Assimetria dos Tempos

Ânimo! Mas não se animou. Porquanto não tinha motivo para animar-se, que besteira, acordar animado sem motivo algum. Pensava em quem lhe havia dito aquilo: talvez o seu outro ser, aquele que não pressupõe a necessidade de viver para só então sentir alguma coisa. Contudo, mesmo sem saber a procedência, não dava crédito pra tamanha besteira, pois é preciso viver, é preciso sentir, ser tocado ou mesmo xingado. Sentiu raiva daquele outro eu. Pronto: assim é melhor. Sentiu algo e pôde, enfim, animar-se para uma nova manhã que raiava...

O que mais viesse de sentimentos, talvez angústia, uma possível dor de cabeça pelo estresse do dia anterior, talvez um simples sorriso que receberia de alguém ou mesmo a ausência de um sorriso. Não importava, o que viria pela frente não importa para o momento, quando se está no momento. Chega de divagações entre o presente e o passado. Ou seria o futuro? Não, o futuro ainda não chegou, disse consigo. Aguarde, ele dorme acordado, não devemos interromper tamanha tempestade mental. Ele sairá em breve.

Levantou, se é que antes estava deitado. Não importa. Caminhou, caso pensastes que ele havia parado no tempo. Qualquer tenha sido o seu devaneio quanto à cena narrada anteriormente. Caro leitor, apenas entenda que nosso personagem agiu e chegou ao momento atual. Sim, nesse mesmo instante em que lês essas linhas.

Agora, está sob o teto de um Shopping Center qualquer, escolhendo um perfume. Vaga os olhos pelos frascos. Corre das cores que lhe pareçam mensagens subliminares. Encontra. Pega o produto e é interpelado: “É pra sua namorada?”. Não responde e ignora aquela tática de venda. Borrifa um pouco em seu punho levemente cerrado, sente um aroma floral que lhe agrada. Sua satisfação é evidente. “Qual a fragrância favorita dela? É desses florais suaves que ela gosta?”. Insistência que merece resposta seca: “É pra mim!”.

“Entendo”. Some de sua frente a figura insuportável. Não assuma que a palavra figura refere-se a uma mulher. Nem a um homem. Apenas entenda que o consumidor, personagem central dessa história, está provando, deliciando-se com sua possível aquisição imediata. Se o faz feliz? Talvez sim, mas apenas porque o sintético que segura foi desenhado e pensado para trazer felicidade imediata. Não digo que não será feliz utilizando aquele perfume no futuro. Pronto, chegamos ao futuro.

Ele estará no caixa e alguém perguntará seu nome, oferecerá uma ficha para ganhar um cartão-fidelidade e por fim lhe parabenizará: “Parabéns, seu namorado vai adorar esse perfume em você”. Voltando ao inicio desse parágrafo, no passado, ele respondeu: “Felipe”, “Não, obrigado” e “Eu não sou guei”.




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