Simpósio de Diversidade Sexual em Maringá gera celeuma e pedido de informações

Só faltou a ala conservadora pedir uma CPI para averiguar o Simpósio de Educação Sexual que ocorreu na UEM - Universidade Estadual de Maringá, em abril. Depois que imagens publicadas no site da Universidade chamam atenção por mostrar cenas de uma performance artística foram publicadas em outros sites esta semana, com ponderamentos desmedidos, por quem nem assistiu ao espetáculo, conjecturando que a universidade estaria abusando do seu papel educativo.
 
Além do fechamento da instituição e xingamentos online, algumas reações mostram o quão conservador e hipócrita é a nossa sociedade. O jornal Gazeta do Povo- agora em versão online apenas, pois o jornal não é mais impresso -  chegou a publicar uma “matéria” em forma de lista com ‘Seis cenas “peculiares” que aconteceram em universidades públicas brasileiras’, incluindo a performance de Maringá. Ainda, o deputado estadual Tião Medeiros (PTB) pediu esclarecimentos à reitoria da Universidade, com nove perguntas como quem pagou, quem fez, quanto foi gasto, qual o objetivo, qual a classificação etária, qual a lista e o RG dos inscritos.
 
A Universidade esclareceu por meio de uma nota em que classificou a reação como uma “violência desmedida contra as minorias”. De fato, é perceptível a ignorância geral quanto a arte e aos temas polêmicos, ou mesmo a falta de disposição para o diálogo.
 
Abaixo a explicação do fato, feito pela UEM:
 
A cena “As pedras no meu sapato”, desenvolvida no transcorrer da disciplina “Fundamentos da Direção I” do curso de Artes Cênicas da Universidade Estadual de Maringá (UEM), retrata o surgimento do amor entre duas mulheres e as barreiras sociais pelas quais passam para concretizá-lo. Em seu desenvolvimento, celebra ícones da cultura lesbiana, ainda tão pouco discutida, mesmo no meio LGBT.
 
Em reconhecimento à importância das discussões promovidas por este trabalho, a organização do V SIES 2017 – Saberes trans/versais/currículos identitários e pluralidades de gênero convidou o grupo de discentes responsáveis pela cena (direção, elenco e sonoplastia) para a abertura do evento, que ocorreu no dia 26 de maio deste ano. Nesta ocasião, o trabalho foi fotografado e as imagens disponibilizadas no site da UEM. 
 
Na noite de 08/06/2017, exatamente 41 dias após o evento, fomos surpreendidos nas redes sociais por postagens, comentários e compartilhamentos de textos e fotos da apresentação, totalmente descontextualizados. Material, este, utilizado com o objetivo de desqualificar a referida Instituição e tentar convencer nossa comunidade de que o fechamento da UEM é necessário. Tratam-se de generalizações que reflete a má fé de quem o faz. 
As ações de ensino, pesquisa e extensão da Universidade Estadual de Maringá estão comprometidas e são fundamentais para a realização não só deste, como de outros trabalhos artísticos. A inadequada comunicação o ocorrido, somente após 41 dias do evento, tem a real intenção não de abrir espaços para a troca, reflexão e mutação, mas fazer imperar o ódio e o preconceito, aumentando o desequilíbrio e desarmonia social. 
 
Grupos que agem desta forma pretendem dizer que se está gastando dinheiro público para ensinar “nojeiras”. Contrariamente ao que dizem alguns circuitos desinformados, o V SIES 2017 - Saberes trans/versais/currículos identitários e pluralidades de gênero - foi completamente sustentado pelas inscrições de pessoas interessadas no evento. Não houve gasto de dinheiro público para a sua realização. 
 
É preciso reforçar que a função das universidades é garantir a expressão e convívio entre diversidades. A cena “As pedras no meu sapato” acaba por demonstrar sua pertinência, dada a discussão que tem gerado, e acompanha os objetivos da arte em nos fazer pensar além do estabelecido, ampliar nossa percepção de mundo e problematizar questões emergenciais do nosso tempo. Da mesma forma, funciona como um catalisador, para o qual se dirigem as perspectivas mais segregacionistas e preconceituosas. 
 
Desde a escolha das fotos compartilhadas, passando pelos textos que as acompanham aos comentários e legendas inseridos, inclusive por este jornal, é patente a indisposição para o diálogo, assim como a violência desmedida contra as minorias. Isto nos faz concluir o quanto ainda temos de caminhar em direção a uma educação de qualidade, na qual mais do que conteúdos, estejam postos valores como o respeito e acolhimento às diferenças, bases sobre as quais as relações humanas qualitativas se constituem.

 

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