Não!

Quinze minutos depois...

Esperemos um pouco, pois ele deve voltar. Contudo pode nunca mais adentrar aquele salão, nunca mais olhar nos olhos daquele à quem negou compartilhar sua vida. Em verdade, negou-se a assinar um papel. Seria um papel a prova do compartilhar? A caneta que assina, o juiz que atesta, a cerimônia harmoniosa, algum desses símbolos podem garantir a lealdade?  Deixemos de viajar no assunto e escutemos a conversa daquelas duas figuras femininas, mãe e filha, sentadas atônitas próximas ao púlpito elegantemente improvisado para a cerimônia.

“Pra onde ele foi?”. Mãe e filha se olham consternadas. Imagino ser consternação o que vejo nos olhos das duas ou talvez tenham me induzido, através de sua fala, a tirar conclusões precipitadas.

“Será que desistiu?”

“Depende... o que você entende por desistir?”

“Não entendo mãe... Cê entende bem mais de desistência de
casamento do que eu!”

“Como se o seu tivesse sido um sucesso.”

“Eu pelo menos lutei até o fim, pois acredito na família. O Marcos se manteve ao meu lado até que foi impossível sustentar as estruturas que construímos, foi algo conjunto, nós dois lutamos.”

“Contra o que lutavam?”

Aguardem um instante. Estão em silêncio. Elas precisam pensar e não depende de nós tirá-las daquela imersão em profundos questionamentos. Talvez nem tão profundos assim, mormente para a filha; mal acostumada com o ato de refletir. O tablet na mão prova sua inclinação à dispersão pós-moderna.

“Você acha mesmo que eu não lutei, filha? O seu casamento durou um ano e meio, eu vivi com o Antônio por mais de vinte anos. A vida conjugal de vocês nem chegou a cair na rotina.”

“Como não? Fazia meses que nós chegávamos em casa no mesmo horário, íamos pra mesma academia... E em casa ele só tinha tempo praqueles jogos online. Os fins de semana eram tediosos, inúteis.”
“E como são seus fins de semana agora?”

A filha chora parcas lágrimas. Mas não devemos mudar o foco da narrativa, não olhe para o outro lado, leitor, e nem clique em outra aba de seu browser. Apenas concentre-se. Ela é agora acolhida pela mãe que sente o peso da incerteza. A cabeça, recostada no ombro de sua progenitora, vira-se levemente com o intuito de verificar o alerta de mensagem piscando na tela do aparato eletrônico ainda vibrante em sua mão: “Toh bem, mas mto assustado =o(”

“Veja, seu filho mandou mensagem.”

Entre ler a frase, entender seu contexto e tentar raciocinar sobre os motivos daquela evasão repentina, lá se vão diversas hipóteses. Contudo, aquela mãe tenta ser fria e forte. O noivo – Exatamente! O que foi deixado para trás naquele salão cheio de convidados – aproximou-se.

“Cês têm alguma notícia dele?”

“Não volta.” Quem disse? Não importa.

Essa foi, sem dúvida, uma resposta bem seca. Ríspida? Não, talvez não. Seria o caso de pensar quão tênue é a separação entre os dois conceitos. Todavia deixemos as divagações e caminhemos com os três até a porta onde uma pequena concentração se faz presente. Os convidados, cansados após uma hora de espera, se aglomeram na entrada. Alguns curiosos, ou esperançosos que ele ainda retorne para dizer “Sim”, olham para o horizonte em direção ao fim da avenida. Entrevendo a chegada daquelas três figuras protagonistas, desistem da empreitada.

Trinta minutos depois...

Salão vazio. O noivo remanescente está preso à porta, tão preso quanto se pode estar quando o único alento é a certeza indissolúvel do que não se quer admitir. A mãe chega perto, abraça. Consola.

“Por que seu filho fez isso? Já moramos há um ano juntos e ele ainda tinha dúvidas?”

“Eu não sei.”

“Tô completamente perdido, não sei o que pensar. Como vou voltar pra casa? Será que ele vai estar lá? Como vou fazer para viver sem ele.”

“A vida é finita, contudo viver não tem fim...”



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