A direita e o movimento guei

Para formular uma consideração um tanto óbvia, observa-se, no Brasil, atualmente, duas correntes de pensamento: a esquerda e a direita, sendo mínima a segunda e majoritária, mesmo hegemônica, a primeira.

Embora minoritária, a corrente de direita existe e manifesta-se por alguns veículos, como a gazeta (eletrônica e impressa) Independência e a gazeta (eletrônica apenas) Mídia sem Máscara. Em ambas, os seus articulistas examinam as atualidades brasileiras e internacionais, à luz dos seus valores e dos seus critérios de juízo.

Os direitistas radicais (ou talvez, todos os direitistas) abominam o ecologismo, a intervenção do Estado na economia, o desarmamento, a crítica ao cristianismo (em regra, professam o catolicismo), o islamismo, a militância política nas escolas, o politicamente correto, a desinformação, o governo cubano, o marxismo, o socialismo e, por fim (embora não por último), o movimento guei, tema sensível naqueles veículos, para os respectivos articulistas e intervenientes (por comentários aos artigos que divulgam.).

Os direitistas identificam o esquerdismo com o movimento guei. Há, de fato, uma associação entre um e outro, e por repudiarem o primeiro, repelem o segundo, não tanto por si próprio, quanto mercê da sua origem, ou seja, detestam o movimento guei porque vinculado ao esquerdismo. É provável que o repelissem, ainda que se ele independesse do esquerdismo, devido à filiação católica da maioria deles, ao conservadorismo de costumes, ao preconceito puro e simples, porém, certamente, tratar-se-ia de uma recusa passiva, moderada, não militante, de quem não gosta e por isto não usa, indiferente a que os outros gostem e usem.

Em relação aos direitistas extremados, contudo, não é assim: há, da parte deles, não apenas a recusa do esquerdismo, como, por tabela, a de tudo quanto se lhe associe e, destarte, a do movimento guei. Há uma sua recusa, não pura e simples, porém qualificada pela raiva, pela irritação, pela intolerância. Há, também, maniqueísmo em relação aos militantes do movimento guei: no entendimento destes direitistas, todo militante é, por inerência, esquerdista e, por isto, merecedor de ataque.

O antagonismo dos direitistas ao movimento guei acentua-se pela sua condição, corriqueira, de católicos defensores do cristianismo e da teologia (em face do ateísmo, do livre pensamento, da laicidade, do Positivismo, do materialismo). É óbvio que todo cristão é, por definição, por obrigação dogmática, um condenador da homossexualidade, que escandaliza a muitos deles e que lhes provoca um verdadeiro histrionismo, nos seus protestos de que o casamento guei levará ao fim da família, representa um atentado a esta, um indício de decadência de civilização.

Se a associação entre esquerdismo e gueizismo freqüentemente existe, não existe por inerência, ou seja, a condição de militante não implica, por obrigação, a de esquerdista, como tampouco a de ateu, de ecologista, de petista, ainda que, amiúde, coincidam. Há militantes gueis esquerdistas, como outros que não o são; há direitistas anti-movimento guei, como haverá outros que não o sejam: tal distinção é importante, na medida em que corresponde a um matiz das diferentes posições doutrinárias das pessoas e em que o extremismo da direita, como qualquer extremismo, leva a juízos falsos na avaliação, parcial, da realidade, e injustos, ao rotular-se as pessoas dentro de esquemas simplistas e próprios de quem exige adesão absoluta, sob pena de rejeição, também absoluta (é o que coloquialmente se chama de “8 ou 80” ou “quem não está comigo, está contra mim”).

Tal rotulação maniqueísta foi, aliás, exatamente a que me aplicaram: sendo interveniente (não me considero militante) no movimento guei e crítico da homofobia da direita (ao menos, de certa direita), esta mesma direita, ou, ao menos, certos representantes seus, conotaram-me com o esquerdismo. Porque comentei, na Mídia sem Máscara, artigos homofóbicos, em favor da liberdade guei, desativaram a minha conta, ou seja, impediram-me de comentar mais, após haverem-me insultado em público, como resposta a comentários meus, naquele sítio.

É óbvio que cada sítio e cada gazeta funciona conforme os critérios dos seus diretores e nenhum deles é obrigado a admitir opiniões adversas à sua orientação. No caso da Mídia sem máscara, contudo, calaram-me porque, sem ser esquerdista, sem ser marxista, sem ser petista, exprimi um mínimo de compreensão pela causa guei. A isto chamo de extremismo de posições e de intolerância de opiniões (para mais da baixeza do tratamento insultuoso).

