Bicha: ser ou não ser, não é a questão (Bicha sim, pero no mucho)

O recente documentário pernambucano Bichas abre a discussão de forma impactante com jovens dizendo que são bichas. O termo, carregado de preconceito, é absorvido por parte da comunidade LGBT como forma libertária de apropriação do significado pejorativo. Há diversas hipóteses para o uso no Brasil da palavra. A mais coerente é que, segundo o livro "Além do Carnaval", do pesquisador James Green, veio do francês, da palavra “biche”, fêmea do veado, também usado por lá no passado para designar as donzelas. Aqui virou sinônimo de rapariga ou puta. A palavra bicha ainda é sinônimo para vermes no Brasil.
 
E o preconceito dentro do preconceito aumentou mais a ainda o poder desta palavra. Ser afeminado, espalhafatoso, barulhento, sem caráter, virou ser bicha dentro da comunidade. Ser gay é respeitoso, a bicha é a escória.
 
Se apropriar de termos pejorativos e criar novos significados é uma forma comum das minorias se reafirmarem. A palavra Queer, antes “estranho”, ofensivo no século XIX, virou “diferente” no final do século XX, ao batizarem a Teoria Queer, que descreve as hipóteses de diversidade de gênero e orientação sexual além do binário homem-mulher, hétero-homo. Entre torcidas de futebol do Brasil, o “porco” e o “coxa branca”, usado por torcidas adversárias para ofender os adversários do Palmeiras e do Coritiba, viraram termos de orgulho entre os torcedores destes times, revertendo o discurso ofensivo.
 
Mas temos exemplos como o termo “macaco” que a comunidade negra não aceita absorver. Aidético, que não foi absorvido e ainda hoje tem peso ofensivo alto. Favela virou comunidade. Já macumbeiro, maconheiro, puta, afeminado passaram a ser absorvidos por parte destas comunidades, perdendo sim o poder de ofensa, dependendo para quem se fala. E a ofensa é assim: uma palavra, carregada de preconceitos, e um alvo que pode ou não se incomodar.
 
Na semana passada debatemos homofobia no BBB15 por parte da participante Ana Paula ao se referir ao modelo Renan como “querida”, “falsa” e “senhora”. Obviamente ser mulher não é ofensa, ser chamado de mulher não é ofensa, agora a intenção de ofender é que define se é ofensivo, se a pessoa a quem foram dirigidas as palavras se ofendeu é o que define se é ofensivo. Neste exemplo, a participante usou de ironia para desestabilizar o oponente ao trata-lo pelo gênero oposto ao seu. Usando linguagem das travestis, questão de gênero e não de orientação sexual, apropriada por muitos homossexuais.

Aliás, as travestis usam muito o termo bicha para se autodefinirem há muito tempo. Talvez esses dois exemplos devessem abrir outra discussão: a apropriação e esvaziamento da discussão de gênero por parte de algumas bichas ou reforço dos gays nas lutas pela discussão das transgênero e igualdade das mulheres. Travestis e bichas (as de verdade e não só as da balada) são quem levanta a bandeira da diversidade sexual 24h por dia e quem pagam o preço mais alto por suas transgressões.
 
Não importa quem você é. O que faz. Como te chamam. Ser bicha é maravilhoso, como diz no documentário basta você querer e aceitar o termo. “As bichas são livres”, diz um dos participantes do filme que está fazendo sucesso na internet. Ser chamado de bicha não é ofensivo para alguns. O poder de ofensa é esvaziado se a pessoa resignificar o termo subjetivamente, dentro dela. Aceitar ser bicha é aceitar os preconceitos e lutar contra eles. É uma nova bandeira mas que vem sendo levantada desde a Antiguidade, o direito do homem ser feminino e livre.
 
O niilismo na proposta do uso do termo bicha, ou mesmo da Teoria Queer, de desconstruir o conceito social para implementar outro, não resolve o âmago da questão: as pessoas são diferentes e se reúnem entre iguais. As bichas continuarão em um canto, os gays não bichas em outro, os brancos em um e os negros em outros, ricos e pobres continuarão separados. A apropriação de termos não destitui a classificação e hierarquização social. A humanidade pensa e se constrói em cima de preconceitos, significados, termos relativos, pontos de vistas subjetivos e impostos: ou seja, de preconceitos. 
 
O importante é você se entender e ser o que quiser para ser feliz, sem exigir nada do outro, além de respeito. Não é porque estou confortável na escala machista-heteronormativa que não vou apoiar os que não se sentem adequados. Ainda não me sinto confortável em ouvir o termo “bicha” fora do meio... Mas quem sabe um dia... Mas se for preciso dizer “sou bicha com orgulho” para que meus amigos mais liberais se sintam amados e incluídos, eu digo #soubichasim !



FOTO: RIP Laila Dominique que em 2010 já discutia o termo Bicha com Silvio Santos na TV.


 






 

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