O Vampiro da Balada

Nada mais importava. Para ele, restava deixar seu legado na Terra. Saiu de casa feroz em busca de uma próxima vítima. Desgraçados! Não era como um vampiro clássico que fora presenteado com a vida eterna, sua maldição era pior. Juan é alto, másculo e tem uma barriguinha sarada conquistada com dieta e malhação diária. Não curtia afeminados. Ele era macho, pegava até mulher, às vezes. Esses atributos lhe garantiam muitas vítimas. Era fácil enganá-las. Bastava jurar amor ou um pequeno interesse que elas caiam em sua conversa. Sim, pessoas desesperadas por amor, enquanto ele direcionava para elas todo o seu desprezo. Um moreno que ama fazer sexo e que é muito bom nisso. Não eram poucos os que voltavam a sua procura. Mas os que tiveram prazer de se deitar com o vampiro mais de uma vez foram poucos, pois ele não queria namorar ou casar, tinha pavor disso.

Naquela noite, Juan teve um pouco mais de dificuldade. Chovia e saiu de casa tarde, não poderia mais caçar suas vítimas no parque ou no terminal de ônibus. Da internet já tinha cansado, não era como escolher a vítima sentindo o seu cheiro. Fora isso, encontrava mais gente conhecida mentindo nome e qualidades do que pessoas novas e interessantes no mundo virtual. E este vampiro tem um tipo preferido: os caras bonitos, com cara de ricos, independentes, com ar de inocente, que acreditam ainda no amor. Ele queria caras que se acham espertos ou mais machos do que ele.

Nem sempre ele foi assim. Na verdade, aquele homem misterioso já acreditou no amor eterno por outra pessoa. Foi o destino, apesar de sempre ignorar o perigo mesmo depois de tantas vezes alertado. Hoje ele só amava a si.

Na boate, Juan avistou a sua próxima vítima. O cara era lindo e estava sozinho. Tinha ar de mauricinho e bebia algo destilado no bar. Os olhos azuis do vampiro cruzaram com os olhos verdes da presa e anunciavam que aquela caçada seria fácil. Trocaram algumas palavras e o rapaz fez algo inusitado que só causou ainda mais interesse. O rapaz pediu licença e saiu, foi ao banheiro. Ao que ele retornou, voltaram a conversar. Seu nome era Pablo. Loiro, gostoso e com ar angelical – era perfeito. A testosterona poderia ser sentida no ar entre os dois. Eles queriam a mesma coisa: sexo.

Pablo então pediu desculpa e saiu novamente. Juan então puxou seu braço e disse: “Sou mais importante que essa porra de pó”. “Seu careta, eu ia pegar outra bebida”. Os dois riram. Juan não queria afastar sua presa. A caça achava que tinha o controle mas também não queria afastar o cara mais lindo e cobiçado da cidade, mesmo que ele fosse um grosso. No fundo, até gostou, deveria ser ativo, pensou. Riram falsamente juntos. Após alguns goles e outras tantas músicas, o primeiro beijo – lascivo e quente. A noite estava mesmo perfeita. Ficaram dançando e se exibindo para os outros. Um cara se aproximou com interesse e eles se entreolharam. Não, seriam só eles, mas ambos pensaram que o cara era gostosinho e torceram para que ele aparecesse outro dia, quando estivessem sozinhos.

Resolveram ir a um motel. Juan pegou o quarto mais caro. Pablo perderia sua inocência naquela noite, apostava o vampiro. O loiro deitado sobre a cama de bruços não era virgem, mas um dia ele entenderia.

Depois de beijos, sexo oral na sauna, massagem no colchão de água e até um pouco de momentos de romance com Pablo na piscina, era vez de penetrá-lo. Juan ainda pensou mais uma vez no seu ex que lhe deu aquele presente. Com seu pênis em punho, pronto, olhou para o rosto angelical de Pablo. Olhou para seu membro e sentiu orgulho. Grande, com veias saltando e sem nenhuma curvatura. “Você é meu” disse ele. “Sou teu” ouviu de Pablo como resposta. Ele nem falava com seu amante daquela noite, falava com seu membro, ao qual idolatrava. E quando encostou em Juan, ouviu: “Ei, e a camisinha?”. Aquela frase era broxante. “Não curto”, disse, já iniciando a penetração. Pablo então tirou Juan de dentro dele e disse: “Cara, você é louco. Não rola.” O vampiro então disse que era alérgico ao preservativo, que ficava apertado e iria estourar mesmo e sob tantas outras negativas anunciou que então era melhor irem embora.

Não trocaram telefone. Juan voltou à boate onde no banheiro conseguiu sua centésima vítima. O cara não era bonito mas havia se drogado e bebido tanto que não ofereceu resistência. Sua meta do ano estava completa e ainda era agosto. Não se sentia mais sozinho no mundo, outros passavam pelo mesmo que ele. Depois de algum tempo, o vampiro se mudou de cidade, como fazia com frequência. As pessoas já estavam falando, era preciso achar novos ares, novas vítimas, ficar invisível. Juan decidiu criar no próximo ano uma nova meta, queria agora só mais jovens, até 25 anos.

Por Allan Johan, 25/01/2011
 

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Comentários

Parabéns por retratar um "personagem" da vida gay tão bem. Realmente há muitos desse tipo, infelizmente. O vazio é ilimitado!

Gostei do texto,gostei mesmo! Parabens Allan,vale a reflexão para os lugares que frequentamos, os ambientes e as pessoas que nos cercam...o conselho é não se expor demais na vitrine e ter respeito pelo nosso próprio corpo!

Me senti uma bicha velha...Pois é,passou dos 25,tamos fudidos. Obs:Sei que esse não é o tema central,mas foi inevitável.Abç Obs2:tenho 25 anos

Parabéns por retratar um "personagem" da vida gay tão bem. Realmente há muitos desse tipo, infelizmente. O vazio é ilimitado!

Gostei do texto,gostei mesmo! Parabens Allan,vale a reflexão para os lugares que frequentamos, os ambientes e as pessoas que nos cercam...o conselho é não se expor demais na vitrine e ter respeito pelo nosso próprio corpo!

Me senti uma bicha velha...Pois é,passou dos 25,tamos fudidos. Obs:Sei que esse não é o tema central,mas foi inevitável.Abç Obs2:tenho 25 anos

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