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A homossexualidade na História – Da antiguidadade ao século XIX

Redação Lado A 02 de Novembro, 2007 14h04m

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Deste o princípio, a prática do homoerotismo está presente na sociedade humana. Há registros desse comportamento sexual entre povos selvagens, na natureza e entre os animais. Neste trabalho de pesquisa está relatado como a ótica da moral de cada sociedade, das ciências e das filosofias, encarou esse fenômeno da natureza.

Egito (Séc V a.C.)
Existiu na cidade de Tebas (que por mais de 2000 anos foi a maior e mais próspera cidade, considerada sagrada, do Egito) um exército de homossexuais. O grupo militar era formado por mais de 150 casais de amantes. No Egito, quando um jovem se alistava, o seu equipamento era dado por seu parceiro. Através de inúmeras e espetaculares lendas, o Sagrado Exército de Tebas, como era chamado, foi transformado em lenda, mantendo-se invicto por mais de 40 anos, perdendo apenas para Felipe, rei da Macedônia, pai de Alexandre o Grande. Alexandre posteriormente destruiu a cidade. Entre os registros egípcios existe um conto sobre duas divindades que vêm para a terra e fazem sexo com dois homens. Os nobres possuíam escravas e escravos para a prática sexual, além dos jovens pajens.

Grécia (séc. III a.C.)
O berço da filosofia, terra que nos fez herdar belezas arquitetônicas, foi o celeiro de muitas de nossas ciências e da democracia. Exemplos de homossexualidade na Grécia não são limitados aos mortais, na ficção está a maior demonstração da abertura do pensamento grego sobre o tema. 

Na mitologia
A mitologia grega está recheada de deuses, semi-deus e seres bissexuais ou homossexuais. O casal mais famoso de todos é formado por Zeus e Ganimedes. Hércules, famoso por suas habilidades e força, também amava a Filoctes, Nestor, Adônis, Jasão e outros, mas o seu amor era notório pelo sobrinho Iolau. Apolo, deus da beleza e da eterna juventude, além de seus incontáveis amores femininos, possuiu inumeráveis homens. O rapto de jovens era comum, aconteceu com Himeneu, Ciparisso, Carnus, Hipólito, entre outros. Já o Deus do vinho, Dionísio, gostava de festas e banquetes.

Cultura
A educação dos meninos atenienses se dava através de laços de amizade e pratica homossexual com seus mentores. Um cidadão que não exercesse a adoção de jovens, e se encarregassem de sua educação, era acusado de omissão em seus deveres como cidadão. Era uma obrigação social tão importante quanto pagar impostos. Os meninos após os 12 anos de idade, nunca abaixo dessa idade, procuravam um adulto para sua educação. Com a aprovação da família e do garoto, este praticava sexo homossexual passivo até completar seus 18 anos de idade com o mentor que lhe ensinava tudo o que sabia sobre a vida. A partir de então, tornava-se ativo e deveria ser mentor de outro jovem, para posteriormente casar-se, próximo a completar 25 anos de idade. Obviamente, muitos continuavam com a prática homo. Homens para o prazer, mulheres para a procriação, dizia a regra social da época.

De fato não há registro de que a homossexualidade tenha sido amplamente aceita na Grécia antiga, muito menos que tenha sido encarada como um problema, como acontece nos dias de hoje. A bissexualidade era vista como prova de virilidade e o sexo homossexual apenas como sexo carnal, troca de energias.

Olimpíadas
Os jogos olímpicos da antiguidade eram exclusivos para homens. Neles, os atletas competiam pelados e ao final de cada dia havia uma grande comemoração. Não existia a competição, ganhadores ou perdedores, era uma celebração saudável ao corpo e mente humana.

Platão, Sócrates e Safos foram os homossexuais mais famosos deste período, suas idéias, resgatadas na Renascença, foram determinantes para o fim da era das trevas.

