Travestis mortas no interior do Paraná exemplificam descaso com crimes homofóbicos

Dois crimes no final de 2011, ocorridos no interior do Paraná, fecharam a lista de crimes homofóbicos no Brasil, que deve repetir os mais de 260 crimes registrados em 2010. Apesar de representarem um grupo menor do que a comunidade gay, as travestis e transexuais assassinadas fazem parte de mais de um terço das vítimas das estatísticas de crimes em razão da orientação sexual. Em dados preliminares do Grupo Gay da Bahia, 97 travestis e transexuais foram assassinadas, apenas em 2011.

Nestes crimes, uma história em comum: jovens abandonadas pelas famílias, que caem na prostituição como forma de sustento e tem morte trágica por tiro ou faca, e desfalecem na sarjeta das ruas dos grandes centros. Duas mortes no Paraná ilustram esse roteiro criado pelo descaso.

Magnólia, 31 anos, encontrada morta às 4 horas do dia 29 de Dezembro no Centro de Maringá, Norte do Paraná. A morte foi no cruzamento das avenidas Herval e Brasil e a vítima levou um tiro no olho esquerdo. Magnólia havia saído de Umuarama, e sobrevivia se prostituindo na nova cidade. Testemunhas afirmaram à polícia que o autor do crime estava em uma Zafira azul, com outros quatro ocupantes, de onde partiu o tiro fatal. O grupo fugiu em alta velocidade e a polícia conta com as imagens das câmeras de segurança para chegar ao autor do crime.

Já em Apucarana, também no Norte do Paraná, Bruninha, de apenas 19 anos, foi morta com um tiro no rosto, no Cemitério da Saudade, no Centro da cidade de 120 mil habitantes. O crime ocorreu em plena luz do dia, por volta da hora do almoço, na véspera do último Natal. Um rapaz disparou o tiro fatal e fugiu do local. Em Outubro, Bruninha já havia sido vítima de uma tentativa de assassinato, quando foi atacada e levou quatro golpes de facão perto de sua casa.

Sobre as duas travestis mortas, foi dito na imprensa local: “Bruninha já era velho (sic) conhecido das autoridades. Quando era adolescente ele foi detido diversas vezes por furto e roubo na região da Avenida Minas Gerais e recentemente acabou acusado de assaltar um motel e roubar dinheiro e celular de dois motoristas que estavam em um posto de combustível”. E ainda: “Segundo o investigador João Pelissari, foi apurado preliminarmente que a vítima (Magnólia) era usuária de crack e cometia pequenos furtos e roubos para sustentar o vício. A polícia não descarta a hipótese que o crime tenha sido cometido por uma das vítimas do travesti”. 

Em ambos os casos, os chamados grupos de direitos humanos ou grupos LGBT não se manifestaram. Nos dois casos, além das imagens da barbárie e nomes de nascimento nos jornais locais, foi publicado que as duas seriam usuárias de drogas e cometiam furtos. Brigas por causa de ponto de prostituição e o uso de drogas são comumente usados para justificar esses crimes, colocando a homofobia em segundo plano. Os próprios grupos LGBT se afastam de casos em que a reputação da vítima torna desinteressante a luta contra a homofobia. A vítima, além de vilipendiada, fica sozinha e o caso muitas vezes sem solução, pois não há pressão de parentes ou de grupos interessados. E todo mundo finge que não vê, que nada está acontecendo...


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