Entre quatro paredes

A porta foi fechada com a força dos braços entrelaçados das duas amantes. O apartamento era de Ana que, como de costume, trouxe uma estranha para casa. Mais uma noite daquelas.

- Eu não costumo fazer isso – disse ela sem fôlego pelos beijos ardentes.

- Eu também não costumo sair por ai passando a noite em casa de estranhas

- Não, não foi isso que eu quis dizer.

O falso mal entendido foi resolvido por mais caricias e beijos. Elas se agarravam ardentemente. A dona da casa encaminhou sua convidada para o quarto e jogou-a na cama. Com os corpos cansados, e sem fôlego, por conta de uma transa sem precedentes para ambas, elas pegaram no sono. Ana acordou durante a noite e percorreu a casa fechando portas e janelas. O sol, na manhã seguinte, já entrava por frestas na janela quando, vagarosamente, as garotas foram abrindo seus olhos. Elas se olharam e trocaram algumas caricias. Renata, a hóspede, foi até a janela e puxou as cortinas permitindo que o sol entrasse tomando todo o ambiente.

- Está na hora de levantar, veja que domingo lindo temos pela frente, o sol está maravilhoso.

- Eu prefiro ficar aqui contigo, meu amor.

- Amor? Nossa você é rápida hein.

- Farei um café para nós, bem caprichado com tudo que temos direito, do que você gosta de manhã?

- Ah, o básico, pão de forma com manteiga, mas acho que é um pouco tarde pra tomar café.

- Mas vá se acostumando. Eu sempre tomo café mesmo quando acordo muito tarde.

- Me acostumando? – uma gargalhada foi sua reação à sagacidade de Ana.

- Sim, quando almas gêmeas se encontram, precisam aceitar as manias de seus parceiros.

- Almas Gêmeas?!?!? Você está louca?

- Sim, claro. Você é o amor da minha vida, não posso mais viver sem você.

- Mas nós nos conhecemos ontem à noite, no banheiro de uma balada.

- Isso não importa. O destino, por vezes, tem maneiras estranhas de trazer felicidade às pessoas.

- Olha só, eu tenho que ir embora. Lembrei que preciso passar na minha tia, marquei de almoçar com ela.

Renata, apavorada, troca de roupa rapidamente. Ainda com os sapatos na mão, ela se despede, e vai até a porta. A porta estava trancada.

- Você poderia abrir, por favor?

Ana caminha até a janela e abre o vidro. Ela empunha uma chave entre os dedos.

- Seu coração é meu agora – A mulher atira a chave pela janela e com um sorriso nos lábios admira sua amada que perde o ar e empalidece atônita, encostando-se na porta.
Os sapatos ecoam no chão, e o som forte tira Renata do transe. Ela corre até a janela. A hóspede se recusa a acreditar no que está acontecendo.

- Isso é uma brincadeira, né?

- Meu amor, agora estamos unidas para sempre, ninguém poderá nos separar.

- Eu não sou seu amor! – Renata grita com toda sua força.

- Bom, se não está feliz, é só pular a janela e estará livre de mim.

- Tá louca? São nove andares!

- Então sua única saída é retribuir o que sinto por você...

- Mas como você pode sentir alguma coisa?

Renata foge de sua fã que não a deixa em paz. As horas passam e a fome a assola. Ana parece não se abater nem um pouco com a situação. Renata começa a vasculhar o quarto, mas não encontra nada que a ajude.

- O que procuras minha flor?

- O que você acha?

- Você não vai conseguir sair daqui, és minha agora.

Enquanto falava, Ana levou um grande susto ao ouvir um barulho forte vindo da sala. Ela ouviu uma voz. Seu corpo estremeceu. A voz chamava por ela.

- Ana, tudo bem? Decidi voltar um dia antes.
- Meu Deus, meu marido! Esse desgraçado nunca volta antes da segunda – Sussurrou ela agarrando Renata e encostando os lábios em seus ouvidos. Colocando a mão por dentro do sutiã ela tirou uma chave e apertou a mão da pálida Renata.

- Coloque logo os sapatos e finja que é minha amiga da academia. Desculpe pela brincadeira, eu exagero um pouco às vezes.

Ela escancarou a porta e, ainda de camisola, foi de encontro à voz rouca de seu marido.

- Meu querido, quantas saudades, que bom que voltou mais cedo. Não agüentava mais esse fim de semana sem você. Venha conhecer minha amiga, da academia, ela me fez companhia enquanto você estava fora. Pena que ela já está indo embora.

Renata, completamente desnorteada, vê o marido de Ana entrando pelo quarto. Quando o homem estende-lhe a mão seus olhos pouco enxergam e ela cai desmaiada, em choque pela situação.




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