ROMA
Nenhum outro império foi tão poderoso, extenso e glorioso quanto o romano. Dos últimos 15 imperadores, apenas um (Cláudio) não deixou referências quanto a sua homo ou bissexualidade. Julio César, Tibério, Calígula, Nero, Adriano, Heliogábalo, Galba, Caracala, entre outros, foram adeptos do amor proibido. A luxúria, acompanhada da ostentação e riqueza, era grande. Nos palácios ocorriam verdadeiras orgias. Vestir-se de mulher era uma brincadeira comum, como acontece em nosso Carnaval. Até Constantino (312 D.C), a homossexualidade não seria encarada como um problema por nenhuma sociedade. Embora algumas religiões citem o episódio de Sodoma e o Velho Testamento, tradutores garantem que houve um erro de tradução, no primeiro caso, e uma grotesca alteração, no caso do segundo, durante a Idade Média.

ERA DAS TREVAS
Durante a Idade Média o mundo mergulhou na ignorância. A vontade de Deus era o argumento para todas as ações, inclusive em situações cruéis. A ascensão do Cristianismo em Roma reverteu os valores da época, caçou hereges e perseguiu os diferentes. O papa passou a ter um poder divino sobre a terra, dividindo com os imperadores o governo das nações, influenciando como nunca o futuro da humanidade. O conhecimento ficou restrito aos nobres e aos clérigos. Através do saber manipulou-se os interesses dos homens, a escravidão religiosa gerou uma igreja próspera e de violência generalizada.

A religião de Roma prosseguiu. Diversos são os relatos de ontem e de hoje sobre casos de homossexualidade dentro das religiões. Papas homossexuais fizeram parte da história da Igreja. Como João XXII, que chegou a ser expulso e trazido de volta, por causa das suas orgias bissexuais. Tendo sido assassinado a pauladas, em 964, aos 24 anos, por um esposo traído que o pegou em flagrante.

Em 1123, foi declarada a nulidade de casamentos de padres. Mulheres, animais fêmeas, adolescentes belos e até instrumentos musicais foram proibidos nos mosteiros, a fim de diminuir a tentação aos religiosos. Cantos que misturavam tons muito agudos foram retirados com o pretexto de serem homoeróticos. A pureza da alma agora dependia do sexo e do desejo. 

Inquisição
O papa Gregório instituiu o direito ao Tribunal do Santo Ofício, em 1231, e ordenou o combate às mazelas difundidas em toda a Europa. Somente em Estrasburgo, na época território alemão, foram queimados mais de 80 homens, mulheres e crianças, somente no primeiro ano da inquisição. A prática de extorsões, crimes políticos e de tortura também foi observada. Os homossexuais foram tão perseguidos que, somente no Brasil, já no século XVII, foram registradas 4.419 denúncias de sodomia, dos quais, 30 foram enviados à Metrópole e condenados à fogueira. Muitos fidalgos portugueses fugiam para a colônia em busca de sossego da Inquisição.

A sodomia era considerada a pior das heresias. Para homossexuais, a idade justificava a pena. Após confissões obtidas na base da tortura, o indivíduo abaixo de 15 anos era recluso por 3 meses. Acima dessa idade, deveria ir preso e posteriormente pagar multa. Os adultos deveriam pagar multas, caso contrário tinham suas genitálias amarradas e deveriam andar nus pela cidade, serem açoitados e depois expulsos. Caso fossem maiores de 33 anos, o acusado seria julgado, sem direito a defesa e, caso condenado, morto em fogueira e seus bens confiscados. Apesar de todo os esforços, nesse mesmo período existem relatos de pelo menos dois papas homossexuais: Paulo II e Alexandre VI.

Renascença
O retorno das idéias gregas e romanas. Dois fatores foram cruciais para o sucesso desta virada de página na humanidade. O fortalecimento da burguesia, através do comércio e artesanato, e o segundo, sem dúvida, a invenção da prensa gráfica móvel em 1456 pelo alemão Gutemberg. Com isso, a escrita passou a ser popularizada. Os livros produzidos pelos monges escribas e dominantes da escrita não eram acessíveis à maioria da população. Embora o primeiro livro publicado tenha sido a Bíblia, em menos de 10 anos o volume de obras ultrapassou o que os monges conseguiram fazer a mão em quinze séculos. Infelizmente, na Idade Média, muitas obras acusadas de heresia foram perdidas para sempre. Porém, fragmentos da antiguidade e novos títulos sugiram e impulsionaram o pensamento humano.

