Até onde devem ser respeitados os princípios religiosos?

Sempre fui a favor da soberania dos princípios religiosos dentro de suas instituições, no entanto há pouco tempo tenho revisto minhas convicções. É irrefutável que a religião, seja ela qual for, é um ato civilizatório para a humanidade. Inúmeros pontos da legislação mundial foram retirados ou inspirados em leis ou princípios religiosos como “não roubar” e “não matar”.

Há centenas de anos, o Ocidente viu-se regido por tais mandamentos religiosos. A Idade Média é um dos melhores exemplos que se tem, quando a Igreja Católica, no poder, agia como “legislativo”, “executivo” e “judiciário”, muitas vezes caçando, e condenando à morte diversos inocentes e grandes pensadores da humanidade.

Embora se tenham passados vários anos, as religiões ainda buscam fazer parte dos poderes que norteiam a vida das pessoas, um bom exemplo é a recusa em aceitar alguns direitos aos homossexuais. No entanto, se compararmos a influência, hoje muito menor, das religiões em relação à vida social ocidental com a influência do Islamismo em relação à vida no Oriente Médio podemos ver o grande avanço que tivemos e o massacre desmedido que é feito em diversos países em pleno século XXI.

O Irã desde sempre, que eu saiba, possui atitudes moralmente repudiantes pela evidente maioria dos países do planeta. Não é novidade para ninguém as condenações de morte que o país defere a inúmeras pessoas pelas mais diversas causas, isso inclui homossexualidade e adultério.

Embora muitos achem que essa proibição é só islâmica, engana-se. O adultério só deixou de ser crime no Brasil em 2005 e existem muitos outros países, também de maioria católica, que ainda consideram sua prática contra a moral soberana do país. Acredito que cada pessoa tenha o direito de expressar seus valores religiosos, mas não creio que o Estado deva tão irrevogavelmente obrigar uma população a seguir tais leis.

Voltando ao Irã, o país condenou a morte por apedrejamento uma viúva acusada de adultério, supostamente cometido após a morte do marido. Devido à pressão mundial, o governo iraniano mudou a sentença para enforcamento e disse que a condenação é, na verdade, por uma acusação de a mulher ter sido envolvida na morte do marido. Tanto a viúva quanto seu advogado negam a afirmam que as autoridades só tomaram essa posição para justificar a pena. Esta semana o Irã ainda negou oficialmente a oferta de asilo como refugiada para a mulher oferecida pelo Brasil.

Outro caso que estarrece o mundo é do jovem condenado a morte por ser homossexual, ainda que o mesmo negue ser gay. No caso do rapaz, a condenação é justificada por “conhecimentos do juiz”, o que permite a condenação quando não se tem provas para a acusação.

Contudo, o ponto é: até onde os preceitos religiosos devem interferir tanto na vida das pessoas? O restante do mundo tem o direito de intervir de alguma maneira para impedir que essas atitudes sejam tomadas e inocentes sejam salvos? É um assunto complicado, mas fico perplexo ao ver que pessoas sem ao menos chance de se defenderem em seus julgamentos são assassinadas de maneira tão fria.

Na foto: Sakineh Mohammadi Ashtiani, de 43 anos e mãe de dois filhos, condenada desde 2006 a morte por apedrejamento, teve sua oferta de asilo no Brasil negada pelo governo iraniano.




Comentários

Concordo em partes; no caso do Irã e de outros países que condenam à morte por ser homossexual, não existe dúvida de que é errado... Mas no caso do Brasil, em que o país deixou de considerar crime o adultério, em certo ponto não concordo, pois não tem a ver com religião, todos nós sabemos que o ato de traição é errado, e como todo cidadão que lesa outrem deve ser punido de alguma maneira por que descriminalizar o adultério? criminalizêmo-lo

Não sou a favor da recrimincalização do adultério. Mas, sugiro aos que sofrerem por esse mal que entrem com um processo por danos morais. Eles são bem lucrativos. rs.

Parabéns pela coluna e parabéns a nós brasileiros por finalmente termos tirado o adultério da categoria de crime. É um absurdo, analisando nossa sociedade atual, vermos como a religião determina o que é certo e errado na legislação com base em seus próprios preceitos e desrespeitando a laicidade do estado brasileiro. Só queria fazer uma correção sobre seu comentário "O Irã desde sempre", na verdade o Irã sempre foi uma nação muito pró-ocidente até 1979, quando adotavam todos os costumes norte-americanos. Somente na revolução que se seguiu nos anos 80 é que o país se transformou numa nação fundamentalista religiosa.

se a religião é uma organização com regras próprias e que muitas delas são impostas sobre a constituição, então criemos uma organização com os mesmos direitos. Onde em seu interior podemos pregar que o cristão é historicamente assassino e que os cristãos não devem ter os mesmos direitos que outros religiosos, afinal, eles não querem que continuemos num apartheid, onde héteros tem direitos que nos são negados?

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