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Pesquisador gaúcho defende dissertação de mestrado sobre potencial pedagógico das Drag Queens montado

Redação Lado A 12 de Setembro, 2017 22h30m

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Quem nunca passou por uma situação de nervosismo ao apresentar algum trabalho da escola, faculdade ou mestrado? Agora, imagine fazer a defesa do seu mestrado montado de drag queen. O pesquisador Iran Almeida Brasil, graduado em artes visuais, mestrando em Educação e Artes na Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, passou por isto e venceu. A sua defesa de dissertação em Educação e Artes, intitulada “Drag Queen: uma potência multipedagógica”, foi realizada em 21 de agosto, e o que parecia ser mais uma defesa, foi transformado em paixão e envolvimento pelo tema que foi abordado. 
 
Lili Safra é a personagem de Iran que venceu o Miss Drag Queen em 2013 e se apresenta em festas, teatro e eventos pelo Rio Grande do Sul. Com louvor, ele mostrou como o talento pode ser uma ferramenta de trabalho poderosa na Educação, principalmente para quebrar preconceitos. O pesquisador teve como orientador o Dr. Marcelo, que Iran não pode deixar de agradecer pelo suporte, paciência, dedicação e respeito pelo seu trabalho e pelo desafio de se jogar neste itinerário glamouroso. A defesa contou com a banca, sendo preenchida pela Prof.Dr. Marilda Oliveira de Oliveira, Prof. Dr. Mônica Bonatto e Prof. Dr. Márcia Paixão, e mais uma vez o pesquisador agradeceu por terem lido seu trabalho e por suas contribuições para pensar essa pesquisa e a figura da Drag Queen em outros cenários.  

Confira a entrevista exclusiva que fizemos com o Iran:

Qual o objetivo do trabalho, a escolha do tema?
Iran – Ao considerar a drag queen como um personagem que está sempre se construindo, transformando-se, percebo-a como uma figura que transita entre os gêneros masculino/feminino, esta não deixa de ser um “escape” às formas padronizadas (instituídas, estratificadas), de ser homem ou mesmo mulher. Então, a partir da experimentação e, por conseguinte, do interesse de entrelaçar questões de práticas pessoais e transformistas como drag queen. A escolha da temática drag queen se dá a partir de questões que acredito serem significativas e relevantes para a discussão sobre as diferentes possibilidades de ser sujeito/personagem no cotidiano, na docência e sua prática. Dito de outro modo, procuro pensar de que maneira a transformação do sujeito/drag queen e seu entorno podem se relacionar com a educação. Assim sendo, pretendo indagar no curso dessa investigação sobre as relações que são construídas entre a personagem drag queen e o sujeito que a constitui.

A presente proposta consiste, portanto, numa tentativa de compreensão da relação sujeito/personagem drag queen, de modo a refletir sobre esta figura no e meu cotidiano e suas potencialidades subjetivas e pedagógicas.

 
O que se obteve com a pesquisa como ensinamento?
Iran – Pensar a figura da drag queen metaforicamente contribuiu para  a escrita dessa dissertação possibilitando relações e reflexões com o campo educacional. Algumas indagações que permeiam a pesquisa: O que potencializa a figura da drag queen? Como esta figura pode ser jogada com a educação para pensar a docência? Que papel a figura da drag queen teve em minha experiência como professor? De que forma, esta figura pode ser pedagógica?
 
Minha prática pedagógica é movida pelo transformismo e já não é possível mais concebê-la como algo separado da tarefa de educar e de mim. Transformismo/drag queen e educação convivem, andam juntos neste processo caracterizado pelas vivências dentro e fora do ambiente educacional. 
 
Pensar a docência a partir da metáfora da figura da drag queen, é pensar esta figura como movente, que se monta com acessórios femininos, que se (des)monta, que não segue uma linearidade fixa, que faz a partir desta arte experimentar outras possibilidade no viver. Experimentar novas possibilidades, seguir outros caminhos, é pensar em algo que nos acontece, que esta sendo, em movimento. Enquanto artista/dragqueen/educador, penso a docência, sem forma fixa, sem normas, e sim num processo buscando encontrar possibilidades, desenhando caminhos, ir e vir, tentando escapar das “verdades absolutas”. A figura da drag queen potencializa experimentar outros caminhos, de sermos outros, de (re)inventar a si mesmo como sujeito/educador/artista, sem seguir uma receita, pois há inúmeras possibilidades de ser docente.
 
