Leia a tradução na íntegra do editorial histórico da Playboy a favor do casamento gay assinado por Hugh Hefner

Aos 86 anos de idade, o fundador de Playboy, Hugh M. Hefner , assina o editorial "Liberdade Sexual" da edição de setembro da Playboy dos EUA e defende o casamento gay. O texto histórico é ilustrado com a logomarca da empresa, o famoso coelho engravatado, com as cores do arco íris. Leia abaixo o texto na íntegra, traduzido por Allan Johan, editor da Lado A.
 
Liberdade Sexual
 
Editorial por Hugh M. Hefner 
 
Em 1965, em Indiana, a polícia prendeu Charles Cotner e o acusou de “abominável e detestável crime contra a natureza”. Seu crime? Sexo anal consensual com sua esposa. Ele foi condenado a 14 anos de prisão. Quando eu fiquei sabendo do caso de Cotner – seu advogado escreveu a Playboy pedindo assistência – eu fiquei atônito. Sua esposa, que assinou a reclamação depois que o casal discutiu, mudou de idéia e pediu para que a queixa fosse retirada. Mas o juiz recusou, e Cotner serviu aproximadamente 3 anos na prisão, até que a Fundação Playboy conseguisse libertá-lo.
 
Enquanto trabalhamos para revogar leis absurdas como esta que colocou Cotner atrás das grades, eu aprendi muito sobre as pessoas que querem controlar o que acontece nas camas na América. Aqueles que se opõem a nós tem sempre algo em comum: Eles estão em uma cruzada para eliminar o sexo sem intenção do propósito de procriação.
 
Você pode pensar que esta história não tem nada a ver com você ou sua vida na América em 2012. Mas, infelizmente, você estaria errado. As forças que colocaram Charles Cotner na prisão são as mesmas que trabalham neste momento. Se você quer um exemplo perfeito, dê uma olhada na controvérsia que continua a rejeitar o direito de homens e mulheres gays a se casarem. A luta pelo casamento gay é, na verdade, uma luta por todos os nossos direitos. Sem isso, nós iremos retroceder a revolução sexual e retornar para antigamente, aos tempos puritanos.
 
Eu me lembro desse tempo. Quando eu escrevi a “A Filosofia da Playboy” [Texto lançado pela Playboy em prol da revolução sexual], no início dos anos  60, tanto o sexo oral quanto o sexo anal eram ilegais em 49 dos 50 estados. Em 10 destes, a sodomia – que era definida de diversas formas e poderia, em alguns estados, incluir o sexo oral – chegavam a ter uma sentença de até 20 anos. Cidadãos de Connecticut que fizeram sexo oral encararam 30 anos na prisão – 60 anos para pessoas que viviam na Carolina do Norte. Em Nevada, podia significar uma vida atrás das grades. Era o mesmo tempo em que 37 estados não permitiam o sexo entre pessoas não casadas e em que 45 criminalizavam o adultério. Dois estados até baniram as preliminares.
 
Este é o mundo opressivo para qual alguns querem que retornemos. Esse moralismo diz que se o sexo não gera uma criança, é um pecado. Sua vida sexual, seu direito a privacidade e os direitos dos homens e mulheres em qualquer lugar são conseqüências desta crença. No Arizona, uma lei foi proposta para que mulheres que esperassem que o seguro cobrisse gastos com controle de natalidade tivessem que fornecer obrigatoriamente a seus empregadores uma prova de que elas estavam tomando pílula apenas em casos de alguma condição médica – não apenas com propósito contraceptivo, com argumento de que a venda poderia violar a crença religiosa do farmacêutico. Leis similares existem no Arkansas, Geórgia, Mississipi e Dakota do Sul. Legisladores do Michigan estão forçando uma das leis mais rígidas anti aborto das últimas décadas, enquanto no Texas e na Pensilvânia pessoas continuam a exigir o corte de verbas dos Centros de Planejamento de Paternidade que dão ajuda médica a incontáveis mulheres. Por toda a América esses conservadores continuam a atacar os direitos de gays, seja negando o direito deles ao casamento ou, como no Kansas, na tentativa de empoderar inquilinos, empresários e patrões a discriminarem os gays com base na religião. E no início do ano, quando um legislador da Virgínia disse a CNN que “sodomia não era um direito civil” eu pensei em Charles Cotner e em quanto tempo nos sobrará até que perderemos todos os avanços da revolução sexual.
 
Há quase 50 anos, nas páginas dessa revista, eu avisei que “quando a religião dita as legislação no lugar da razão, não espere lógica de suas leis!”. Hoje, em cada instância do direito sexual que está sob ataque, você encontrará uma legislação forçada por pessoas que praticam discriminação disfarçada de liberdade religiosa. O objetivo deles é desumanizar a sexualidade de todos e reduzir o uso do sexo apenas para o propósito de perpetuação da nossa espécie. E ao final disso, eles vão criminalizar toda a sua vida sexual.
 
Esta é uma nação religiosa mas é também uma nação secular. Por décadas o povo americano encontrou um modo de balancear suas crenças religiosas com liberdades seculares. Nós desfrutamos da liberdade DE religião tanto quanto da liberdade DA religião. Estas não necessitam ser incompatíveis. Ninguém deveria ter que subjulgar a liberdade religiosa deles, e ninguém deveria ter suas liberdades individuais atingidas. Esta é a América e precisamos proteger os direitos de todos os americanos.
 
 

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