Quando o instinto de sobrevivência nos faz anular o instinto de felicidade

Não há dúvidas que descendemos dos macacos. Alguns comportamentos humanos são tão impregnados por nossos ancestrais que não deixam dúvidas de que temos muito mais da selva em nós do que imaginamos. Em uma simples experiência, em um elevador, três pessoas entram e se colocam viradas voltadas para o lado contrário da pessoa que ali estava. Em questão de segundos, a cobaia humana também vira: quer fazer parte do grupo. O que chamamos algumas vezes de sociabilidade tem outro nome: instinto de sobrevivência.
 
E às vezes este instinto tão necessário para nossa evolução e defesa da vida nos leva à infelicidade, o mesmo que nos faz mentir para ser aceito, a aceitar opiniões e comportamentos que discordamos que nos colocam em situações nas quais deixamos de lado a busca pela nossa felicidade em nome da sobrevivência, ou destaque no grupo. Seja um trabalho que nos deixa infeliz, um relacionamento abusivo, uma situação desconfortável. Dentro de nós, queremos sobreviver e faremos tudo por isso.
 
A razão nem sempre tem forças para bloquear os nossos gatilhos instintivos. O armário pode ser visto como uma forma de bloqueio, quando gays deixam de se assumir com medo de perderem o apoio dos pais ou mesmo de serem rejeitados pelo grupo, ou sociedade.  Para tentar algumas migalhas, criamos ainda algumas mentiras em nossa persona, para chamar a atenção do líder do grupo, para termos a ilusão de mais amigos, para ser mais popular, pois na selva quanto maior o grupo maior a chance de um deles sobreviver e os favoritos do líder tem lugar privilegiado na hierarquia e comem primeiro. Por isso a maioria tende a vencer o debate, as pessoas querem pertencer ao grupo que venceu.
 
O instinto de felicidade é algo novo, construído principalmente depois de que passamos a viver em sociedades não nômades ou coletoras, quando começou a sobrar tempo depois das tarefas diárias de caça, locomoção e sobrevivência. Depois que ingerimos proteína de forma abundante que nos desenvolveu um cérebro maior e nos reproduzimos a ponto de um animal selvagem não nos ser uma ameaça, quando estávamos organizados e protegidos em grupos numerosos. Então construímos a linguagem, os conceitos, os preconceitos e os ideais de amor e de felicidade, criamos a memória e a História. Não sabemos se os animais sonham em serem felizes, se fazem planos futuros, se acreditam em Deus ou no Amor, na Felicidade, mas com certeza eles inventariam algo para ter como objetivo de vida além do crescei-vos e multiplicai-vos que eles também possuem por conta do instinto de sobrevivência coletivo, para justificar a existência e a luta por ela.
 
Ás vezes, criticamos as ações do outro sem levarmos em conta esse fator: teria ele agido mesmo intencionalmente? Por isso não podemos nos colocar um pedestal e julgar, jamais. Há muito mais além da razão e da lógica no ser humano e suas ações. Teria a pessoa que furtou agido em nome deste instinto, a fim de sobreviver? Ou de ser feliz? Sim, pois, infelizmente, estamos programados a entender que o dinheiro e os bens materiais são felicidade. E os ter nos inclui em grupos, nos garante a sobrevivência, precisamos de dinheiro para dar de comer a nossa prole, logo, é instinto de sobrevivência! Obviamente ele pensou em algum momento que foi ensinado que a outra pessoa seria prejudicada, que era errado, mas frente ao instinto, os valores morais, se fracos, não se sobrepõem. E aí entra como esses valores foram gravados nele, na infância. Enfim: Educação.
 
Como aprendemos a saber diferenciar o que nos é importo por nossos padrões mentais e instintos? Resposta: com autoconhecimento, ou auto questionamento. Este meu comportamento tem qual finalidade? Viveria sem isso? Isso me traz felicidade real? Estou sendo manipulado pelos meus genes ou pela construção social em torno disso? No final das contas, você perceberá que pouco restará da sua real personalidade, e verá que não são poucas as escolhas que fazemos, muitas delas baseadas em nossos conceitos construídos, preconceitos, julgamento de valores, pois nossa linguagem não passa de simbologia, denotações e conotações de símbolos e imagens. “Suas” escolhas, automáticas ou pensadas, com a finalidade de garantir a nossa sobrevivência e felicidade, estas sim são o seu real EU, o ser racional que se diferencia do macaco, mas não muito. Mas se o macaco ainda tem uma vantagem é não perceber que é regido por lembranças, hormônios e instintos.  

 
 

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