Carta Aberta: OMS, por que não jogam o antirretroviral na água que bebemos?

Cansei de ser tachado de promíscuo por ser homossexual. Cansei de fingirem que se importam com a Aids ou com nós gays. Tenho 34 anos, e há 15 anos acompanho de perto a tal epidemia que surgiu como “câncer gay” nos primeiros anos, logo depois que nasci, e desde então sou chamado de grupo de risco, grupo de risco acrescido, população vulnerável e agora acabam de inventar um novo termo: População “chave”. Na última sexta-feira, a Organização Mundial da Saúde propôs que homens que fazem sexo com homens saudáveis (bem como população carcerária, transexuais e profissionais do sexo) tomem o coquetel antirretroviral de forma ostensiva, como prevenção, seguindo recomendação do ano passado da USaids e Unaids. Um absurdo sem tamanho no meu ponto de vista.

Sou soronegativo, ou seja, eu seria um destes que deveria participar de tal “esforço” mundial para conter a epidemia. Como jornalista, tive acesso a muitas informações sobre HIV Aids, já trabalhei com projetos de prevenção com a comunidade gay e tenho contato com cientistas frequentemente. O preservativo é uma forma segura de prevenção, sabe-se bem, e quem não usa, por que tomaria um remédio que lhe trará mal estar?

Para início de conversa, o tratamento é pesado e são grandes os efeitos colaterais. Em segundo, é a quarta geração de antirretrovirais, como se sabe, há cepas diferentes do vírus e eles são altamente mutantes. Outra: Não é porque eu sou homossexual que eu corro 19 vezes mais risco, como afirma o documento. Reconheço que o sexo anal é mais arriscado por conta da vascularização local, mas não apenas homossexuais fazem essa modalidade de sexo. A questão é dizer que todos os gays e homens que fazem sexo com homem não usam  preservativo ou tem comportamento de risco.

Há um equívoco muito grande em pensar que gays em países onde ser homossexual é crime iriam aderir ao tratamento, ou ainda, que o medicamento traria segurança na prevenção ou não deixaria que novas formas do vírus surgissem.

Não posso afirmar que o tratamento da Aids é um lobby da indústria de medicamentos, mas posso dizer que a cura da Aids já se mostrou possível com o transplante de medula óssea e falta dinheiro para pesquisas da cura e sobra para novos remédios. Não posso afirmar que a Aids é uma doença criada em laboratório, uma arma de extermínio, mas posso dizer que se homossexuais se beneficiariam deste tratamento mundial, logo todos deveriam tomar o antirretroviral.

A indicação da OMS lembra que homens que fazem sexo com homens transmitem o vírus a mulheres, o que me faz pensar se este é o real motivo da preocupação com a epidemia na comunidade gay. Foi assim no início, a Aids só passou a ser levada a sério depois que heterossexuais morreram. E foram muitos, mas os gays estavam lá sozinhos nos hospitais e a imprensa fez a festa, tachando por anos como uma doença gay. Até hoje gays morrem decorrentes da Aids, enquanto héteros morrem de outros fatores, pois as famílias ainda abafam a causa da morte.

Sei que o HIV é mais comum no meio homossexual, mas os gays se protegem mais - embora tenham mais parceiros em média, se testam mais - por isso os números da comunidade homossexual são tão altos ou reais – mas as pesquisas seguem o perfil do gay promíscuo e ignora o tamanho do universo homossexual, bissexual e afins. Mas os dados da chamada “população em geral” não refletem a verdade para servirem de comparação pois não pegam as pessoas com os mesmos hábitos e comportamentos sexuais das pesquisas voltadas aos homossexuais.

Não quero entrar em méritos de prevenção e comportamento, mas a declaração da OMS é cheia de moral e julgamento. Entendo que os números são alarmantes, fato, mas não podem reforçar os estereótipos que nos cercam desta maneira, mais uma vez. Ora, a epidemia de HPV, papilomavírus humano, é enorme na comunidade homossexuais mas a OMS só indica a vacinação para as mulheres, por conta do câncer de colo de útero, uma das principais causas de morte delas. Mas temos grandes índices de homossexuais morrendo de câncer retal por conta do HPV. Homem heterossexual não tem HPV no reto e o câncer peniano não mata tanto, logo não tem indicação de vacinação para homens homossexuais. O que vejo é que a Saúde Pública, ou a OMS, não nos leva a sério como diz. O sangue gay continua sendo ignorado nos bancos de sangue por algum motivo não explicado. Há testes suficientes para detectar o vírus, isso não há dúvidas. Esbarra-se no fator custo quase sempre como desculpa.

A epidemia da Aids avança sem controle e nunca se revelou os bastidores dessa lucrativa doença. O genoma humano foi decodificado e esta síndrome viral continua sem cura. Está na hora dos pesquisadores e governantes nos contarem as verdades sobre o surgimento e a cura da doença, talvez assim a comunidade gay leve a sério um compromisso de lutar contra a epidemia que a persegue. 

