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Lesbofobia em bar de Curitiba motiva beijaço neste sábado

Redação Lado A22 de Maio, 201417h30m

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Aconteceu de novo. Mais um casal homoafetivo, desta vez de lésbicas, foi impedido de mostrar afeto em público. Uma assistente de cabeleireiro de 25 anos e sua namorada estavam no bar Quintal da Maria, também conhecido como Outro Bar, na região do Largo da Ordem, Centro de Curitiba, quando depois de trocar um beijo foram convidadas a “se  conter”. A abordagem foi feita pela proprietária, que afirmou que o local – uma casa de samba – não permitia este “tipo de coisa”, segundo as garotas. Este não seria o primeiro caso de homofobia no estabelecimento.

Em nota nas redes sociais, a proprietária do local afirma que houve excesso por parte das garotas e que o local é “aberto para todos os públicos! E está dentro dos valores da empresa o respeito a todos os públicos, indiferente de sua raça, gênero, ou orientação sexual!”. As meninas porém afirmam que não fizeram nada senão se beijar e que foram mal tratadas e alertadas que poderiam ficar no local se não se beijassem. Ao responder que não precisavam de autorização do local para se beijar, foram hostilizadas. A discussão tomou proporções maiores e elas deixaram o local.

No Facebook, Stephani relatou o ocorrido com detalhes e o assunto passou a receber apoio e rejeição de clientes e amigos, inclusive com clientes gays defendendo o posicionamento da proprietária. Frente à atitude do local, amigas das meninas organizaram um beijaço no local neste sábado. O “Beijaço pela Liberdade no Quintal da Maria” se dará às 17h30 e mais de 300 pessoas confirmaram participação pela página do evento.

Vale lembrar que qualquer norma de uma empresa deve ser fixada em local visível e ser igual a todos os clientes, sendo vedado o abuso sobre o direito do cidadão, conforme explica o Código de Defesa do Consumidor. As meninas afirmaram que registraram a ocorrência e mas não pretendem abrir um processo civil por danos morais.

Confira abaixo a manifestação das duas partes envolvidas:
 

NOTA DO QUINTAL DE MARIA
Venho através desta nota de esclarecimento apresentar o posicionamento da equipe administrativa do Quintal da Maria, acerca dos últimos acontecimentos..
 
O Quintal da Maria é um estabelecimento aberto para todos os públicos! E está dentro dos valores da empresa o respeito a todos os públicos, indiferente de sua raça, gênero, ou orientação sexual!
 
Queremos deixar claro que a ação tomada não foi motivada por preconceito e/ou homofobia, e sim pelo comportamento exagerado que não convém com a conduta do estabelecimento! 
 
Disponho-me a esclarecimentos e a eventuais questionamentos a quem interessar.
 
Maria

 

 
DENÚNCIA DAS MENINAS NA REDE SOCIAL
 
Hoje 18/05, eu e minha namorada (sim, somos um casal homoafetivo), saímos como normalmente fazemos para aproveitar meu domingo de folga, e resolvemos ir até o Quintal da Maria, onde eu havia ido uma semana atrás com a minha mãe para comemorar o dia das mães e conhecer o lugar já que a banda de admiração Os Encantados estava tocando e também por ser um bar onde meu pai Enoque Arruda costuma ir. 
 
Bom, o samba estava muito bom, tinha escolhido aquele lugar pois sabia que havia a conexão entre a música ao vivo rolando e a ancestralidade na qual acredito, onde até o Maracatu Aroeira já tocou uma vez. Se aproximando do final da apresentação do grupo de samba que estava tocando, eu (como qualquer casal) dei um beijo em minha namorada, nada demais, nada obsceno, apenas um beijo de pessoas que se gostam muito, que se amam, e fomos agressivamente repreendidas pela dona do estabelecimento, que a princípio eu não fazia idéia de quem fosse, que fez um discurso do tipo “eu não sou homofóbica, mas por favor não se beijem aqui dentro, vão lá fora fazer esse tipo de coisa”; então eu sem entender que tipo de repressão era aquela, sem motivo, sem razão, respondi que ela, sendo uma mulher negra, com um espaço voltado a cultura de terreiro e negra, estava fazendo o mesmo que faziam antigamente dividindo o mundo e os locais entre negros e brancos – héteros e homos – cada um com o seu lugar de exclusão. Então ela disse à minha namorada que nós podíamos ficar, que estava tudo bem contanto que não nos beijássemos, e eu respondi no mesmo tom de calma e complacência que eu não precisava da autorização dela para ser o que sou. 
 
