O amor e as escolhas certas

Você sai para comprar uma calça jeans, tem consciência de que precisa muito e não há como adiar porque já deixou de ser supérfluo - é uma necessidade. Só que no caminho você se depara com um sapato lindo e fica do outro lado da vitrine namorando: é o modelo da moda, ficaria bem em você; já se vê postando fotos, usando aquela peça incrível numa festa badalada, no casamento da amiga, pensa até no seu casamento.  Aí você insiste e esquece completamente da calça jeans e opta pelo sapato: ‘Sim, vou ficar’.
 
Escolha errada.
A culpa é do sapato? Não, o sapato é perfeito, mas naquele momento ele não serve para você. 
 
Quantas dores, decepções, quantos pés na bunda precisaremos levar para entender que estamos fazendo as escolhas erradas?
 
Namoro serve para isso. É a oportunidade para testarmos as paixões, provar os lances de pele, conhecermos alguém na íntegra (porque na vitrine todo mundo parece ser fabuloso). A gente precisa se compreender, ouvir o que o coração quer de fato, pois cada um sabe das próprias necessidades emocionais. Tudo bem, não dá para sair criando rótulos, mas relacionamentos seguem ladeira abaixo porque gastamos munição empurrando algumas incertezas com a barriga: ‘ele vai mudar’. E a gente fica como um pateta esperando que uma uma macieira dê laranjas. 
 
Você é monogâmico, ele gosta de salada de frutas. Escolha errada.
Você é ativo, ele é ativo. Não vai funcionar.
Você é versátil, ele é passivo. Vai ser legal... até a página dois.
Você é ativo/versátil, ele é passivo/versátil (ou, infinitas possibilidades compatíveis). Péeeeeeeeeee. Bingo! 
 
Agora que passou da fase cama, tem que ver se também serve para mesa e banho, ou vice-versa, porque, acreditem - um abismo emocional destrói qualquer possibilidade de uma vida a dois.
 
Se você é caseiro e o pretendente faz questão de ir pra night bater cabeça t-o-d-o fim de semana algo diz que você terá uma pedra no sapato. O cara que preenche a vida com boates e música barulhenta está errado? O que curte ficar enfurnado entre quatro paredes zerando o Netflix está errado? Ninguém está errado, são estilos de vida opostos, personalidades diferentes, um não serve para o outro. Simples assim. Naturalmente algumas pessoas estão em outra sintonia e não é culpa de ninguém. Persistir no erro, é criar ilusões vendo amor onde mal existe afinidade. 
 
E como fazer a escolha certa? Sendo paciente, tendo uma vida própria, ocupando a mente com projetos pessoais, canalizando energias para construir algo em benefício próprio enquanto a gente observa, pondera os prós e os contras, amadurece a ideia evitando sair por aí forçando a barra e se arriscando em relações que não nos servem, evitando aceitar o primeiro que aparece só para se esquivar do status de solteiro. Pode ser que leve meses, ou até anos para encontrar a calça jeans que nos caia bem, mas para que isso aconteça, precisamos abrir mão dos sapatos. Mais do que nossas tendências, o que nos define, na realidade, são as nossas escolhas: cada dia que a gente passa com a pessoa errada é um dia a menos que a gente passa com a pessoa certa.  
 
Amor tem que ser orgânico, tem que fluir naturalmente sem que precisemos convocar o exército para resolvermos picuinhas; precisa ser algo que nos traga conforto sem que tenhamos aquela abstinência horrível de ter a pessoa sempre por perto, de entrar em curto circuito quando ela desaparece e ir ao paraíso quando ela resolve dar sinal de vida (no tempo dela). É nossa escolha viver numa montanha russa emocional, ou numa relação onde haja solo firme, similaridades, um “Eu te amo” nos gestos mais simples e um sorriso de orelha a orelha quando alguém te avista chegando de longe. 

 
Bruno de Abreu Rangel
 

 
 

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