Não que me considerasse especialmente prejudicado; ao contrário, a Mídia sem Máscara tornou-se, há muito tempo, um sítio de azedumes, de desabafos emocionais, de manifestações raivosas, cuja leitura considero desagradável, que em nada me enriquece e no qual nada perco ao privarem-me de nele intervir.

Tampouco pretendo cativar seja lá quem for, seja lá de que direita for. Desde os meus dezoito anos sou Positivista, adepto da doutrina do “ordem e progresso” e sempre afirmei as minhas convicções com independência, em relação aos grupos ideológicos em presença no Brasil (aliás, o Positivismo constitui outro objeto da repulsa da direita radical e da mal informada).

Em relação ao mérito da causa guei e da oposição da direita a ela, a primeira corresponde a um movimento libertário, conforme à natureza humana, que se aceita na sua condição; a oposição da direita corresponde a uma atitude contrária à liberdade tão cara à direita, ou seja, ela preza a liberdade, porém não aquela pela qual a esquerda se bata nem a que o cristianismo proíba.

Tanto pior para ela que, já tão combatida pelo esquerdismo que prepondera entre nós, desmoraliza-se ainda mais, pelo retrógrado desta sua posição e pela sua associação com a teologia cristã, com que justifica a sua atitude: a atitude é retrógrada, a justificativa é desprezível. A direita brasileira carece de rever a sua posição “conservadora” em relação a isto; urge-lhe perder o preconceito, sem abjurar dos seus valores; carece de humanizar-se ao invés de manter-se embrutecida.

Tanto melhor para a esquerda que, nisto, adotou o valor da liberdade, em favor de uma parcela significativa dos seres humanos, até aqui oprimida por séculos de preconceito, e que aderiu a uma causa profundamente humana e profundamente justa.




Comentários

No Brasil, o Positivismo é vítima de abundante ignorância e de igualmente abundante desinformação. Sobre ele, cada escritor inova na asneira que inventa e no desentendimento que manifesta ou repete as distorções em voga; raros são os que o conhecem a sério e procuram entendê-lo com honestidade. Nem é preciso explicitar que no segundo caso acham-se os próprios positivistas. Por outro lado, na esquerda é comum taxarem-no de burguês, com as implicações marxistas desta qualificação; a direita é vezeira em recriminá-lo mercê do seu anti-teologismo e em taxá-lo, erradamente, de autoritário. Na Mídia sem Máscara, observo algum anti-positivismo que se origina, por certo, na convicção teológica dos seus intervenientes, como nos ensinamentos de Olavo de Carvalho, mal informado sobre o Positivismo, a cujo respeito emitiu só estupidezes no seu Jardim das Aflições. Tanto na esquerda quanto na direita, há fanáticos maniqueus, que, uns, rotulam o Positivismo como pertencendo ao inimigo; os outros fazem o mesmo, em relação aos primeiros. Com gente assim, não há diálogo nem serenidade, troca de idéias nem convívio intelectual. Entre o Positivismo e a esquerda há afinidades, na sua preocupação com a função social da propriedade, com a justiça social, com a incorporação social do proletariado, com a elevação do nível das massas, na recusa da teologia; há afinidades com a direita na conservação da experiência histórica, na evolução gradual das instituições, na aceitação das diferenças, na adesão à propriedade privada. É simplificador taxá-lo de esquerda ou de direita; o Positivismo não pertence a um nem ao outro: é igual apenas a si próprio. O próprio Augusto Comte foi explícito em diferenciá-lo do que designava por revolucionários e por conservadores; ambos encarnam correntes que, “mutatis mutandis”, perduram na atualidade. Aliás, a ignorância é tal, entre nós, sobre o Positivismo, que os nossos “conservadores” sequer atentaram, jamais, a que Comte escreveu um “Apelo aos conservadores”, em que precisou, com rigor doutrinário, o que entendia pelo adjetivo. Quanto ao radicalismo ideológico, daqueles em quem prepondera a mentalidade do “quem não está comigo, está contra mim”, nada se pode esperar além de intolerância e agressividade; é dos outros que se pode esperar o estudo sereno e bem intencionado do Positivismo e a elevação do nível do debate intelectual. Os outros correspondem aos que buscam conhecer as doutrinas com isenção, ao invés de julgá-las consoante os seus pressupostos ideológicos ou de reproduzirem, ingenuamente, as muitas deturpações produzidas pelos ignorantes ou pelos malignos.

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