Com defensores públicos do amor entre iguais, a homossexualidade foi tornando-se causa de penas leves e raras execuções. Os mestres Leonardo da Vinci, Botticelli, Michelangelo eram homossexuais. Novos ares de liberdade inebriavam a história, mas os homossexuais ainda seriam atacados pelos protestantes, que apesar de defenderem a educação de seu povo passaram a ver os homossexuais e as prostitutas como escória social na terra e no reino divino, voltando para estes grupos os julgamentos e execuções.

O Oriente
Em 1541, Francisco Xavier foi o primeiro missionário a chegar no Japão e à China. Chegando nesses países e visitando um grande monastério Zen, presenciarou a falta de pudor destes povos ao “copularem contra a natureza”. Mais tarde, os jesuítas relataram que a sodomia também era comum entre os samurais. Na China, outro missionário relatou que a existência de um grande número de prostitutas e sodomia generalizada. A visão ocidental passou a interferir na tradição milenar do oriente, apenas no século XIX, com o aprimoramento da comunicação, e invasão de territórios orientais por europeus.

As Américas pré-colombianas
Em toda a América do Norte foi observada a prática de sodomia entre as tribos nativas. O travestismo era comum em tribos como os Sioux. Ao povo asteca existia até um deus patrono da homossexualidade e da prostituição, xochipili. Práticas rituais com sexo entre homens também foram relatadas. Prisioneiros e escravos mais uma vez eram vítimas de estupros. 

Na América do Sul, em tribos de caçadores, os homens que não gostassem de desempenhar o papel social de seu gênero poderia juntar-se às mulheres nos afazeres da agricultura e cuidados domésticos. Para participar do grupo feminino deveria deixar os cabelos alongados e ser passivo no sexo. Os conquistadores europeus caçavam os nativos travestidos, conforme ensinado em sua terra natal. O termo bugre, sinônimo de índios, vem do termo francês bougre que significa herege, sodomita.

No Brasil, o sexo homossexual sempre fora praticado entre os índios. Em algumas tribos, essa era a forma de curandeiros passarem seus conhecimentos. Rituais de iniciação fazem parte da tradição do índio entrando na puberdade, em muitas comunidades inclui-se a iniciação sexual. O baito, tenda dos homens, foi presenciada no Séc. XIX pelo naturista alemão Karl Von den Steiner. A falta de mulheres disponíveis na tribo também era resolvida de forma prática.
 
Brasil Colônia
Em 1584 aconteceu a primeira visita do Santo Ofício da Inquisição no Brasil. A Bahia foi o local desta inspeção motivada pela observação das pessoas que retornavam a Portugal, que possuíam hábitos de libertinagem. 

Durante a escravidão, a homossexualidade foi naturalmente praticada pelos negros, uma vez que a prática ainda não havia sido coibida em seu continente. Tanto os homens quanto as mulheres eram vítimas de estupro por parte dos capatazes e senhores de engenho. Alguns historiadores afirmam que Zumbi dos Palmares, o herói negro brasileiro, também era homossexual. 

Iluminismo (Séc. XVIII)
A idade do ouro. O século das luzes tomou conta Europa e posteriormente do mundo. As idéias de racionalismo, da ciência, de um homem que se tornava cada vez mais humano. Com isso, a Ciência tomou conta de caracterizar a homossexualidade como doença. Na verdade, foi descrita entre doença e etnia, como se através das características de comportamento do indivíduo ele fizesse parte de um grupo étnico. O mundo ainda era extremamente machista e fundamentalista. Tudo precisava ter uma explicação. Os anos de ignorância geraram fome de conhecimento. A partir daí para a invenção da luz elétrica, mecanismos movidos a vapor. A revolução francesa marca o fim do feudalismo e representa a luta por melhores condições de vida, de trabalho: liberdade, igualdade e fraternidade. Para o homossexual (sobretudo àqueles sem contatos políticos) existiam agora três pesos: o Estado, a Igreja e o povo. Diversas experiências de cura de homossexuais foram empregadas, obviamente, sem sucesso.

Redação Lado A

SOBRE O AUTOR

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A Revista Lado A é a mais antiga revista impressa voltada ao público LGBT do Brasil, foi fundada em Curitiba, em 2005, pelo jornalista Allan Johan e venceu diversos prêmios. Curta nossa página no Facebook: http://www.fb.com/revistaladoa

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