Lili por meio de suas performances, diversificadas, possui um papel problematizador – desnaturalizando o sujeito, os gêneros, (des)construindo as noções de masculino/feminino – possui também um papel pedagógico – o processo de aprendizagem da montagem drag, os métodos e truques da arte transformista, por exemplo, por meio do amadrinhamento drag, onde os princípios desta arte, as técnicas de maquiagem e comportamento são ensinados de “mãe” para filha. Em minha experiência como educador a figura da drag queen (Lili Safra) teve e tem um essencial papel em minha formação como sujeito/educador.
 
Mudou algo em sua concepção?
Iran – Mudou sim. Atualmente não penso só no glamour, luxo, carisma da figura da drag queen e sua importância enquanto uma figura de luta e afirmação. Penso-a em outros cenários. Transmitir uma mensagem sobre aquilo que acreditamos, seja ela pelo ato performático no palco ou pelas mídias como a internet, desconstruindo ou tentando desconstruir o pensamento de uma sociedade enraizada em seu pensamento conservador, isto é significativo e relevante.
Pensar a figura da drag queen em outro cenário, me fez pensar em suas potencialidades também subjetivas e pedagógicas. Que as possibilidades de reflexões abordadas com ser sujeito/personagem no cotidiano, na docência e sua prática, possa movimentar o leitor em relação à essa figura perturbadora, fascinante, transgressora. Ecos sobre esta figura ainda ressoam em mim, desta forma, sei que ela vai dar muito o que falar ainda, pois essa figura ainda pode ser muito mais explorada não só no espaço educacional, mas em outras configurações.
 
A figura da drag queen faz parte de mim, ela me da vida e me potencializa criar, ser, viver; e assim como a drag queen que está sempre em processo, transformando-se, (re)inventando-se, minha pesquisa também estará sempre em processo, possibilitando outras transformações, outras reflexões. 
 
Porque escrever sobre um tema tão polêmico? 
Iran – Quando decidi escrever sobre a figura da drag queen, foi porque eu tenho um personagem drag a aproximadamente 9 anos. Não vejo a figura da drag como uma figura polêmica, vejo-a como uma figura fascinante, perturbadora, transgressora.
 
Esta temática me acompanhou desde a graduação no Curso de Artes Visuais a arte do transformismo, sem perceber, estava fazendo parte dos meus trabalhos plásticos que desenvolvi nos atelier de desenho, serigrafia, cerâmica, design de superfície e estamparia, e também a temática do transformismo me acompanhou no trabalho final de graduação juntamente com a moda, com o intuito de criar uma relação entre o transformismo, a moda e a educação. Como título deste trabalho final, Moda e Transformismo: um encontro de personalidades na construção docente.
Encontro-me em Lili e vice-versa, pois vivencio este trânsito entre sujeito e personagem/drag queen a aproximadamente 9 anos. Personagem que me afeta e que de certa forma afeta aos outros, e que me possibilita experimentar momentos que jamais serão esquecidos.
 
Teve muitas dificuldades de abordar o tema, como material pesquisas ou ajuda?
Iran – Não tive muita dificuldade em abordar o tema, pois meu orientador se jogou comigo neste universo colorido e na qualificação do trabalho as sugestões da banca foram muito significantes e importantes para continuar a pesquisa e pensar esta figura de forma mais pedagógica e suas relações com o meu cotidiano sujeito/artista/educador.
 
O que pude perceber no início da pesquisa durante o Estado da Arte, é que na área de educação esta temática é pouco explorada, então busquei pesquisas em outras ares como a antropologia, a sociologia, a comunicação, entre outras.
 
 
Redação Lado A

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A Revista Lado A é a mais antiga revista impressa voltada ao público LGBT do Brasil, foi fundada em Curitiba, em 2005, pelo jornalista Allan Johan e venceu diversos prêmios. Curta nossa página no Facebook: http://www.fb.com/revistaladoa

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