Insta, Insta meu, existe alguém com mais likes do que eu?

Li numa dessas revistas que pegam poeira em consultório médico, que nós passamos por mais de 300 aprovações por minuto quando encontramos alguém pela primeira vez na vida. Nossos corpos já começam a se comunicar antes mesmo de travarmos um diálogo. Em milésimos de segundos nós passamos uma espécie de raio X na pessoa e damos início à uma série de análises que vão desde o corte do cabelo até à forma de piscar os olhos. (Isso inclui trejeitos, timbre da voz, porte físico), muita coisa que dá para disfarçar com um filtro desses aplicativos que transformam pessoas comuns em “celebridades de capa de revista”. Resultado: trocentas milhões de curtidas e ao vivo... aquela decepção: 
‘Você é o Zezinhofficial? ’.
 
 A nossa atividade cerebral, a certa altura, já se concentrou especificamente na parte visual e projetou algumas ilusões que na hora “H” jogam as nossas expectativas do vigésimo andar. Isso acontece porque a gente só enxerga o que quer. Existem táticas para conseguir o maior número de seguidores e incessantes curtidas, o difícil é manter esse estrelato Xing Ling na vida real, principalmente quando a fama está ligada ao corpo. Dois minutos de conversa com a pessoa e você quer sumir do centro da Terra. O que não falta nesse mundinho de egos são perfis em que você peneira e.… zero conteúdo.
 
Quem frequenta academia sabe bem sobre os neuróticos que não conseguem desgrudar os olhos do espelho, os fanáticos que ficam admirando a própria beleza se achando cada vez mais irresistíveis e os desiquilibrados que nunca se satisfazem com a própria imagem, malham por horas a fio e saem com a sensação de que o corpo não está no lugar: ‘Preciso ganhar mais massa muscular’.  
 
Algumas pessoas, inevitavelmente, são mais vaidosas do que outras, mas quando a gente ultrapassa a linha do bom senso e não consegue mais disfarçar – é sinal de que há um problema. É saudável querer registrar momentos, lugares, pessoas, comidas, fazer uma série de fotos exibicionistas, cada um é livre para fazer o que quiser. O que é importante levar em consideração é se a gente está deixando de viver a própria vida para se escravizar num mundo virtual, dando poder às pessoas de julgarem se somos, ou não, interessantes. 
 
Muitos estão tendo suas vidas roubadas pela fissura dos likes. Pessoas sérias e compenetradas que caíram no conto do ‘Você é lindo’ e, da noite para o dia, se tornaram modelos fictícios, perderam a própria inteligência emocional. E aí é aquela obsessão, o indivíduo vai fazer um café, por exemplo, e transforma esse ato tão singelo num evento que pode render mais fotos que o ensaio das top models de verdade. 
 
Já começaram, inclusive, os petit-comitès (as festinhas fechadas), onde só entram pessoas com um número K de seguidores, bem no estilo Black Mirror. Só que nessa selva de narcisismo existe uma concorrência disfarçada de amizade; gente que sorri, curti, deixa comentários fofos e na vida real faz muito bem o papel da rainha invejosa que oferece sutilmente uma maça envenenada, uma bruxa com uma índole bem competitiva, que se alimenta de elogios, que passa horas em frente ao espelho tentando encontrar soluções para bombar na rede, ser a maior estrela, ter o maior número de curtidas e, finalmente, poder receber a atenção que foi negada em algum momento. E qual a finalidade disso tudo? Quem somos nós nesse vasto universo?
A vida é muito dinâmica, amanhã vamos deixar esse mundo e tudo vai continuar intacto. Certamente, algumas pessoas (bem poucas) irão sofrer com a nossa ausência, haverá um falatório que não vai além da missa de sétimo dia, postagens de fotos com a legenda “Hoje o céu está em festa”, mas também, comentários maldosos de alguns covardes que vão especular a causa da morte sem ter o menor respeito pela nossa existência. E, quando os olhos se fecharem: caixão, tendo você 5, ou 5 milhões de seguidores. No fim do jogo, o rei e o peão voltam para a mesma caixa, já dizia o provérbio italiano.
 
Ninguém é tão fascinante quanto pensa ser. Sempre haverá alguém mais com mais likes do que a gente e isso não quer dizer absolutamente nada. Devemos ficar atentos para não deixar números virtuais subirem à nossa cabeça. É preciso ter consciência de que esse grande teatro é passageiro (os famosos do Orkut já foram enterrados). Amanhã o tio Zuckerberg, pai do Facebook e Instagram, acorda de ovo virado, encasqueta de lançar outro aplicativo e lá vamos nós começar do zero, perder mais tempo da nossa vida que é curta. Somos apenas um grão de areia nesse labirinto de espelhos e cada um tem o poder de escolher entre viver pela imagem, ou encarar o reflexo e aceitar que somos perfeitos dentro das nossas imperfeições: é a única saída.
 
Bruno de Abreu Rangel
 

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