 
 

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Comentários

Allan,

Allan, Achei sua matéria enquanto fazia uma busca no Google sobre A Cura da AIDS, sou soropositivo desde o final de 2013 e isso muito me interessa, sim. Confesso que antes tinha uma visão parecida com a sua, turva e absolutamente contraditória sobre o assunto – foi o que percebi ao ler seu texto. Em um momento você se diz cansado de ser tachado de promíscuo e no outro você considera que o HIV é mais comum no meio homossexual. Também, por ser gay, nunca curti o termo “grupo de risco” e congêneres, mas como você mesmo diz - “embora tenham (os gays) mais parceiros em média” - e, nesse sentido, sabia tanto quanto você que o HIV é mais comum, sem sombra de dúvida, no meio gay. Hoje convivo de perto com ele, dentro de mim sendo mais preciso. Para certas coisas não existem termos bonitinhos ou leves, infelizmente. O que existe é a realidade - um tanto ambíguo, não é? Ambíguo também é o comportamento que você narra, pois se os gays, como você mesmo diz, se protegessem mais, não haveria a necessidade de se testarem mais, não concorda? Afinal, pra que ficar passando pelo pânico de um possível resultado positivo sempre – fetiche? A proposta da OMS parece dura, afinal não há necessidade de uma terapia preventiva se somos um grupo que se protege mais, embora sempre nos testamos, concorda? Ao contrário, não julgo ser esta uma proposta absurda, apesar de reconhecer que ninguém adotará tão cedo. Acredito que não precisa ser soronegativo para participar de “tal esforço”, muito menos jornalista para ter conhecimento e acesso à informação sobre a doença, neste meio em que estou debatendo. Basta ter o vírus e ser, sim, obrigado a tomar os antirretrovirais para manutenção da sua vida, com ou sem mal-estar, é o ritual a ser adotado. Lembrando que uma bula de qualquer medicamento traz um monte de possíveis efeitos – não estou aqui querendo banalizar. Como tens contato com cientistas frequentemente, deve saber que o protocolo terapêutico para o HIV 2014 é, em linhas gerais, tratar o vírus independente da carga viral ou número de CD4 presentes no sangue. Hoje, diferente dos anos 80, se pode iniciar o tratamento com apenas 1 comprimido super bem tolerado e eficaz – o tal 3 em 1. Deve ter o conhecimento também que quem toma a medicação não se reinfecta com o mesmo subtipo de HIV, bem como não transmite o vírus. É nesse sentido que a OMS, preventivamente, propõe um tratamento profilático aos soronegativos pertencentes ao tão temido grupo de risco. Sobre as campanhas, elas devem ser continuas e exaustivas e não dessas prévias a algum evento, tipo pré-Copa, pré-Carnaval, pré-Parada Gay. Não sei se você já esteve em algum CRT (Centro de Referência e Tratamento), da cidade de São Paulo, para ver quem são as pessoas que estão se tratando. Por isso pergunto: você já esteve em alguma sala de espera de algum infectologista que trata do HIV – você já viu quem são as pessoas que estão enchendo as esperas dos dispensários de medicamentos? Claro que não, mas eu te digo – são compostas SEMPRE de na maioria homens (gays), de todos os tipos e classes sociais, inclusive os gatinhos sarados das boates e dos apps, estão todos lá! Os números são realmente alarmantes, infelizmente! Teorias da Conspiração à parte sobre a indústria de medicamentos, sim tivemos a cura do Paciente de Berlim – Timothy Brown, através do transplante de medula óssea, falando assim parece que é a coisa mais simples do mundo, mas não é. Sinto dizer que você entrou no mérito de prevenção e comportamento em tudo o que li, e percebi, contudo, que você mais preocupado com a gay label, com a conversinha de bastidor e com esse ativismo cansado difundido por aí do que com a Saúde Pública em sentido amplo. Abraço a todos

Oi Alessandro, o texto

Oi Alessandro, o texto pincela um pouco do que penso do assunto. Considero absurda a idéia pois o uso do preservativo que é menos impactante já não é levada a sério. Outro ponto é a falta de informação no tema. O tratamento contínuo sempre foi protocolo, mas só foi adotado no Brasil nos anos 2000, por exemplo. Não entrei no mérito da teoria da conspiração, só quis mostrar que para indicar um remédio mundialmente eles são bem rápidos e preconceituosos. É uma realidade terrível a Aids, mas até onde somos vítimas e até onde somos culpados por ela?

Compreendo. O tratamento que

Compreendo. O tratamento que me refiro, Allan, é o 2014 - agora independente da contagem de CD4 é recomendável o início de tratamento. CD4, a grosso modo, são linfócitos/células de defesa do nosso organismo. Anteriormente iniciaria o tratamento quem estivesse com essa contagem abaixo de 250 por mm³ de sangue. Uma pessoa saudável possui de 500 a 1.200. O medicamento serve justamente para elevar essas células de defesa, eliminar a carga viral e com isso reduzir as chances de transmissão do vírus (em torno de 96%). Novamente, hoje, o portador do vírus, pode até estar com seu CD4 em 700, mas mesmo assim recomenda-se que inicie o tratamento para chegarmos a zerar a transmissão. É essa a essência da recomendação da OMS, inclusive. Outro ponto é que quanto antes se trate "menor o estrago" do sistema imunológico, em linhas gerais... A AIDS é uma realidade terrível, mas é pior ainda em alguns países do continente africano. No Brasil o tratamento existe, é "gratuito", e podemos viver muito bem - quem leva o tratamento a sério. Sobre vítimas ou culpados, é difícil dizer...acredito que a doença surge bem antes da gente se contaminar, surge com os nossos atos e impulsos errados. O fato é que a epidemia existe e as ações de saúde tendem a se tornar mais efetivas enquanto a cura não vem. Abraço

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