O passivo versátil e o machismo gay #leia

Nunca vi uma pessoa dizer que é passivo versátil com orgulho fora do meio digital, a exemplo dos ativos que adoram este título secundário. Ora, ou se é versátil ou não. Não gosto de supor generalizações mas podemos dizer que todo gay gosta de pênis, e que gosta de outro homem, normalmente outro gay... Bem, mas por que tanto medo de assumir a passividade? #libera

Há problemas sérios com muitos gays pseudo ativos. Assim como mulheres que não conseguem o orgasmo, muitos homens não sentem prazer na posição de passivos. Não necessariamente eles não são passivos, mas em muitos casos não se permitem ser. Há um machismo dominante, que joga os passivos para a inferioridade, que reproduz a situação enfrentada pelas mulheres na sociedade. Passivos que tiveram muitos parceiros são “putas”, ativos que tiveram muitos parceiros são “pegadores”. Passivos são “mulherzinha”, como nos bullyings lá da infância, e que mal tem nisso? A mulher não é inferior ao homem, ora... mas para alguns gays criados em ambientes machista, ou seja, quase todos, é sim. #sejoga

Esse machismo cultural enraizado causa estranheza quando conhecemos um passivo que é feliz, se assume como passivo, fala naturalmente sobre o assunto e escacara nossos preconceitos. Se ele for efeminado ainda, choca mais. E quem se choca ainda nos dias de hoje? Todos nós, os caretas que não podemos ver as nossas limitações intelectuais, culturais, mentais, físicas, financeiras ou emocionais superadas nos outros. #recalque

Há um preconceito grande no meio gay contra os passivos e afeminados. Parte por causa da programação preconceituosa que recebemos de nossos pais heterossexuais e da sociedade heteronormativa machista, parte por nossa falta de capacidade de se colocar no lugar do outro. Se uma pessoa assume o que gosta, seja ser passivo, seja ser afeminado, em nada isso nos prejudica, ou mesmo ao movimento, ou mesmo à imagem dos gays. Se um indivíduo é todo o estereótipo que rejeitamos para nós, não quer dizer que nossa individualidade será prejudicada. #acorda

Os afeminados, nem sempre compreendido por passivos sexualmente, são rejeitados pelos “discretos”, que também não são integrados por ativos apenas. Se a gente fala em “opção sexual”, talvez, nem ser ativo ou passivo seja uma escolha consciente, e menos ainda ser discreto ou não. Trata-se de uma construção de auto imagem, que serve muito mais para nossa auto avaliação do que para a avaliação do outro. “Sou feliz assim”, deve dizer essa identidade social. A nossa avaliação do outro deve se pautar por caráter, afinidades e “interesses”. Sim, interesses, pois conheço muito ativo discreto versátil que adora um passivo afeminado versátil, e chega na cama invertem os tais “papéis”. #safada

Eu detesto os rótulos, mas não é possível ignorá-los quando os mesmos são usados para promover a hipocrisia. Tem gente que não gosta do rótulo gay, ou tantos outros, mas enquanto os gays, sobretudo os afeminados, estiverem sendo alvo do fogo amigo ou inimigo, temos que falar assim, rotulando, para mostrar o preconceito pontual e discutir o assunto. #nolabel

O termo “orientação sexual” substitui a expressão “opção sexual”, de escolha consciente virou desejo orientado pelo cérebro, sentir atração involuntária. Há alguns anos o termo “condição sexual” foi proposto, logo foi rejeitado por condição indicar uma “doença” ou “fator anômalo”. Mas quando falamos em gay, ativo, passivo, discreto, afeminado, assumido ou não, podemos perceber que estes rótulos ou situações indicam algo importante para a felicidade, ou seja, não há escolhas, mas fatores importantes para a autorrealização e felicidade individual e ninguém tem nada a ver com isso. #sejafeliz

Parabéns a todos os passivos que são muito mais "machos" (ou não covardes - olha como a idolatria ao macho/homem está enraizada até em nosso vocabulário) e assumem o risco de enfrentar o machismo da sociedade, o mesmo que fomenta a homofobia, pois para muitos o homossexual deveria ficar no armário, discreto e caladinho. E tem gay que concorda... pois ao se preocuparem tanto com a auto imagem esqueceram de perceber que são claramente infelizes. E não há nada mais visível e triste do que um ser mal comido. #prontofalei

 

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Comentários

Eu não tenho nem palavras pra

Eu não tenho nem palavras pra descrever a sensação que estou sentindo agora, eu tenho muito orgulho de ser gay, eu adoro todos os gays em todas as escalas, porque é a minha gente, a minha comunidade... Esse texto é tudo que eu gostaria de esfregar na cara de alguns mal comidos. Esses dias entrei numa comunidade pra fazer amizade no facebook e já dei de cara com o post de um filho da mãe que dizia: "AFEMINADOS ME ERREM!!!", eu fiquei indignado, o cara entra pra fazer amizade e vai logo escolhendo esteriotipos, eu sou gay com orgulho e tenho muitos amigos gays, mais ou menos ou nada afeminados e o que vejo nessas pessoas não é a aparência delas, mas a essência o que elas representam pra mim e não suporto esse preconceito dentro da própria comunidade gay isso é ridiculo, ter lutar contra a homofobia dentro da própria comunidade gay...

O texto é muito bom e

O texto é muito bom e provocativo. Outra questão pode ser acrescentada ao debate: o preconceito internalizado que é transformado em opressão de iguais: “eu me sinto inferior, então vou discriminar o meu igual, que não pode ‘ser/se sentir’ melhor que eu”. Exemplos são judeus que subjugaram outros nos campos de concentração, hispânicos de longa data nos EUA que ridicularizam os novatos, negros criticando o sucesso de outros e o exemplo do artigo. Não posso falar de forma científica, mas além do preconceito vindo do “diferente” ou “pseudo-diferente”, quantos shows de auditório ‘gays’ e quantos gays (passivos) dos clubinhos do Rio às areias da Praia Mole estão o tempo todo a ridicularizar as “passivas” e a fazer piadas de gênero, onde o feminino é motivo de chacota ou humilhação. Lembro muitas vezes quando elogiei um desconhecido e outro gay tentou desconstruir usando: “É passivérrima, bee.” (?) Ou um rapaz que foi recolher o lixo na praia friendly e virou “a empregada passivinha mostrando o traseiro”. Não vejo heterossexuais ou gays ativos (que dependem e gostam dos passivos) se referindo a outros assim. Esse deboche com o feminino é frequente na socialização dos gays – sendo estes, no fundo, frequentemente tão machistas quanto a sociedade machista), logo, precisa-se mais consciência e responsabilidade se queremos mudar esse ‘cenário’. Uma piadinha aqui pode ser um assassinato lá no fim da linha. (Sugiro a leitura de “A Inocência e o Vício: Estudos sobre o homoerostimo”, de Jurandir Freire) Concluindo, há uma tendência – às vezes, justificada – de atribuir o preconceito a outro distante mas que, neste caso, serve para se auto vitimar e se eximir da responsabilidade. Por isso, esse artigo é um bom começo para um grande 'mutirão de desconstrução do preconceito', o que requer muita informação, (auto)conhecimento e tolerância com o iguais e os diferentes.

Muito bom o texto. Acho que o

Muito bom o texto. Acho que o gay, considerando o exercício pleno da sua sexualidade é um versátil por natureza. O que nos resta é explorar as nossas maneiras de obter e dar prazer. Eu particularmente ando na contramão desse preconceito: me esforço quanto posso para ser um passivo melhor a cada dia, mesmo não achando fácil. Ser passivo é ser muito macho.

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