O segundo amor...

Marcelo foi o meu segundo amor. Eu ainda era um adolescente, perdido, volátil e feliz. Tinha um grupo de teatro lá na escola, o antigo “ginásio”, como chamavam naquela época. Na verdade, eu ia mais na escola por causa do teatro, fui abandonando as aulas. 
 
Na minha felicidade de moço, a gente já chocava. Nesse grupo, éramos todos revolucionários e a gente se beijava na boca,  homem com homem, na frente de todo o mundo. Ensaiávamos nos fins de semana e montamos a peça “Vereda da  Salvação”, do grande Jorge Andrade. Percebem a alegria inebriante que nos envolvia,  ditadura militar e a gente dando bananas para a sociedade?  O teatro liberta e era o que eu tinha, mesmo proibido pelo meu pai , “teatro é coisa de puta e de v*ado!”. Papai me seguia, perseguia e foi até a casa do diretor do grupo para intimidar e ameaçar.  Mas, quem ligou para isso, se o que me movia era a felicidade?
 
Então, numa dessas noites de sábado paulistanas, fomos assistir “Faca n’água”, um dos primeiros filmes do Roman Polanski, lá no Cine Augusta, que depois virou Cine Sesc, rua Augusta. Na sessão da meia noite. Éramos todos lindos, dentes brancos, gargalhadas e respirar fundo. 
 
Quando a sessão terminou, fui beber água .O  grupo ficou perto, coeso. Gente unida. Tudo o que eu não tinha na minha família,  eu tinha com eles. Quando me virei, ainda enxugando os lábios, vi um rapagão de uns 20 anos, muito do bonitão. Alto, fortão, moreno e peludo. E o cara sorriu para mim, segurou o meu braço, e perguntou em voz alta se a gente não queria ir tomar vinho na casa dele, que ele morava ali perto.  Bom, todo mundo queria tomar vinho às duas da manhã daquela madrugada de domingo. Fomos.
 
Era um sobrado lindo, numa vila ali perto. Marcelo morava com o irmão mais velho, que era professor na USP,  um poeta, gênio e ...bipolar. Mas estava viajando. Deitamos nas almofadas da sala e o vinho rodava, rodava, tudo rodava. E, nesse girar, eu tive o meu primeiro beijo com um homem, “beijo de língua”  , assim a gente falava. E girei mais um pouco , marry-go-round. É verdade, o primeiro beijo a gente não esquece. Esse, de língua. Eu me apaixonei pelo Marcelo. E ele por mim, sentia. Mas tinha um problema sério aí: ele era rico, de família tradicional de Santa Catarina. Eu, pobre. De família tradicional na pobreza, na falta de estudos e de cultura. E disfuncional, louca, como é 99% das famílias, ricas ou pobres.

Mas, aquele corpo, aquele calor e aquele vinho. Aquele beijo ensopado e seus braços em torno de mim. Ele me chamando de “bonito”, “lindão”, filho , eu te digo: você também se apaixonaria, tivesse no meu lugar, perante o Marcelo. 
 
O amor é uma impossibilidade. Falam isso para mim os escritores, os filmes, as canções, os poemas. Mas não os meus coleguinhas adolescentes do grupo. Estes se encantavam com todas as impossibilidades e me estimulavam a amar, mais e mais. Me chamavam de sortudo. E o meu primeiro beijo veio acompanhado do segundo, terceiro e de mil beijos só naquela noite. 
 
Mas...
 
Nas impossibilidades há o medo. Há as ansiedades. Há o pressentimento. Quem disse que eu merecia ser feliz? Alguém merece ser feliz?
 
Eu também morava numa vila, uma vila operária lá no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Lá embaixo, perto do rio Tamanduateí, que , quando chovia, transbordava. No início das tardes de sábado eu corria até um telefone público e ficava ligando, ligando para o Marcelo, nem respirava direito. Na maioria das vezes, ele não atendia.  Sabia que era eu e ele só atendia quando queria trepar comigo. 
 
Marcelo me humilhava. E eu, carente, na esperança de que um dia tudo mudaria, aceitava. Me humilhava porque eu era pobre, porque não sabia usar talheres nem escrever corretamente, formalmente. Ria das minhas roupas, mas o que me doía mesmo é ele rir dos meus sonhos. Ao mesmo tempo que queria trepar comigo, demonstrava intensa homofobia internalizada. Mas eu achava que ele mudaria. Fascinado por sua beleza e cultura, imaginava um dia em que seríamos felizes. Tão bobo, tão besta, eu.
 
