HIV: Carga viral indetectável não dispensa uso de preservativo

Nas duas últimas semanas, o youtuber Felipe Mastrandéa vem levantando polêmica na internet, após revelar ser HIV positivo. Ainda, ele afirma que mantém sua vida sexual igual antes, e fala que pessoas com HIV podem sim transar sem camisinha, se estiverem indetectáveis, como afirma ser seu caso. Ele disse ainda que a responsabilidade de usar o preservativo não está em quem sabe que tem o vírus, mas é uma responsabilidade de todos, o que gerou um mal entendido geral, principalmente quando ele assume o rótulo de “puta”. Nesta parte ele tem razão: a coincidência e responsabilidade de usar preservativo é de ambos os parceiros.
 
Famoso por não ter vergonha de falar de sexo e expôr as suas experiências, desde que revelou seu status, tem havido uma enxurrada de comentários preconceituosos nos vídeos de seu canal, acusando-o de irresponsável e de romantizar a doença. Até que ponto ele estaria certo ou errado?
 
A terapia com antirretrovirais (TAR) é capaz de deixar o vírus indetectável (carga viral abaixo de 40 cópias/ml) para exames comuns de detecção do HIV e vários estudos já comprovaram que nesses casos as chances de transmitir o vírus são bem baixas. Recentemente, um estudo chamado Opposites Attract analisou a vida sexual de 343 casais sorodiscordantes (aqueles em que um dos parceiros  é soropositivo e o outro não). Durante quatro anos, foram reportados mais de 12 mil atos sexuais sem uso de preservativo. No final da pesquisa, somente três antes soronegativos haviam contraído o vírus. Ao realizarem testes genéticos, foi comprovado que a linhagem de vírus era diferente da de seus parceiros, ou seja, provavelmente contraíram o HIV ao fazerem sexo com outras pessoas sem preservativo. Foi concluído que a chance de se pegar o vírus de alguém indetectável está entre zero e 1,56%. Mas a sugestão final da Organização Mundial de Saúde é a consideração do uso do preservativo também, a chamada prevenção combinada. 

Riscos
O termo indetectável significa que a carga está abaixo da sensibilidade dos testes e não que é impossível transmitir o vírus, apesar dos pesquisadores afirmarem a teoria U=U (indetectável = impossível de transmitir), trata-se de uma pesquisa recente. Entra neste momento o fator humano: SE a pessoa fez o tratamento corretamente, SE a pessoa não desenvolveu qualquer tipo de resistência, SE a pessoa não teve baixa de imunidade por uma gripe ou outra infecção, a tendência é da carga viral continuar baixa mas não é uma garantia. O valor da carga de CD4 vale para o momento da coleta do sangue, não é um selo de controle de qualidade permanente. Lembrando que a pesquisa foi realizada com casais.

Responsabilidade
Então, os soropositivos podem sim transar sem camisinha, desde que estejam com a carga viral indetectável e o parceiro que seja comprovadamente soronegativo aceite o risco; ou no caso também dos dois serem positivos e estarem indetectáveis, porque em caso contrário há risco de troca de tipos vírus, e aceitem o risco. Há ainda a possibilidade de mutação dos vírus, por troca de carga viral, causando resistência aos remédios, podendo causar uma superinfecção. 
 
No entanto, a polêmica não para por aí. Recentemente, em outro de seus vídeos, Felipe narra sua aventura em um ônibus de viagem, onde relata ter recebido sexo oral de um estranho, e ejaculado na boca do mesmo. Neste tipo de relação o risco é baixo, mas existe. O quão errado foi este ato? É errado não avisar ao parceiro que se é soropositivo? E se ele estivesse detectável? Poderia ser considerado até mesmo criminoso? 

O que diz a lei
A legislação brasileira prevê pena de reclusão de um até quatro anos para quem transmite “moléstias graves” intencionalmente ou oferecer risco à saúde de outro (CP Art. 130, 131 e 132). No entanto, não há nenhuma obrigação legal, para que os portadores do vírus revelem seu status; as pessoas tem disponível de forma gratuita o seu tratamento se quiserem e devem usar preservativo para evitar transmití-lo a outras pessoas, e talvez aqui haja uma obrigação moral. O crime só é constítuído se a vítima comprovar que era soronegativa, no caso do HIV, antes do ato e que foi mesmo infectada de forma proposital por quem ela acusa. No entanto, há de se refletir o quanto essa pessoa pode ser considerada vítima num caso como esses, como o citado, onde os dois aparentemente estranhos um para o outro, abriram mão da proteção e encararam os riscos. 

O preconceito tem cura
Porque nestes 36 anos de existência da AIDS, uma das coisas que pouco avançaram é a diminuição do preconceito e do medo, sobretudo dos gays, quanto à doença. É um estigma que não podemos deixar perpetuar. Muitas pessoas não revelam seu status antes de transar ou, logo ao conhecerem o parceiro porque as pessoas não lidam com a situação de forma madura. Poucos lembram que o maior risco de transmissão vem de pessoas que estão infectadas e não sabem, ou que as que não aderiram ao tratamento, pois essas carregam por vezes  alta concentração do vírus no sangue.
 
Se Felipe está certo ou errado, não cabe a ninguém julgar, pois deixando a camisinha de lado ele está correndo riscos de pegar outras doenças também. Mas precisamos abrir mais nossas mentes e enxergar que os portadores do HIV podem e devem seguir com sua vida, inclusive sexual, e cobrar responsabilidade cabe a quem se relaciona com eles e não à opinião pública. De todo modo, ele foi sincero, o que é raridade hoje em dia.
 
Confira o vídeo em que o youtuber fala sobre a polêmica:
 
 




 

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