Marina Silva esquece vontade de Eduardo Campos e que está em um partido socialista

Há 12 anos sou filiado ao Partido Socialista Brasileiro, o PSB, no Paraná. Um partido que escolhi e onde me mantive por acreditar ser o mais próximo da minha linha de pensamento, que é uma política para o coletivo, com respeito à base, aos ideais socialistas, a uma política de cara limpa e ações corajosas. O PSB, porém, não é um partido perfeito, nenhum o é, tanto que sempre votei em candidatos à presidência apoiados pela coligação. Há a discussão interna de que não faz sentido ser um partido sem candidatos, então ao menos estava orgulho deste ano termos um candidato para chamar de nosso. Mas não votaria em Eduardo Campos pois já havia decidido justificar meu voto na eleição anterior, só que depois da tragédia que ocorreu e face às propostas de Marina Silva, vislumbrei uma mudança na política nacional que nós brasileiros tanto evocávamos, sobretudo depois das manifestações de junho do ano passado.

Me iludi. Marina rasgou seu plano de ação feito em conjunto com Campos depois que um pastor e seus colegas evangélicos fizeram coro contra as propostas pró gays do programa da candidata. Era o programa de Eduardo Campos, produzido por sua base, e talvez eu tivesse decidido votar nele se soubesse das propostas antes. Um trabalho de sensibilização de anos do nosso grupo interno LGBT que surpreendeu até os gays do partido tamanho comprometimento com uma sociedade igualitária. Marina e alguns de seus colegas são novos no PSB e fazem o jogo da velha política de conchavos e sequestram o espírito socialista. Não temos mais Guel Arraes e nem Eduardo Campos para nos guiar e Marina me parece cega.

Jamais um partido socialista aceitaria abaixar a cabeça para religiosos, ou mudaria a discussão de base desta forma. Decisões na forma de canetadas não condizem com uma democracia socialista. Tenho certeza de que a primeira exigência de Campos para aceitar Marina entre nós foi de que ela respeitasse nosso Manifesto Socialista e o Estado Laico. Ouvir Marina repetir que é uma mulher de fé e que consulta a Bíblia para decisões é um tanto quanto desmotivador. Nossa Bíblia é o Manifesto Socialista.

Nosso lema é “Socialismo e Liberdade” e não há liberdade e nem socialismo quando nos julgamos superior ao outro, seja por nossa fé, cargo, histórico, orientação sexual ou amigos. Marina não apenas “brincou” com a esperança dos LGBTs que iam votar nela, que estavam se preparando para fazer campanha para ela, ela humilhou a todos quando pegou a sua religião e defendeu, afirmou, que a homofobia não deve ser criminalizada pois “todos são iguais perante a lei”, repetindo o discurso religioso de que uma lei que criminalize a homofobia seria uma regalia aos LGBTs. Ou mesmo quando afirmou que a palavra “casamento” remete a sacramento, pondo seu ponto de vista “de fé” no lugar da demanda de quem tem um direito negado. Igualdade não aceita porém. Ou se é igual ou não se é.

O debate está sendo transformado em uma questão de religião e de confiança. Marina conclamou que era possível um governo de todos mas já deixou claro que opta pelo conveniente. Marina porém não segue as coligações estaduais e se nega a poiar candidatos que não a agradam. Será que ela manterá sua palavra quando perceber que o apoio deles será crucial em um segundo turno? A nova política nasceu velha. Perdão a todos os socialistas mortos na longa luta do nosso ideal pluralista, mas chegar ao poder deste modo contraria tudo o que eu acredito.

Foto: Eduardo Campos ao lado do então coordenador do LGBT Socialista, Luciano Freitas, em maio deste ano, se comprometendo a lutar pela criminalização da homofobia, em campanha do Dia Internacional de Luta contra a Homofobia. Freitas abandonou a campanha de Marina este semana, depois das alterações do plano de ação já divulgado.



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