Quem mexeu no meu sangue?

Por Bruno de Abreu Rangel
 
Qual seria a nossa reação ao descobrir, depois de um bom tempo juntos, que a pessoa com quem dividimos uma existência, tem HIV e nunca nos contou? Mexam com o nosso coração, mas nunca com o nosso sangue. 
 
Já vinha pensando em escrever sobre esse assunto há um tempo, mas não sabia por onde começar. Para a alegria da minha inspiração, um e-mail recebido de um leitor assíduo do meu blog, que preferiu preservar a sua identidade, caiu como uma luva.  Narrou a sua história e pediu que eu a publicasse no intuito de abrir a mente das pessoas que enxergam a AIDS como um estigma ou que, simplesmente não pensam sobre o assunto. Cada um lerá no silêncio da sua alma, assimilará com a consciência e gladiará com seus próprios anjos e demônios. A fragilidade reina quando se tocam em assuntos como rejeição, impunidade e morte: isso é o que nos vem à mente quando falamos sobre HIV. Quem, por mais puritano que seja, não vive a angústia de abrir o resultado de um exame?
 
Mas antes quero falar sobre um fato que presenciei.


 
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Certa vez, jogando papo fora com amigos numa mesa de bar, uma ambulante, voluntária de uma Ong da qual não me recordo o nome, chegou sem pedir licença e jogou alguns kits sobre a mesa: um broche; uma camisinha e um folder explicativo com emblemas escritos em letras garrafais: PREVINA-SE CONTRA A AIDS.
 
Nem precisa dizer que um silêncio fatídico se instalou por uma fração de segundos que pareciam eternos - chegava a incomodar. A sensação que eu tinha era a de que uma arma nos fora apontada na cabeça e ao invés de nos roubar qualquer coisa material, nos tirou a sensação da zona de conforto que, naquela tarde, era celebrada por alguns copos de cerveja. Sim, porque se você tem saúde, emprego, família, um teto pra dormir ou, um romance que seja – bem vindo à zona de conforto que talvez você nem dê tanto valor.
 
Sem pestanejar todos sacaram os dez reais e pagaram pelo kit alforria que no inconsciente dizia: Não quero que isso aconteça comigo.  Porque a gente, na nossa mediocridade, acredita que alguns problemas nunca vão bater na nossa porta. E ajudamos porque somos bons, solidários, generosos. Mentira! Ajudamos pelo egoísmo, pelo receio de um dia experimentar a dor de uma cama, pelo medo de conviver com a ideia da morte num calendário, por puro receio de que um dia possa acontecer conosco e não haver uma mão que possamos segurar. É o famoso desencargo de consciência. Isso explica porque as campanhas contra câncer, crianças carentes, deficientes físicos estão sempre batendo os recordes em suas arrecadações – por puro medo.
 
Esse, ainda é sim um tema polêmico que causa tremor nas pernas, cutuca na fraqueza do ser humano e nos faz repensar atitudes guardadas a sete chaves.  Mas já temos a consciência de que a AIDS em 2014 não é mais o fantasma da década de 80 em que era vista por todos como uma “lepra” da Bíblia que punia os gays - passível de todos os julgamentos possíveis. Hoje em dia, dados apontam que os heterossexuais já se tornaram o maior grupo de risco e aquela imagem do Cazuza definhando numa cama também é passado. Vive-se com HIV como um diabético: tomando os remédios e preservando hábitos saudáveis. 
 
Seguiremos com a história do leitor que prefiro intitular como Marcelo.

 
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Foi através das Redes Sociais que eles se apaixonaram, embora tenham se conhecido mesmo só depois de algum tempo. Hoje as etapas são invertidas e já nos habituamos com isso.  Quando estavam juntos conseguiam experimentar a sensação de se complementarem, exatamente como mostra nos filmes de amor; como cita a sinastria da Astrologia, como acontece com a maioria das pessoas quando escuta um “Eu te amo” que vem da alma – é brilho nos olhos na certa.

 
O problema da intimidade é que ela acaba embaçando a pintura de uma vida perfeita que criamos na nossa imaginação. E no caso deles a primeira borrada de tinta apareceu quando Marcelo decidiu, por alguma desconfiança, vasculhar a agenda telefônica de seu namorado. 
 