Quantas vezes ele marcou comigo e eu chegava em sua casa para dar de cara com a porta fechada. Quantas noites inteiras eu passei sentado na porta da sua casa, esperando ele voltar? E outras tantas na esquina, onde via o seu quarto, na esperança de vê-lo passar pela janela. Ele dizia que sexo anal o enojava, mas queria fazer. Eu não sabia o motivo de amar quem me fazia sofrer. Mas, amava.
 
Um dia ele disse que queria conhecer a minha casa, lá onde eu morava, no Ipiranga.  Entre ansiedade, apreensão e medo, lá fui eu fazer a maior faxina que já fiz na vida, limpei a casinha toda, gastei litros de água sanitária e de limpadores perfumados, lençóis novos, bom-ar espirrado em tudo. E o fui buscar lá na Praça da República. 
 
Marcelo veio criticando tudo, o caminho todo. Como era feio o bairro em que eu morava, as ruas sujas, as pessoas mal vestidas. Não disfarçava o seu mal estar  na minha casa, nem transamos. Ele chamou um taxi e foi embora.
Mas, eu o amava.  Todo amor é meio estranho.
 
Então, Marcelo ganhou uma bolsa para estudar Direito nos EUA. 
 
Fui com ele até o aeroporto, me despedir.  Antes de sair de sua casa, afanei do cesto de roupas sujas uma camisa xadrez dele, bem suada e com o seu cheiro que eu amava, adorava, onde me inebriava. Vi o seu avião decolar e até dei tchau com um lenço. Esse dia, me lembro até hoje, foi um dos mais tristes da minha vida. Voltei para casa enxergando tudo amarelo, achava que não sobreviveria. Envolvi a sua camisa em vários sacos de plástico para que não perdessem o cheiro. Mas o tempo passou, anos se passaram e até o cheiro amado se foi. 
 
Nas cartas, Marcelo revelava toda a sua ânsia por uma heteronormatividade. Ele me falava “como vaginas são deliciosas, molhadas” e essas coisas. Falava que eu devia experimentar...
 
Anos depois, soube que seu pai e sua mãe haviam morrido num acidente de carro. Pensei: quem sabe agora ele amadurece, ele muda. Dizem que a gente muda com a dor, né?
 
Mas, Marcelo voltou um dia. E, igual. Não mudou e  veio me procurar. Só que eu já estava no Grupo Somos, já tinha aprendido a me amar mais, já estudava teatro na USP, já conhecia meus heróis, como o Trevisan ou o Mott. 
 
Transamos algumas vezes. Até que um amigo me falou: “esse cara só te procura quando quer trepar”... e caiu a ficha!
 
Um dia, Marcelo ligou. Marcou de se encontrar comigo na minha casa. Agora a situação era outra, eu morava num bairro melhor, em Pinheiros. Combinamos. Só que eu saí de casa. Ele veio e ficou horas na porta, me esperando. Um dia é o da caça. Outro, do caçador. No dia seguinte ele me ligou, puto. Eu falei tudo. Tudinho.  Detalhei todas as dores que ele me provocou. Falei do sangue que ainda escorria. 
 
E muito tempo se passou. Envelhecemos. 
 
Nesta São Paulo amada, estraçalhada e glorificada, eu via você algumas vezes, lá no Conjunto Nacional, na  Paulista. Ou na Rua Augusta. E, entre triste e perplexo, via você , Marcelo, andando e falando sozinho , rindo não sei do que. Gesticulando para quais fantasmas? Usando umas calças largas, de cintura alta, que pareciam completar o quadro burlesco, caricato em que você se encontrava. Justo você, que era tão preocupado com a aparência.
 
Foi o meu segundo amor. Mas eu sei que , em algum lugar desse mundo, ainda existe um botão quebrado, um arremedo de punho ou colarinho, um pedaço ínfimo de pano de uma camisa xadrez. Ainda existe. 

 
Ricardo Rocha Aguieiras é escritor, dramaturgo e militante histórico dos direitos LGBT.

 

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