Editorial da Lado A 36 conta história da mais antiga revista gay sem conteúdo erótico do Brasil

No próximo fim de semana chega finalmente a edição 36 da revista Lado A, que marca os 5 anos da publicação impressa da revista mais antiga para o público GLS, sem conteúdo erótico do país. No editorial da edição, o editor Allan Johan conta a história da revista, como ela nasceu e se tornou referência em todo o Sul.

A edição traz ainda textos que foram destaque no site da publicação, ainda inéditos na edição impressa, fotos dos editoriais de moda feitos nestes 5 anos, em uma edição comemorativa voltada ao aniversário de meia década da Lado A.

Confira o editorial abaixo:

LADO A 5 ANOS
Tudo começou com o preconceito. Durante um trabalho de projeto gráfico, quando eu fazia faculdade de jornalismo, os outros alunos e o  professor esperavam que eu i  zesse um projeto de revista, que era o tema, para gays. Sempre fui muito militante. Antes, trabalhei no grupo Dignidade, onde editava o Jornal Frisson, entre outras tarefas. Ao mesmo tempo, assinava colunas GLS nos jornais Hora H e Jornal do Estado. 

Relembrando, quando era criança, na mesma época que sofria bullying na escola, já escrevia para o Tupi or not Tupi, o jornal da escola salesiana onde tive minha educação primária, no interior do Rio de Janeiro. Aos 15 anos, quando fui morar no Japão, mais uma vez o jornalismo cruzava a minha vida. Escrevia para a coluna social do Jornal Tudo Bem, da comunidade brasileira local, passava pautas para a revista Made In Japan, do mesmo grupo, era promoter de balada e desenhava no Paint Brush um protótipo de revista.

O preconceito sempre esteve presente na minha vida. Seja por ser gay, por ser mestiço, às vezes muito magro, às vezes acima do peso, o preconceito sempre me incomodou e não me deixou acomodar. Por isso cursei jornalismo. Como forma de exteriorizar este senso de Justiça, de inconformidade. Quando meu professor e amigos de turma insistiram para eu fazer um projeto de revista GLS, não imaginava onde este projeto chegaria. Foram diversos prêmios, entre eles o Sangue Novo, ainda na faculdade, o maior prêmio para estudantes de jornalismo no Paraná, dado pelo Sindicato dos Jornalistas. A Lado A abriu muitas portas, fechou algumas, o preconceito ainda é irascível, genioso.

Por muito tempo, a Lado A e a minha pessoa se confundiram. Hoje não é mais assim. Há dois A mais antiga revista GLS sem conteúdo erótico do Brasil Há 2 anos temos um escritório e uma equipe ótima que produz a revista, além de outros títulos. A Lado A virou uma empresa de comunicação completa não voltada apenas ao mercado GLS. Deixando o “lado gay”, na minha profissão, trabalhei como colaborador da Folha de São Paulo neste meio tempo, e ainda na faculdade, fui escolhido como foca (jornalista aprendiz) do mês do site Comunique-se, entre diversos alunos. Há um mundo lindo lá fora, por isso a Lado A sempre foi gay mas acessível a todos, de forma inteligente e discreta.

Nostalgia. Este é o sentimento desta edição de 5 anos. A Lado A fecha um ciclo e passará em breve por mais reformas. Esta edição traz um pouco do que fizemos em cinco anos. Com orgulho, somos a revista pioneira, referência, reverenciada fora de nossa área de atuação e até fora do país. Os editoriais de moda da Lado A são consumidos em todo o mundo, fazemos moda, conteúdo e jornalismo. Destaque e mérito total aos nossos colunistas, cartunista, designers e todos que colaboraram muito ou pouco, dependendo do ponto de vista, com o nosso projeto. A Lado A virou tendência, não é mais uma revistinha que um estudante idealizou. Muitas mãos de sucesso fazem a Lado A e esse é o segredo.

A Lado A já teve gay, hétero, transexual, drag queen, negro, idoso, amarelo, cartoons, de tudo um pouco em sua capa. Estivemos sempre na frente em inovação, desde o nosso lançamento. Fomos copiados, inspiramos muita gente e aos poucos conseguimos o que nenhuma revista gay conseguiu: grandes anunciantes fora do meio GLS. A história da revista é linda e não termina aqui. Investimos em pesquisa constante para aprimorar nosso produto. Empresas de fora vem buscar o nosso know how. Argentina, China, além de outros estados brasileiros, já buscaram idéias com a gente para publicações por lá. Somos convidados para todo tipo de evento e temos credibilidade no mercado que muita revista grande de editoras famosas não tem. Todos esses frutos vem de um único lugar: do trabalho de qualidade.

Quando chegam emails ou cartas de nossos leitores, é emocionante. Acredite: todos os dias temos algum comentário de agradecimento pelo site e duas vezes por ano em média chegam cartas pelos Correios. Algumas escritas a mão, outras digitadas e impressas no computador, nas quais leitores sem rosto contam a sua história com a Lado A e como ela mudou a sua vida. Eu pego as cartas, leio, mostro para a equipe, algumas me fazem de fato chorar. Não somos uma empresa qualquer, somos uma fábrica de boas vibrações e esperança, tão essenciais àqueles que pouco tem para se apegar. Aprendemos e ensinamos, mostramos o Lado “A” da comunidade gay, mesmo que não exista esse conceito individualmente para os leitores e que o preconceito nos dê adjetivos e faces que não resumem a todos nós. A Lado A é um marco, é de todos, e agradecemos profundamente nossos leitores, colaboradores e anunciantes, por fazerem da
nossa pequena revista uma grande vitória.

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Adoro a revista eletronica, pelo menos mostra que nós gays não pensamos só em sexo, balada e parada...

Adoro a revista eletronica, pelo menos mostra que nós gays não pensamos só em sexo, balada e parada...

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