Alfabeto na Balada

 
A sou eu;
B namorava Mateus,                      
C, conhecia-o de privança,          
D usava bonete
E usava chapéu,
F andava em cabelo,
G cobria-se com barrete,
H usava pulseiras,
I portava pingente,
J desviou o rosto quando nele reparei,                   
K sorriu-me e acenou-me ao ver-me,                  
L abraçou-me com efusão,                                  
M correspondeu-me ao cumprimento com frieza   
N supreendeu-se ao se me deparar,                      
O esgueirava-se por entre a gente,   
P empurrava a outrem se sem esgueirar,
Q era álacre com todo o povo,                              
R tinha cabelos pintados de escarlate,
S usava belas melenas e banda,
T, dele esquivei-me, 
U supôs-me catarinense,          
V perguntou-me se sou brasileiro,
W surpreendeu-se ao saber-me professor,
X pediu-me cigarro que não tinha eu, por não fumar,
Y enfezou-se comigo quando esbarrei nele, ao me empurrarem,
Z beijou-me, e ainda bem: mais letra não há e se não fora ele, não seria ninguém.     
 
27 bebeu etílicos,
28 bebeu etílicos demais,
29 bebeu etílicos ainda mais,
30 vomitou,
31 dormiu, alcoolizado,
32 beijou dois em simultâneo,
33 trajava-se excentricamente,
34 bailava,
35 cantava,
36 deitou-me olhares,
37 levava-me olhares,
38 beijou bocalmente 39
39 entregou-se voluptuosamente a 38,
40 era mulher e beijou outra,
41 tinha cabelos nacarados,
42 fingiu desconhecer-me (era curitibano),
43 fitou-me e não me cumprimentou (outro curitibano),
44 ouviu-me frases sedutoras,
45 deixou-se-me seduzir,
46 pediu-me bebida e neguei-lha
47 pediu-me água e dei-lha,
48 pousou a cabeça no meu peito,
49 agregou-me à sua camarilha de amigos, para que me não quedasse só,
50 indagou-me se não bebo etílicos e respondi-lhe que só água,
51 reputou elogiável que senhor da minha idade andasse em balada juvenil,
52 perguntou-me se sou hetero ou homo,
53 indagou-me o mesmo,
54 foi igual ao anterior,
55 inspirou-me o poema “Zeus cristão”,      
56 é-me vizinho e simpático,
57 é-me vizinho e antipático, 
58 engordou,  
59 usava bermudas curtas, em voga, 
60 usava barba,
61 também,
62 também, 
63 também,
64 declarou-se hetero,
65 esbarrou em mim e pediu-me desculpas,
66 fez o mesmo a outrem,
67 era viraga,
68 era efeminado,
69 abraçou-me (e outros também)
 70 encantou-se por mim,  
71 reconheceu-me e, por não saber quem eu era, não me veio  falar,
72, com ele palestrara pelo Facebook e lá o conheci presencialmente, 
73 por pouco não foi residir comigo,  
74 indagou-me a minha idade, 
75 foi-me aluno e não me falou,
76, confundi-o com um amigo,
77 reagiu-me com frieza quando o cumprimentei,
78 esquivou-se de mim por duas vezes,  
79 pareceu-me entristecido e tive-lhe dó, 
80 disse-me que tenho sotaque diferente,
81 inquiriu-me se sou docente,
82 estava duvidoso se era homo ou hetero e esclareci-lhe, 
83 a ele, falei-lhe de antepassados e ele nada percebeu,
84 a ela, disse-lhe quem me odeia e porquê,
85 era introvertida por demais e confirmou-me ser curitibana,
86 a ele, falei-lhe e ignorou-me, pelo que concluí ser curitibano,
87 era futilíssimo e do norte do Paraná,
88 com realismo dizia que, de alguns,“se juntar dois,  não dá um”,  
89 era de Cascavel e amistoso; sobre curitibanos falamos,
90 era igual ao anterior e desejou-me,   
91 era igual aos dois anteriores e desejei-o,
92 era fusco, insinuei-me, ele sorriu-me largamente e foi-me a pérola do dia.
Andava tudo feliz e alegre, com liberdade sem medo. 
Assim folgavamos, assim nos entretinhamos e assim gozavamos a vida em folguedo.

 

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