Diretor do Procon-SC quebra o silêncio e conta sobre relação com o pai biológico

Redação Lado A 19 de Maio, 2020 11h43m

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Diretor do Procon-SC e gay assumido, Tiago Silva Mussi, 37 anos, começou a trabalhar nos anos 2000 na Prefeitura de Florianópolis e logo estava organizando eventos como o POP Gay e a Parada da Diversidade da cidade. Pessoa conhecida na ilha por seu jeito combativo no Procon, foi eleito vereador em 2012 como o mais votado para o cargo. Esta semana ele falou sobre um fato desconhecido para a maioria das pessoas: a sua relação com o pai.

Filho de uma doméstica da comunidade do Morro do Mocotó, Tiago falou sobre o processo que moveu conta seu pai, o ministro do STJ, Jorge Mussi. O tema veio à tona quando vieram parabenizá-lo pelo pai ter assumido a vice-presidência do tribunal. Thiaguinho, como é conhecido, expôs além da paternidade toda a sua trajetória sem o pai, que ainda não o trata como filho.

Em 2012, a Lado A conversou com Tiaguinho sobre o fato e o mesmo pediu sigilo, em respeito à sua mãe que assinara um acordo com a família de seu pai. Optamos por não expor a história, pois jornalismo se faz com respeito. Abaixo, veja o post dele no Facebook.

NÃO RECEBI O CONVITE
É com essa frase que tenho respondido as pessoas que me parabenizam pela nomeação do meu pai a vice presidência do Superior Tribunal de Justiça. Não recebi o convite para a posse. Fiquei sabendo da sua nomeação como todos os outros, pela imprensa. Nem todos sabem, mas sou filho do Ministro do STJ e ex Desembargador, Jorge Mussi. Nunca falei publicamente sobre isso. Mas recentemente, após uma longa batalha na justiça, tive o direito a paternidade reconhecida.

Fruto de uma relação do filho da patroa com a empregada, não tive o nome do pai no meu registro. