A surpreendente história de Lucy Hicks: a mulher negra que foi presa por ser trans no século XX

Redação Lado A 29 de Junho, 2018 12h40m

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“Eu desafio qualquer médico do mundo a provar que eu não sou uma mulher”, disse Lucy Hicks quando um tribunal contestou seu gênero. E foi além. “Eu me vesti e vivi exatamente como aquilo que sou, uma mulher”. Historicamente perseguidas, as pessoas trans sempre enfrentaram uma vida de segregação e exclusão. Mulher trans e negra, Lucy Hicks sofreu aos efeitos de uma sociedade transfóbica. Contudo, revolucionou a questão de gênero em sua sociedade.

Lucy Hicks nasceu em Waddy, uma comunidade dos Estados Unidos, no ano de 1886. Desde a infância Hicks manifestava sua identidade feminina. A escola exigia o uso de uniformes masculinos e femininos, e foi nesse meio que a pequena começou suas reivindicações. Lucy pediu a seus pais para ir à escola de vestidos, e assim fez por muitos anos.

Preocupados, os pais de Lucy resolveram procurar um médico. Em uma atitude inesperada, o médico solicitou aos pais que começassem a tratar Lucy sempre como uma menina, pedido imediatamente atendido. Assim, nunca mais se ouviu falar na criança que ao nascer foi batizada como um menino e recebeu o nome de Tobias Lawson.

Lucy chegou à adolescência e a vida na pequena comunidade de Waddy não mais agradava a jovem. Portanto, abandonou os pais aos 15 anos de idade e se mudou, sozinha, para o estado da Califórnia. A adolescente trabalhava como empregada doméstica em casas de família para se sustentar e logo seus talentos começaram a chamar a atenção da alta sociedade. Como uma boa anfitriã, Lucy começou a ser muito requisitada para promover grandes festas e eventos.

A alta sociedade americana do começo do século XX se vangloriava de seus grandes eventos. Festas regadas à música e fartura eram um sinal de riqueza. Desse modo, Lucy usou seu talento e por muitos anos foi referência na área. A jovem ficou muito conhecida por todos e, além de receber os convidados, era responsável pelos pratos servidos nos eventos. Essa atividade lhe rendeu também o título de chef de cozinha da época.

Aos 20 anos de idade, se casou com o primeiro marido, Clarence Hick. A união durou apenas nove anos, tempo suficiente para a visionária Lucy reunir suas economias para comprar uma propriedade. Nesse lote, Lucy teve a ideia de abrir um bordel que fez muito sucesso. No entanto, a polícia logo interditou o empreendimento e prendeu Lucy pela venda ilegal de bebidas alcoólicas.

Reverenciada na cidade, a empresária logo foi liberta graças aos protestos da população. Outro acontecimento que influenciou em sua soltura, foi o pagamento da fiança pelo banqueiro Charles Donlon. O homem precisava dos excelentes serviços de Lucy para realizar uma grande festa em sua mansão. Liberta, a empresária realizou o serviço para o banqueiro e voltou aos seus negócios no bordel.

O império moral e material de Lucy Hicks começou a desmoronar em 1945. Recém casada com seu segundo marido, o soldado da Marinha Reuben Anderson, Lucy foi submetida a exames. Isso porque, como dona de um bordel, precisou abrir as portas do estabelecimentos para exames graças à um surto de dsts. Naquela época, as autoridades desconfiavam que Lucy também trabalhava como as mulheres do bordel, e que portanto, estava vulnerável à doença.

No consultório médico, dessa vez, a empreendedora não teve a mesma sorte da infância. O médico acusou em seus laudos que Lucy era um homem, o que lhe rendeu um grande processo judicial. A mulher foi acusada de falsidadade ideológica e teve seu casamento anulado. Escandalizada, a sociedade que antes admirava a socialite, agora, a desprezava.

A Corte condenou Lucy e seu marido a dez anos de liberdade condicional, além de que ela não poderia mais usar roupas femininas. Desde então, a Justiça ainda continuou a perseguir o casal. Induzida a usufruir de um dinheiro previdenciário de seu antigo e atual marido, o governo processou o casal por fraude e os prendeu. Depois de livres, tentaram voltar para a cidade de Oxnard, na Califónia, mas foram expulsos. O casal foi então morar em seu último destino, em Los Angeles. Nessa cidade, Lucy viveu tranquilamente até a sua morte em 1954.

Documentário

O documentário We’ve Been Around lançado pelo site People, em parceria com o EW e Essence, conta a história de personalidades transexuais como Marsha P. Jonhson, Sylvia Rivera e Lucy Hicks. A produção aborda o intenso enfrentamento da transfobia nos tempos de grande repressão.

Confira o trecho com a história de Lucy Hicks

 

 

 

Redação Lado A

SOBRE O AUTOR

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A Revista Lado A é a mais antiga revista impressa voltada ao público LGBT do Brasil, foi fundada em Curitiba, em 2005, pelo jornalista Allan Johan e venceu diversos prêmios. Curta nossa página no Facebook: http://www.fb.com/revistaladoa

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