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Observou profundamente sua imagem refletida no espelho; ela não conversou com ele, apenas continuou estática, sem molduras, ocupando quase metade da parede, replicando fielmente a realidade exterior.

Virou, escovou seus dentes, mirou novamente aquele ser que era feito a sua imagem e semelhança; ainda assim não reconhecia aqueles traços. Queria perguntar-lhe alguma coisa importante como sobre o que pensava, quem era, quais seriam seus planos para o futuro; melhor manter silêncio, pensou, é mais seguro.

Tomou café em pé antes de sair, tinha pressa; mãos mecanicamente subiam à altura de sua boca, carregavam caneca e pão; dedo dobrado, pescoço rígido e olhos fixos num horizonte imaginário. Trocou poucos monossílabos com seu pai, e nem lembrou da existência de sua mãe.

Foi pra gráfica onde trabalhava, só descansou no intervalo pro cigarro – sempre praticado juntamente com seus amigos de firma numa sacada – quando conversou sobre amenidades. Braços apoiados, cotovelos tocando o parapeito do primeiro andar, sua mão rija para não desmunhecar, só fazia brutos movimentos quando precisava trazer seu cigarro à boca. Cabeça ereta, olhos fixos num ponto qualquer do vidro a sua frente; respondia com poucas palavras, estava sério com lábios que desenhavam a fumaça expelida por entre seus dentes semicerrados.

Quando escureceu o céu – nuvens escondiam raios de um sol já enfraquecido pelo inverno – foi quando o vidro a sua frente tornou-se espelhado... reflexos formados...
Hesitou, virou seu pescoço, queixo alinhado fugindo daquele enfrentamento; as nuvens não se dissipavam, já não havia mais cigarro, precisava voltar ao trabalho. Enquanto entrava, atravessando aquela porta aberta, não mais transparente, viu um vulto, uma imagem desfocada de si mesmo.

Dezoito horas. Já estava na porta, pronto pra sair, quando um amigo o interrompeu: “Vamo para um barzinho mais tarde? Já marquei com a piazada... Vai ter mulherada também...”. Aceitou prontamente com um sonoro, seco e simples “certeza”.
Decidiu ainda visitar um conhecido antes de partir pra casa e se arrumar pro que seria uma noite entre amigos que o faziam sentir valorizado.

Chegando ao prédio, encarou o porteiro, depois se manteve cabisbaixo, com pálpebras cansadas, mas não por desgaste físico; suas mãos tocavam sovacos opostos, músculos retraídos, voz agonizante: “Apartamento 63, por favor”.

O funcionário do condomínio abriu bem os olhos em tom acusador. Sentado. Braço estendido tocando com punho cerrado a mesa de onde pegava o interfone.

Tocou a campainha, porta se abriu sem demora, cumprimentou seu amigo beijando-lhe levemente a bochecha e disparando palavras em tom ferino: “Cê devia ser mais discreto no prédio, teu porteiro me olhou com uma cara de poucos amigos”.

“Esse aí é um mala, tão diferente do que faz o turno da manhã que é super simpático” disse o dono do apartamento com voz que permeou da acidez ao sublime; “mas deixemos os malas de lado... como está a senhora, dona Rafaele”.

Riram do momento, Rafael mostrou seus dentes que liberaram expressões faciais, lábios apequenaram-se e seus olhos quase fecharam pela flexão de tantos músculos numa face que finalmente se alegrava naquele dia.

Conversaram sem perceber o tempo, viram vídeos no YouTube, esbaldaram-se em doses de humor descontroladas.

Percebeu a noite do lado de fora, mas quando foi analisar já estava muito escuro e um efeito tomou conta de sua visão; luzes acesas na sala, escuridão total lá fora, a janela virou um espelho. Viu refletida sua imagem: pernas cruzadas, cotovelo vacilante no encosto de braço, dedos entrelaçados. Rapidamente se recompôs na cadeira, logo se levantou. Despedidas. Foi pra casa policiando cada passo.

Entre doses alcoólicas, encostado no balcão, observava o barzinho: pessoas como ele, apoiadas, calculando gestos, semblantes e movimentações.

Começou a mexer sua bebida, usando o canudo como colher, virava levemente o copo e revolvia todo aquele açúcar acumulado no fundo; numa cadeira alta, flexionava joelhos, pisava forte no suporte anterior ao assento; pernas abertas, cabeça baixa de olhos fixos na caipirinha.

Nem percebeu quando um amigo sentou-se, trouxe alguém mais perto, tocou-lhe e sem esperar consentimento falou entusiasmado: “Rafael, essa é a Mila”. Amigo afastado tentando permitir privacidade entre eles que conversaram por um tempo.

Beijou a nova conhecida enquanto era observado pelos companheiros de trabalho que lhe faziam sinais de aprovação sem que ela notasse; eram dedos suspensos no ar em movimentos seguidos por sorrisos maliciosos.

Em casa, sua cabeça girava, havia tomado cinco copos de vodka com algumas poucas frutas adornando, adocicando seu sabor forte. Estava no banheiro com porta fechada. Quando levantou, após vomitar, viu-se refletido mais uma vez naquele dia... Fechou sua mão, tocando unhas em linhas de uma palma suave. Socou o espelho. O quadro não se espatifou por completo, mas rachou de ponta a ponta.

Admirou sua mão que não sangrava, depois voltou sua atenção para uma nova realidade a sua frente: em cada pedaço ainda pendurado na parede havia uma imagem sua reproduzida; nem conseguiu contar quantos rostos estavam refletidos ou quantas linhas transversais se formaram com sua atitude. Chorou e olhando novamente pra sua mão, ela sangrava.

Bateram na porta, tentaram abri-la sem sucesso... Rafael manteve-se imóvel e ainda tentou extrair uma resposta de si mesmo indagando todos aqueles reflexos: “Quem sou?”.




Comentários

Bom texto. Simples e sintético, resumi bastante a rotina de algumas pessoas. De certa forma entristecedor.

Vi minha história neste texto. Felizmente fiquei "amigo" do meu espelho! parabéns Wander

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