A nossa culpa nos atentados de Paris e na tragédia de Mariana

Temos a capacidade de nos comover e rotular de tragédia toda forma de acontecimento que nos choca, geralmente com mortes e flagelo de outros, mas raramente analisamos de forma profunda a nossa contribuição para que isso tenha ocorrido. Somos, no fundo, insensíveis e hipócritas. Costumo indagar o papel do usuário de drogas “recreativas” na trilha de sangue do tráfico. Normalmente o consumidor final não tem contato com o submundo violento do mundo do narcotráfico, por isso, nada estraga as suas “viagens”. Muito além da legalização ou não, está em jogo o nosso consumismo desnecessário, o que nos leva à próxima questão e cerne deste texto: que culpa temos nos atentados em Paris e no rompimento das barragens em Minas Gerais?
 
Quando o drama dos escravos das indústrias têxteis explodiu há alguns anos, sejam os emigrantes bolivianos em São Paulo ou os chineses em navios fábrica, todo mundo se comoveu. Mas quantos deixaram de usar peças das marcas acusadas de exploração da mão de obra barata? 
 
Ora, Mariana é uma das várias cidades do Brasil que exploram a mineração de minério de ferro, com a população sendo explorada historicamente e agora vítima de um tsunami de lama que não é preciso cavar muito para ver que o alto lucro e ganância estão por detrás de um sistema que economiza na prevenção de acidentes e explora a mão de obra local. Uma cidade que vive para exportar minério barato para países como China e EUA e que, com a super alta do dólar, a produção estava a pico. Ferro esse que nos rodeia nas mais diferentes formas como: carros, aviões, arranha-céus, e tudo mais o que nós civilizados amamos.
 
O ISIS, apesar de um grupo terrorista religioso ultraconservador, é apenas mais um surgido em uma região conturbada politicamente mas que tem como pano de fundo a briga pela maior região em produção de petróleo do mundo. O Ocidente cuida da região como se fosse sua, com o intuito de promover a paz, quando na verdade está de olho na atuação de suas empresas e do lucro gerado pelo ouro negro. Por lá surgiram inúmeros grupos de resistência que inconsolados com a invasão ocidental e o roubo de suas riquezas se prendem ao autoritarismo e fanatismo tribal e religioso. Grupos que ganham adeptos capazes de se explodirem em nome de Alá mas também contra um modelo de vida burguês ocidental. Não se enganem, não foi um ato religioso ou político, foi um pedido desesperado de atenção de flagelados que são facilmente doutrinados por grupos bem armados e financiados, com viés  divino. 
 
Quando enchemos o tanque de gasolina, nos restringimos a reclamar do preço dos combustíveis. Quando compramos um carro novo, olhamos apenas para os detalhes que ele oferece, sem lembrar de como tudo aquilo que julgamos que nos é merecido chegou até ali. Há um rastro escondido por trás da civilização moderna que teimamos em ignorar. Quantas barragens temos no país para explorar minérios? Mais de 600... Quantas pessoas morrem de fome no mundo ou de doenças causadas pela pobreza extrema, enquanto consumimos supérfluos e damos lucros às grandes corporações? Milhares, diariamente.
 
Precisamos assumir a nossa culpa, desacelerar o consumo, valorizar a vida humana e não marcas e brinquedos que esfregamos na cara de quem não tem condições esperando que eles aceitem que a sorte brilha para alguns e não para outros. Não existe riqueza sem pobreza, não existe máximo lucro sem prejuízo a alguém na cadeia produtiva e ainda ao meio ambiente. Não foram tragédias que nos comoveram, foi a real culpa que mascaramos com lágrimas. Assinamos embaixo seja na eleição de políticos corruptos, seja no consumo de produtos que envenenam o planeta e constroem a pobreza. Quem se importa de fato? Ninguém...  


PS: Meu expresso importado está esfriando, bebo enquanto penso rapidamente nos pobres colombianos que receberam alguns centavos de dólar por dia para colher e produzir o meu elixir gourmet. Pronto, me sinto abençoado. 

PS 2: E as pessoas discutindo qual imagem deveriam postar nas redes sociais... que tal postar as suas riquezas vindas do metal e do petróleo que ostentam todos os dias?


Foto: Mohsin Raza/Reuters (Paquistão)
 

 

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