Boas Relações

Um vento levemente frio batia em seus cabelos que, mesmo não estando muito longos e cobertos por grande quantidade de gel, balançavam um pouquinho. Quase fechados pela brisa, seus olhos, logo encontraram alívio para o vai e vem de carros na rua; mesmo tão tarde, quase meia noite, os automóveis ainda passavam enfurecidos pela alameda. Passou a observar um rapaz que se aproximava da fila, tímido, contando os passos e acompanhou-o até parar junto a última pessoa que se aglomerava na frente do bar. O garoto olhava pela ultima vez em um pequeno pedaço de papel amassado. O papel foi parar no bolso da calça. O olhar, ainda perdido, daquela nova figura masculina, foi vagando por entre corpos e mentes a sua frente. Desejou ser visto por ele, imaginou ser alvo de seus pensamentos. Não tardou e o menino finalmente olhou em sua direção. Por algum tempo eles brincavam cruzando olhares de longe. Já se cansava da brincadeira e procurava um sinal por parte do outro para ter certeza de seu interesse; se encaravam e então as pupilas dispersavam-se em direção aos motores cruzando a rua ou aos poucos transeuntes vagando, cabisbaixos, pela calçada. Um susto o tomou então ao mirá-lo novamente. O garoto sorria para ele; um sorriso belo, mas absurdo ao mesmo tempo. Sua mente rejeitou a cena e ele se escondeu entre os dois amigos que o acompanhavam.

- O que foi Vagner?

- Tem uma louca me encarando e abrindo os dentes pra mim! – riu-se disfarçadamente ao cochichar.

- Qual?

- O último da fila.

Seus amigos apenas transitavam por esses pequenos detalhes, insignificantes, que os cercavam. A conexão carnal de ambos estava tão intensa que mal podiam parar de prestar atenção um ao outro, era como um download; não podia ser interrompido. Os dois eram amigos de longa data de Vagner, mas ele nunca os havia apresentado; Não até aquela noite!

- Vou ficar aqui no meio de vocês para garantir que ele não pense que estou interessado! Imagine! Ia ser queimar a cara total!

- Ok, Vagner - Uma resposta uníssona e fria saiu de ambos os lábios.

Sentiu-se mal por estar entre eles, percebeu perfeitamente o momento, decidiu voltar à posição inicial, mas sua atenção era agora exclusiva do casal formado com sua ajuda; esse último detalhe o incomodava. Não quisera ficar com nenhum deles quando teve oportunidade; preferiu a arrogante dispensa de quem pretende inflar o ego ao se tornar aquele que diz não. Sentiu-se imponente na época, mas naquele momento se sentia apenas miserável. O adocicar das vozes foi lhe irritando profundamente. Percebia um ar sereno entre aqueles dois recém conhecidos, ou talvez já tivessem passado o primeiro momento de descobertas, quase formando uma dupla de recém ficantes. Não entendia o que se passava; Vagner se mantinha firme na esperança de que ao menos ali, em plena calçada, em meio aos freqüentadores dos bares e aos poucos passantes, eles não se atreveriam a beijar. Ele mesmo, com certeza, beijaria. Mas sabia o quanto seus amigos eram mais convencionais; reconfortava-se. Já na porta entendeu como seriam os momentos seguintes, dentro do bar. Virou-se repentinamente, olhou os dois e empurrou-os para fora.

- Acho que estou passando mal! - Disse Vagner já levando uma das mãos a boca.

- Deve ter sido a pizza! – Um dos amigos declarou o possível diagnóstico.

O mais importante era manter a distância entre eles, lábios separados, essa era sua intenção. Mais uma vez sua estratégia falhava. Eles se beijavam ardentemente escorados em uma das grades que separavam os pedestres dos freqüentadores. Vendo a cena Vagner desistiu do mal estar e olhando para o carro no qual vieram idealizou que ao menos poderia estragar-lhes a noite com todos indo embora. Não foi tão simples.

- Bom acho melhor irmos embora – Falou Vagner, decidido a estragar o clima dos amantes.

- Beleza! Eu te levo em casa e depois vou dar um passeio com meu novo amigo! – Sorriu levemente ao falar e manteve os olhos fixos no “novo amigo”.

Mais uma tentativa frustrada. Eles iriam livrar-se dele e ter a noite toda para curtir um ao outro em paz. Vagner era determinado ao extremo; não aceitou tão simplesmente o fim.

- Quer saber, acho que posso tomar uma caipirinha! Acho que isso melhoraria meu estomago.

Dessa vez não houve resposta. Os dois se olharam e entenderam qual era o real motivo de todo aquele mal estar. Trancaram o carro e para não contrariar o amigo decidiram entrar e tomar alguma coisa. Mirando um vazio a sua frente e engolindo a seco aquela situação os três caminharam por entre balcões e corpos dançantes; luzes de todas as cores e nuances preenchiam o ambiente. Vagner erguia a cabeça e deslizava várias doses de caipirinhas pela garganta. Sua cabeça girava quando percebeu um beijo, profundo e empolgado, apenas um beijo e nada mais. Seus amigos giravam, mas não como sua cabeça que girava embalada pelo álcool, eles apenas sentiam o momento e se entregavam ao prazer casual. Mais goles, mais doses, muitas misturas passaram por sua garganta; as náuseas o guiavam.

- Preciso sair daqui! – Vagner segurou o braço direito do amigo e sentiu seu corpo pulsar.

- Nós vamos embora, eu te ajudo meu querido. – Respondeu o outro com olhos distantes, mas sem mágoas.

Eles carregaram Vagner pra fora do carro até a portaria de seu prédio. O porteiro destravou a entrada e o morador daquele edifício segurou o portão espiando seus amigos voltarem para a rua; manteve-se inerte e acompanhou mais beijos enfurecidos, travados entre motorista e passageiro, ambos, já acolhidos no conforto do automóvel. Não podia mais vigiar; abaixou a cabeça e sentiu o estomago revirar. Após alguns minutos ainda se mantinha na posição de observador, mas dessa vez, seu foco era o chão inundado de álcool.




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