Beirando a imparcialidade, abro um parêntese: (Se você acredita no seu parceiro suficientemente para transar sem proteção, mexer no seu celular seria um ato tremendamente contraditório). Cada um com o seu espaço. Ponto para a camisinha e que venha a confiança.    
 
O resultado obviamente não foi dos melhores, uma agenda recheada, com uma quantidade infindável de nomes como: Ale Sampa, André Hornet... Beto Scruff, Breno ativão ... C, X, Y, Z.  Ali ele descobriu que tinha se apaixonado por um verdadeiro pegador, cuja vida sexual era bastante agitada. E que atire a primeira pedra quem nunca teve a sua fase.  A gente tem zero influência sobre a opção de vida das pessoas e nenhum poder de mudar o passado de alguém. Quando decidimos apostar num relacionamento o que está em jogo é o ponto de partida. Foi pensando assim que Marcelo deu uma chance à sua relação passando por cima de contatos que, a certa altura, eram apenas números aleatórios, sem o menor significado para ambos.
 
Numa viagem de férias para a casa de praia dos amigos ele, por uma ordem súbita da sua intuição, decidiu mexer na bolsa de seu amado e encontrou um pequeno malote de alumínio, bastante curioso. Era como se tivesse encontrado a caixa de Pandora e ao abrir se deparou com comprimidos. Seu namorado flagrou o incidente, tomou-lhe o malote com fúria e tentou se esquivar. Após uma série de questionamentos que mais pareciam táticas de tortura, as lágrimas escorriam, o rapaz caiu num choro compulsivo, implorou por um perdão imprevisível e a verdade veio à tona: o pegador com centenas de contatos do celular era soropositivo. Era quase impossível perceber, mal adoecia, tinha uma vida saudável, um corpo tão lindo que colocava muita gente no chinelo. Vale lembrar que o fato de o rapaz ser o “pegador” não determina que o mesmo tenha a doença, sei de casos de pessoas que foram infectadas na primeira relação. 
 
E, a hora certa pra contar e como contar? Isso já foge da minha alçada, apesar de que rende um novo texto.
Juntam-se as peças, monta-se o quebra-cabeça e partem-se corações. Todos os dias lares são surpreendidos com notícias desse tipo. Tudo isso nos faz questionar o comportamento humano em momentos de extrema pressão psicológica. Olhando com um olhar mais crítico e fazendo um retrospecto mental, quantas das pessoas com quem já transamos eram soropositivas? Nem perca seu tempo. Impossível ter acesso a esse tipo de informação. 
 
Não dá pra generalizar e nem pra viver de estatísticas, mas no meio desse caldeirão de relações sexuais, pode apostar, já cruzamos com gente que nunca fez um exame de sangue, com outras que, apesar de soropositivas, se medicam e gozam da saúde plena e, também, com uma pequena fatia que, ao invés de mexer no queijo, vai mexer no nosso sangue - por pura maldade - pela raiva de não aceitar o fato de terem sido infectadas e levarem a ferro e fogo um senso de justiça totalmente corruptível e desumano. Pessoas mal intencionadas estão por toda parte e é bom esclarecer que, nesse caso, ninguém é vítima. Não caiamos nessa cilada. Doar dez reais para uma Ong não é o suficiente para livrar a nossa cara.
 
Para a felicidade do casal, que não é uma amostra fidedigna de todos os relacionamentos, nada foi alterado em suas vidas, seja com relação ao sangue ou aos planos de viver uma vida a dois. Ambos estão em perfeita saúde e apesar de soro discordantes, entenderam o significado da resiliência, rasgaram o rascunho e reescreveram uma nova história, dessa vez mais realista – amar sem ficar consumido pela ideia do eterno, mas com foco na confiança e no companheirismo.
 
‘Marcelo, antes de sair para o trabalho, deu um beijo no namorado que ainda estava jogado na cama e sussurrou-lhe nos ouvidos: – Amor, não se esqueça de tomar os remédios às dez horas. E se foi deixando no rapaz aquela sensação de: Obrigado por me fazer feliz. ’
 Isso é amar nos pequenos gestos, isso é condição de entrega.
 
 
Bruno de Abreu Rangel
 

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