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Você conhece a Gilda da Rua XV?

Redação Lado A 29 de Março, 2012 16h53m

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Assista o documentário Beijo na Boca Maldita (2008), de Yanko Del Pino:

 

Abaixo, confira o texto Gilda da Rua XV*

*Trecho inédito do Livro O Gay Curitibano de Allan Johan (TCC Jornalismo UTP 2007)

Na famosa Rua das Flores, mais precisamente na Boca Maldita, palco de manifestações populares e de encontro dos intelectuais da cidade, vivia desde os anos 70 uma figura mitológica que atendia pelo nome de Gilda. Se você já ouviu falar nas mulheres barbadas que figuravam o imaginário popular dos circos mambembes, bem, poderia ser Gilda uma delas. Ele, ou ela, era na verdade Rubens Aparecido Rinke, que atendia pelo nome de Gilda e se dizia travesti, e era uma figura popular de Curitiba até o ano de 1983, quando foi encontrada morta em um casarão abandonado.

Não se sabe ao certo quando chegou, mas no inverno que nevou na cidade, em 1975, ela já estava lá, dizem que abandonou um circo e ficou na cidade. Com o passar dos anos, a alegria se transformou em melancolia, mas Gilda fez graça até o fim. Animava todos os anos o Carnaval de rua da cidade, desfilando a frente da Banda Polaca e fazendo brincadeiras com os transeuntes que passavam por lá. “Cinco cruzeiros ou um beijo”, dizia ela, que tascava a boca em quem não lhe ajudasse. Dizia-se o primeiro gay assumido de Curitiba, mas a comunidade homossexual da cidade não a considerava assim. Era moreno, com muitos pêlos pelo corpo e barba quase sempre para fazer. Dinheiro nunca faltava, graças a generosidade alheia e às suas táticas de terrorismo inocentes. Volta e meia, ainda conseguia um troco para dar um beijo sob encomenda.

Conta a lenda que certa vez um office boy foi abordado por Gilda e, com medo, deu-lhe os 10 mil cruzeiros que possuía. Feliz, ela tascou-lhe um beijo, de agradecimento, como frisou. Também não fugiram de sua boca jovens que depois se tornaram deputados e senadores. O até pouco tempo presidente da Câmara Municipal de Curitiba, Francisco Derosso, foi mais um dos que ela beijou. Gilda espalhava alegria e carinho, embora recebesse em troca olhares hostis que a acompanharam até depois da morte. Sofreu dois atentados que quase lhe custaram a vida. Em um deles, Gilda foi enforcada por outro morador de rua. No outro, recebeu duas facadas no abdômen que infeccionaram e quase levaram Gilda antes da hora.

A ‘travesti’ como era chamada na época, era na verdade um híbrido de personalidade excêntrica e morador de rua. Gostava de beber e de curtir a vida sem pretensão dos que escolhem as vias públicas como lar. Cultuava a liberdade e a cidade com suas criações que iam de vestimentas feitas com bandejas coloridas, jargões, até vestidos adaptados, ou mesmo inteiros, ganhos de amigos ou confeccionados pela própria.

No Carnaval de 1981, veio a grande traição que já dava sinais de que Gilda seria eterna. Ela foi presa às vésperas do Carnaval, sob pretexto de que precisava passar por um atendimento hospitalar. As pessoas foram as ruas exigir a presença da figura mais esperada no Carnaval todos os anos. Mas a Banda Polaca saiu sem Gilda naquele ano. Depois, ficou aquele clima de complô na cidade e muitos dizem que impediram Gilda de desfilar por preconceito. Outra lenda urbana que se formou com seu nome era que ela seria de uma família rica, que o pai seria um político conhecido da época.

Gilda foi encontrada morta em 15 de março de 1983 em um casarão abandonado à Rua Desembargador Motta, número 2290. Depois daquele ano, o Carnaval da cidade nunca mais seria o mesmo. Morta, em estado avançado de putrefação devido à meningite purulenta que lhe consumiu as últimas gotas de alegria, Gilda foi para o IML e a notícia correu a cidade.

Curitiba parou para homenagear a figura que por mais de uma década fazia parte do cenário da Rua XV. Uma vigília, uma série de flores e presentes foram colocados próximos ao local onde todos os dias Gilda cumprimentava os pedestres. Mas o Instituto Médico Legal não quis liberar o corpo sem que um parente fizesse a identificação com a devida documentação do morto. Criou-se um drama na cidade pois ninguém conhecia a origem verdadeira da figura mais popular, que chegava a ter uma cadeira cativa no teatro Guaíra, para quando quisesse “aparecer” – mais uma lenda lançada por ela.

Um grupo de amigos providenciou uma placa afixada em um dos obeliscos da Boca Maldita, o que travou um guerra com Anfrísio Siqueira, criador da Ordem dos cavaleiros da Boca Maldita, que não via com bons olhos as peripécias de Gilda em seu auto-intitulado território. Siqueira, meses depois, deu cabo da tal homenagem, mas terá que se conformar, in memorium, a ser lembrado sempre como sombra da travesti mais famosa da cidade.

Três dias após dada como morta, Gilda foi enterrada em um caixão lacrado, devido ao vírus mortal. Uma multidão conduziu o corpo de Gilda até o cemitério do Bom Retiro, ao jazido da travesti Márcia, que doou uma vaga para a colega. Uma verdadeira multidão de curiosos e admiradores de Gilda foram dar o último adeus e prestar as últimas homenagens. De imediato, seus amigos do restaurante Bife Sujo e o teatrólogo Celso Filho, pioneiro na noite gay da cidade, fizeram uma exposição em homenagem à Gilda. O enterro só foi possível depois que um envelope lacrado, remessado da cidade de Ibiporã, cidade do interior do Norte Pioneiro do Estado trazia a certidão de nascimento da falecida, dois dias depois de sua morte. Os pais não quiseram comparecer mas responderam aos pedidos quase que diários na imprensa, de que dessem ao menos um enterro digno à figura que tanto alegrou a cidade.

No ano seguinte de sua morte, o bloco Embaixadores da Alegria pulou o carnaval sem a presença de Gilda mas com um samba enredo em sua homenagem. Gilda virou ainda peça de teatro, documentários e um pequeno livro de imagens feito por amigos com apoio da Fundação Cultural de Curitiba.

Gilda sem nome (1984)

Ai que saudade, que me veio!
Das brincadeiras que Gilda aprontava
50 mangos para beijar certo alguém

Descontraída Gilda ia… e beijava
Beijou doutor… o senador…
Falou de amor; brincou… brincou…

Gilda, o seu bom humor deixou
um oceano de saudade

Gilda, o seu carnaval marcou
por muito tempo a rotina da cidade

Da melindrosa, de princesa oriental
Da avenida faz seu palco natural e
de repente transforma-se o artista

De Carlitos, a vedete ou passista
Ai que saudade
 

Redação Lado A

SOBRE O AUTOR

Redação Lado A

A Revista Lado A é a mais antiga revista impressa voltada ao público LGBT do Brasil, foi fundada em Curitiba, em 2005, pelo jornalista Allan Johan e venceu diversos prêmios. Curta nossa página no Facebook: http://www.fb.com/revistaladoa

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