Nesse momento ela virou totalmente outra pessoa, com fogo nos olhos, berrando, esperneando, me expulsando do lugar (e na verdade até então eu não sabia que ela era a dona) aí eu disse que continuaria ali porque estava gostando do som e que não havia ordem legítima que me tirasse daquele lugar se eu não quisesse sair. Isso só piorou as coisas, ela começou agressivamente a fazer um escândalo chamando a atenção de todos e neste momento eu e minha namorada recebemos o apoio de alguma pessoas, um rapaz me perguntou o que estava acontecendo e depois disse para eu não ligar porque isso era coisa de gente ignorante, outra mulher veio atrás de nós batendo palmas e gritando “xô preconceito!!!” repetidamente…. 
 
Aí esta tal dona do Quintal da Maria nos coagindo a todo momento, até chamar um casal de lésbicas que trabalham para ela no bar, dizendo que eram amigas próximas (isso, claro, devido a manifestação das pessoas ao nosso favor) e eu já revoltadíssima disse que “deviam ser amigas contanto que não demonstrassem nenhum sentimento de amor e não se beijassem na frente dela”.
 
Aí se sucedeu a parte mais revoltante, em que uma das mulheres do casal de “amigas íntimas lésbicas” que não estava nem uma nem a outra presentes no momento em que nos beijamos, disse que eu e minha namorada estávamos nos sujeitando a masturbação de homens ao lado de nós e que havia um cara nos olhando até aquele instante de reboliço com olhar de tezão e masturbação, que nós como um casal gay deveríamos nos preservar disso, e ser um casal fora do olhar das outras pessoas. Nesse momento, com esse discurso homofóbico direto de uma pessoa homossexual, com um monte de gente gritando em volta de nós mais a favor do que contra, uma mulher me abraçando e falando coisas em apoio, eu surtei e fui embora, puxando minha namorada no meio da multidão que se cercou em volta de nós.
 
Mas a revolta ficou. A dor ficou. Porque não importa as batalhas pessoais que nós enfrentamos pra podermos ficar juntas, ainda temos que agüentar esse tipo de repressão e puro preconceito do lugar que menos esperamos intolerância. Porque não importa o qüao boa pessoa você seja, não importa o quanto de bem você tente passar pras pessoas e ajudar, não importa o quanto você rale pra caramba até a exaustão e contribua pagando impostos, não importa o quanto você se desgaste, o quanto tente construir, não importa nada, se – por escolha sim e força não se sabe daonde – resolver passar por cima de todos os padrões em respeito a própria felicidade, por querer como qualquer pessoa do mundo ser amada como realmente merece. Isso dói. Isso dói muito. E sentir no olhar, na altura de voz, no cuspe ao falar na sua cara, de alguém que acha que é falta de respeito você defender o seu amor, o seu próprio ser, sentir de perto a inquisição, dói mais um pouco ainda.
 
Porém, todos nós temos a nossa carga de evolução na terra, e eu espero que todas essas pessoas que chacotam, que são agressivas com o que julgam errado, que mantêm um ciclo irracional de opressão, que todas essas pessoas cumpram seu karma aqui na terra e recebam aquilo que mereceram pelo o que fizeram…

 

Redação Lado A

SOBRE O AUTOR

Redação Lado A

A Revista Lado A é a mais antiga revista impressa voltada ao público LGBT do Brasil, foi fundada em Curitiba, em 2005, pelo jornalista Allan Johan e venceu diversos prêmios. Curta nossa página no Facebook: http://www.fb.com/revistaladoa

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