Contos do Wander

por Wander Bueno

Assimetria dos Tempos

Ânimo! Mas não se animou. Porquanto não tinha motivo para animar-se, que besteira, acordar animado sem motivo algum. Pensava em quem lhe havia dito aquilo: talvez o seu outro ser, aquele que não pressupõe a necessidade de viver para só então sentir alguma coisa. Contudo, mesmo sem saber a procedência, não dava crédito pra tamanha besteira, pois é preciso viver, é preciso sentir, ser tocado ou mesmo xingado. Sentiu raiva daquele outro eu. Pronto: assim é melhor. Sentiu algo e pôde, enfim, animar-se para uma nova manhã que raiava...




Não!

Quinze minutos depois...

Esperemos um pouco, pois ele deve voltar. Contudo pode nunca mais adentrar aquele salão, nunca mais olhar nos olhos daquele à quem negou compartilhar sua vida. Em verdade, negou-se a assinar um papel. Seria um papel a prova do compartilhar? A caneta que assina, o juiz que atesta, a cerimônia harmoniosa, algum desses símbolos podem garantir a lealdade?  Deixemos de viajar no assunto e escutemos a conversa daquelas duas figuras femininas, mãe e filha, sentadas atônitas próximas ao púlpito elegantemente improvisado para a cerimônia.



Perfume feminino

Sacada.
“Ela sempre cheirava meu pescoço ao me abraçar”
“Por quê?”
“Tentava identificar algum perfume feminino que não fosse o meu”
“Sua mãe era neurótica”
“E continua sendo...”

Mantiveram silêncio por algum tempo, enquanto tragavam, de tempos em tempos, seus cigarros. Uma delas saía quando foi puxada e beijada levemente: “Obrigada Débora...” sorrindo em resposta pelas palavras e pelo toque labial ganho “Que sorte a sua, tem uma namorada e enfermeira de plantão!”.




Prazer puro

Sentou ofegante. Nunca havia feito tal façanha em pleno escritório, na verdade foram pouquíssimas vezes em que havia se tocado daquela maneira. Passou alguns minutos relembrando uma sensação de leveza que acompanhou seu gozo.

Acordou ouvindo uma voz taxativa que interrompeu aquela inércia prazerosa: “Já conseguiu exportar os dados pro sistema?”, disse sua chefe. A resposta foi um simples balançar de cabeça.
 
Sua ausência de expressões mais convincentes causou estranheza, o que levou sua dirigente a questionar: “Tá tudo bem?”.




Livre acesso

Observou profundamente sua imagem refletida no espelho; ela não conversou com ele, apenas continuou estática, sem molduras, ocupando quase metade da parede, replicando fielmente a realidade exterior.

Virou, escovou seus dentes, mirou novamente aquele ser que era feito a sua imagem e semelhança; ainda assim não reconhecia aqueles traços. Queria perguntar-lhe alguma coisa importante como sobre o que pensava, quem era, quais seriam seus planos para o futuro; melhor manter silêncio, pensou, é mais seguro.




Nossas autoridades

Aniversário. Comemoravam um ano. Dênis festejava seu mais longo namoro; naquele demorado beijo em Heros. Vinho compartilhado, uma taça para ambos: restaurante lotado, mas aquela cumplicidade, daqueles dois, compelia um silêncio onde suas respirações produziam falas extraordinárias.

Um sonho, ou delírio, preencheu pensamentos: “Quero te assumir, nem que seja pelo escuro dessa noite!”. Foram embora sentindo tal desejo aflorar. Heros parou em pleno parque Barigui. Rotatória vazia: apenas sombras tomavam conta daquele bosque desabitado, talvez humanizado.




Pensamento inconstante

Uma gota caiu sobre meu rosto; logo desabou muita água gélida sobre nós. Todos corriam, buscavam algum abrigo, eu me deixava molhar entregue ao meu acaso. Um estoicismo coberto por coragem enfrentava bravamente aquele momento. Pude observar um efeito típico: mulheres em excesso na rave e homens escolhendo quais queriam ajudar, baseando sempre suas decisões nos padrões vigentes que determinavam beleza exterior.




Chão de fábrica

Passos leves, soltos, minha mente fervilhando em idéias, uma praia paradisíaca, o calçadão de Ipanema repleto de belos músculos: era verão; criava coragem para atravessar uma daquelas ruas transversais e rumar à sauna da qual ouvi comentários, diziam lotar durante os dias mais quentes do ano (lotar, mas não de clientes – vai e vem frenético de michês) finalmente encontraria um típico carioca sem a costumeira inquietação esnobe das seletas baladas da Zona Sul. Exemplar quente libidinoso daquela cidade ensolarada, precisava desse típico homem bem ao estilo do qual minha mente fantasiara.




