Contos do Wander

por Wander Bueno

Sob a aura da ilusão

Seus olhos miravam, incrédulos, as chamas se espalhando pela casa de madeira do outro lado da rua. Suas pernas, impulsivamente, pulavam. Seu choro assumia quase um tom histérico. Ela não conseguia compreender como tudo havia caminhado para convergir no grotesco espetáculo que presenciava. Viu o filho pequenino nos braços de Joana e resgatando forças de sua alma, acalmou-se e sorriu. Vislumbrou então sua promessa cumprida. Tornaram-se uma família.




Alianças


Entrei quase correndo pelos corredores da rodoviária. Para minha sorte o ônibus continuava parado, cheguei uns quinze minutos adiantado. Rogério não conseguiu disfarçar a alegria em me ver, me abraçou e manteve um ar de interrogação. Eu entreguei-lhe sua carteira que havia esquecido no meu apartamento e recebi um amplo sorriso como agradecimento. Fui saindo sem mais nada a dizer e senti suas mãos a me puxar.

— Está correndo porquê?

— Quase atrasado... Preciso ir.

— Atrasado?

— Reunião no escritório. Muito trabalho a discutir.




Alameda

Quando ele desceu as escadas, avistou faróis clareando a noite na
contramão da alameda, era o inicio de uma noite de excessos. Naquela
sexta já tão obscura nada parecia mudar.

Após terminar o expediente ele havia saído à rua quase ao mesmo tempo em que um jovem descia os degraus do Colégio Estadual. O primeiro chegou a um hotelzinho underground, no cruzamento da Alameda Cabral com uma viela qualquer. Alguns mendigos bêbados repousavam pelo caminho. O garoto chegou ao hotel e procurou pelo outro na recepção, onde se encontrariam.




Corações Urbanos

A insistência de Paulo era infinita, não que tivesse medo, mas era inseguro. Também não sofria insegurança por si, mas pelo nosso pequeno filho. Pequeno é modo de dizer, o garoto já ultrapassava os dezoito anos.
 
O computador ficava lacrado na sala, ele o vigiava depois das dez da noite e não podia ser tocado pelo pequeno Lucas. Nem mesmo quando eu insistia em utilizá-lo depois do toque de recolher me era permitido.

Eu insistia, precisa terminar algum projeto, poxa, precisava dele pra minha iniciante carreira de engenheiro. Mas sempre ouvia a mesma fala.




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