobre seus atos. Após alguns poucos retoques no rosto, ela se preparava e escolhia um belo vestido. Uma peça de cor opaca e corte impecável. Tudo refletia a vida que construiu. Um casamento indefectível, pelo menos aos seus olhos, findado apenas por motivo da morte de seu marido. Uma casa incrivelmente administrada como se tratasse de um palácio real. Apenas não fora dona de casa por conta do marido que era empresário e abastado.

Seus olhos vigiavam as horas e quando o relógio na parede marcava onze e trinta seu coração palpitava. Era o horário de abertura da praça de alimentação no shopping. Nunca, nenhum de seus familiares ou vizinhos e até mesmo sua empregada, ninguém jamais entendeu seu comportamento. Ela almoçava todos os dias no mesmo restaurante na área central da praça de alimentação do shopping próximo a sua casa. Alguns cogitavam a idéia de uma pequena excentricidade. Outros enxergavam um ato de benevolência para com a empregada que assim se livrava do trabalho de preparar o almoço e limpar os objetos utilizados.

Entre as mesas, em meio à pequena multidão que se formava, ela buscava seu assento predileto. Mais uma de suas muitas tradições e manias. Sua bolsa era colocada na cadeira para assegurar sua posse. Ao voltar, com a senha em mãos, aquela distinta senhora sentava-se de frente para o restaurante, onde havia feito o pedido, e observava o balcão. Seus olhos mantinham-se fixos na garçonete que separava as solicitações. Era um ritmo frenético, o corpo da garota se movia rapidamente, tudo parecia voar.

Mesmo em meio a tantas tarefas a pequena menina conseguia perceber os olhos famintos daquela mulher desconhecida. Diariamente, a garota, lhe oferecia um pequeno show particular. Conseguia sempre se debruçar no balcão, e com os seios encostados na bancada, encarava profundamente o rosto sereno daquela senhora de respeito e tradição. A mulher sentia como se seu corpo se abrisse em prazer a cada pequeno gesto provocativo da garçonete. O toque da campainha, ao anunciar sua senha, a retirava do transe. Seus pés, totalmente firmes ao chão, deslizavam até o balcão e a mão delicada da adolescente, com unhas pintadas, se estendia para receber o ticket com a senha. Seu toque suave escarnece os pensamentos daquela senhora de olhar profundo. Seus lábios finos lhe imploram por resposta.

- Qual é o refrigerante?

A voz cansada e um pouco tremula por medo do desejo latente, lhe indica o sabor e a marca. A menina lhe estende a bandeja e agradece com um sorriso maroto. Ao chegar a casa, já satisfeita fisicamente com o almoço, aquela figura austera e serena ao mesmo tempo relaxa os músculos. Ela seguia então mais um de seus rituais diários. Ia calmamente até o banheiro do piso superior e, certificando-se que todos estavam entretidos com qualquer outra atividade, que não fosse lhe bisbilhotar naquele momento, trancava a porta.

Seu corpo então se entregava aos seus mais profundos prazeres. As mãos sempre iam de encontro ao corpo. Suas veias pareciam saltar e faziam gravuras de alto relevo em sua pele. Ela sentia sua mente transbordar em sentimentos e tomar toda a direção de sua libido. Seu auto-reconhecimento navegava até as profundezas de sua alma e encontrava refrigério em seus desejos. O corpo então eclodia em grande fúria de prazer transbordando sua aura que molhava toda a pele.




Comentários

pra variar eu e eduardosjp achamos ótimo!!! Pena q ele lembrou da avó dele e ficou meio chateado, parece q a verdade dói né eduardo!

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