Novos tempos, velhas manias

Apertava o controle entremeando canais de puro besteirol, pura futilidade, e parando minha atitude frenética, assisti um pouco de BBB. Nem lembro ao certo qual edição era, e nem lembro do que falavam. Só me concentrei nos corpos masculinos a mostra: bundas, músculos, volumes e nada mais. Eram como aqueles colírios do tipo lágrimas artificiais; imagens que refrescavam meus olhos sedentos. Imagens e mais imagens; já me cansava até da própria palavra imagem, necessitava do tato, das experiências sensoriais. Desliguei a tevê e descansei meus olhos, minha mente.




Quando um sorriso mata

Há pouquíssimo tempo, Junior decidiu descobrir a noite das baladas gays. Foi andando por entre ruas e avenidas, descobrindo um novo mundo. Não era um novato, mas um curioso procurando seu novo rumo. Queria encantar-se com novas amizades e até mesmo aventurar-se por sentimentos inusitados, provavelmente, recheados de prazer. Se perguntado, com certeza, não conseguiria descrever o que realmente procurava ou se poderia ser considerado um aventureiro.




Truques

Ofereceram-lhe uma toalha, seu rosto transbordava em suor, mas não ficou grato; tomou a toalha com indiferença. Quem o visse naquele momento teria a impressão de que segurava um pano de chão sujo por óleo queimado e rasgado em tiras de ponta a ponta.  Não se demorou. Olhava constantemente para o relógio enquanto guardava na mochila seu avental e as peças do uniforme da lanchonete. Estava a uma semana de completar um ano naquele emprego que odiava abertamente sem forças para esconder seu descontentamento, mas sem coragem para mudar, seguia a vida entre hambúrgueres e outras muitas frituras.




Boas Relações

Um vento levemente frio batia em seus cabelos que, mesmo não estando muito longos e cobertos por grande quantidade de gel, balançavam um pouquinho. Quase fechados pela brisa, seus olhos, logo encontraram alívio para o vai e vem de carros na rua; mesmo tão tarde, quase meia noite, os automóveis ainda passavam enfurecidos pela alameda. Passou a observar um rapaz que se aproximava da fila, tímido, contando os passos e acompanhou-o até parar junto a última pessoa que se aglomerava na frente do bar. O garoto olhava pela ultima vez em um pequeno pedaço de papel amassado.




Entre quatro paredes

A porta foi fechada com a força dos braços entrelaçados das duas amantes. O apartamento era de Ana que, como de costume, trouxe uma estranha para casa. Mais uma noite daquelas.

- Eu não costumo fazer isso – disse ela sem fôlego pelos beijos ardentes.

- Eu também não costumo sair por ai passando a noite em casa de estranhas

- Não, não foi isso que eu quis dizer.




Olhos Imaculados

Ela olhava no espelho e a rigidez de seus traços descrevia sua imaculada aura de respeito e tradição; O codinome senhora sempre lhe foi atribuído por seus filhos, netos e um pequeno bisneto. Nenhuma blasfêmia jamais fora proferida sobre sua personalidade ou sobre seus atos. Após alguns poucos retoques no rosto, ela se preparava e escolhia um belo vestido. Uma peça de cor opaca e corte impecável. Tudo refletia a vida que construiu. Um casamento indefectível, pelo menos aos seus olhos, findado apenas por motivo da morte de seu marido.




Aventureiros

Seus pés fecharam à porta. Eles mal podiam esperar para o encontro daqueles pares de lábios, sedentos, por carinho. Mesmo ali, em pleno banheiro, seus desejos se afloravam. Um barulho os tirou do transe, a porta externa se abrira, e ouviram-se passos. Alguém estava apurado para entrar e satisfazer seus instintos mais básicos.

Os dois se olharam, estavam dentro de um dos reservados, e se abaixaram silenciosamente. Tremiam muito. O medo era forte, mas suas mãos ainda se apertavam, e seus corpos estavam entrelaçados.




Entre olhares e ilusões

Seus passos eram rápidos, seu corpo suava frio e com muito alivio André conseguiu chegar à esquina do calçadão da rua quinze de novembro. Quando olhou para trás, finalmente, não mais avistou a figura, mal encarada e maltrapilha, que parecia segui-lo. As muitas câmeras de segurança, espalhadas pela rua, o fizeram sentir-se melhor. Em seu intimo estava completamente paranóico. Reparou então ao seu redor todas aquelas lojas, naquele calçadão que transpirava consumismo desenfreado, e decidiu ver algumas vitrines. Havia saído mais cedo da loja.




Bombando!

O barulho dos metais colidindo era ensurdecedor. Pesos arremessados através de barras e o encaixe em suportes, de mesmo material, eram ruídos constantes para qualquer ouvinte, por mais desatento que fosse. Tudo isso parecia insuportável, mas não segundo os pensamentos de Carlos. Para ele, só importava estar perto de seu sonho de consumo: um rapaz super bombado, que malhava na mesma academia. O chamavam de Brutus e seu ego fazia jus ao apelido que lhe foi dado pelos amigos. Carlos até iniciou algumas aulas de axé oferecidas em uma escola de dança próxima a sua casa.




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