Minha vida como um VIP, parte I

Tenho nas minhas mãos o booklet de “Cooking with Stella” (Cozinhando com Estela), filme de abertura do XXIII Festival Internacional de Cinema de Edmonton, ao qual acabei de assistir, há uma hora, e tive que correr para casa pra contar para vocês sobre a experiência maravilhosa que foi (e será pelos próximos 8 dias) fazer “parte” desse festival, pois como Dilip Mehta, diretor do filme, mesmo disse: “sem audiência não há filme”. Presunçosamente, me considero parte desse festival!

A primeira coisa que veio a minha mente quando ouvi o nome do filme foi “Iiiiihhhh, uma cópia de Julie & Julia, tão cedo?”… ledo engano! O filme não tinha NADA a ver com o citado filme. Vou transcrever a sinopse do filme, encontrada no booklet do mesmo: “Don McKellar and Lisa Ray são marido e mulher récem chegados à Alta Comissão Canadense em Delhi. Ela é uma diplomata (maravilhosa), ele é um chef (soberbo, comível) e Sr. Mãe para a filha (adorável). A super Seema Biswas é a inventiva e religiosa Stella que não apenas toma conta das “coisas domésticas” (com um tipo de tímida destreza que dá a narrativa do filme um toque a mais) mas ensina McKellar a refinada cozinha indiana.

A direção de Dilip Mehta (irmão de Deepa – eles dividem créditos da escrita), em seu filme de estréia, é descontraída e decidida, sem largar mão da clareza. É um cinema sensual: “Filmes culinários não tem sido tão desejáveis desde Big Night, J.A., em 1996”.*

Começando pelo título ambiguo, o filme mostra como Stella guia todos os outros personagens, e a platéia, a agir e pensar como ela quer que ajam/pensem. Sendo uma cristã muito religiosa no Sul da Índia porém carregando o cargo de matriarca de uma família que não é sua (biologicamente), ela lembra muito a idéia estereotipada que temos dos judeus, sempre atrás de dinheiro em nome de e pela fé.

Ela me lembrou muito a minha avó materna, Lídia, que acabou “criando” eu e meus irmão e muitos outros filhos que, biologicamente, não eram dela. Possuindo um dos coração mais puros que eu já vi, quando perguntada o que queria de presente no Natal respondia “dinheiro”. No fim do filme houve uma pequena “conversa” entre a platéia com o diretor, um dos protagonistas e um dos organizadores do festival. A pergunta que o diretor fez para todos foi “No fim do filme, você perdoou Stella?”.

No coquetel, que teve logo após o filme, eu fui discutir minhas impressões do filme com o diretor. Disse que perdoar ou não perdoar Stella entraria no campo de julgá-la, e não acho que esse seja o mérito do filme. O diretor disse que ele quer saber, com essa pergunta, se conseguiu transmitir a mensagem de que todos nós somos Stellas, em maior ou menor grau. Julgar Stella seria um erro, pois ela faz o que faz (golpes e trambiques) porque viveu em um mundo muito diferente do canadense. No filme é mostrado o conflito entre a cultura canadense - de dar o benefício da dúvida a todo desconhecido e o hindu - de tomar vantagem de todo desconhecido - sem julgar nenhum nem outro, mas colocando os dois em contraste.

Quantos de nós não somos Stellas para pagar o aluguel? A segunda coisa que veio a minha mente quando soube sobre do que se tratava o filme foi como meu amigo cineasta louco por Bollywood, Cairo Braga, vai se morder de inveja.

*fonte: The Globe and Mail, setembro 11, 2009.




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