O ativismo como uma das expressões de cura da homolesbobitransfobia internalizada

Apesar do ativismo como expressão do comportamento individual e coletivo estar em crescimento na sociedade contemporânea, devido a um maior entendimento e aceitação da sociedade da sua importância, ele ainda é muito mal compreendido pela parte mais conservadora de nossa sociedade. Muitas pessoas ainda relacionam e reduzem o ativismo a uma luta político-partidária. Se, de alguma forma, o ativismo é sempre um ato político, na medida em que representa um exercício da cidadania e de busca de expressão de um determinado ponto de vista e posicionamento sobre uma questão relevante, polêmica ou conflitiva para a sociedade, de outra, as diferentes expressões do ativismo não estão direta ou necessariamente ligadas às lutas específicas de um determinado partido político.

Mas afinal, o que é ativismo? Conceitualmente, é a ação intencional e consciente de uma pessoa ou grupo social em prol de uma determinada causa legítima, que pode ser desde a defesa de um direito específico até a busca da expressão de um determinado valor, ou seja, é uma forma de luta na conquista ou defesa de direitos, valores, comportamentos ou liberdade de expressão de um determinado grupo social, valores estes considerados essenciais, tais como a liberdade, o direito à vida, à dignidade, etc. Nesse sentido, o próprio ato de viver na busca de uma vida boa ou digna deve ser visto como um ato de ativismo, na medida em que todos nós temos ao menos uma causa legítima a defender ou com a qual nos identificamos ou, ao menos, deveríamos ter. Existem várias formas e níveis de ativismo em nossa sociedade, porém só deveria ser considerado ativismo a luta em benefício de “causas legítimas”.

 o que são causas legítimas? Quais são os critérios definidores da legitimidade de uma causa? A discussão filosófica sobre o tema é enorme e muito importante. Em linhas gerais, é possível definir que são determinados valores ou direitos fundamentais que não estão sendo contemplados ou respeitados, ou ainda, devidamente entendidos, reconhecidos e praticados por aqueles que deveriam respeitá-los e expressá-los. No caso específico do Movimento LGBT, podemos citar como exemplo, os direitos civis da comunidade LGBTQI.

E qual é a relação existente entre o ativismo e a clínica afirmativa, ou seja, a clínica que auxilia os pacientes LGBTs na formação e afirmação de uma identidade não convencional positiva? Na medida em que esse tipo de clínica é uma clínica política, ou seja, uma clínica da identidade, do empoderamento e da ação, a relação é direta. E porque a clínica afirmativa é uma clínica política? Por que é um tipo de abordagem terapêutica que tem entre os seus objetivos o empoderamento dos sujeitos, através da crescente conscientização do paciente a respeito da sua condição subjetiva-coletiva (individual e grupal), o que inclui a tomada de consciência das suas fragilidades psíquicas, devido a homobitransfobia internalizada, ou seja, o preconceito que inevitavelmente o próprio paciente tem em relação a sua orientação sexual, fruto da homobitransfobia familiar e social, e os impactos negativos na identidade que tem afirmado na sociedade. Na medida em que o paciente LGBT que realiza o trabalho terapêutico dentro da abordagem afirmativa avança na tomada de consciência de si e da sua identidade, vai percebendo que “adequou” sua identidade ao que era esperado dele ou ao que foi permitido nos diferentes grupos que pertenceu até o presente.

A partir deste momento se dá conta da crise de identidade que vive, ou seja, passa a reconhecer que a identidade que expressa no meio social, na maioria das vezes, não o representa, não traduzindo de fato quem ele é, seus desejos, necessidades e personalidade. Ele percebe que tem expressado uma “falsa identidade” e decide, a partir de então, lutar para expressar quem de fato é. A luta que passa a travar internamente vai, em algum momento, extrapolar os conflitos internos e o paciente passará a ter a necessidade de falar a respeito de quem é, comunicar seus desejos, orientação e elementos identitários. Ao proceder desta forma, percebe que é mal compreendido por muitos, rejeitado por outros e ridicularizado por aqueles que não aceitam suas novas escolhas traduzidas agora na expressão do seu comportamento.

Nesta etapa da terapia afirmativa emerge de alguma forma a necessidade de associação, de pertencer a grupos, de buscar direitos, da não permitir atos indignos, de se fazer respeitar e de “lutar as boas lutas”, ou seja, as lutas que vão permitir que a expressão da sua identidade autêntica não seja mais calada. Assim, a clínica afirmativa é um processo terapêutico que tem como subproduto a emancipação subjetivo-coletiva dos sujeitos que buscam ajuda dentro desta abordagem e que acaba levando, por tomada de consciência do próprio paciente, a necessidade de lutar de alguma forma pela igualdade de direitos, publicamente e de forma coletiva, ou seja, a necessidade de tornar-se um ativista.

Paulo Cogo é professor de Psicologia e Psicólogo Especialista em Psicologia Transpessoal pela UNIPAZ, atuando nas áreas clínica e organizacional, dentro do enfoque da Psicologia Afirmativa; Doutor e Mestre em Sociologia pela UFRGS. 
 




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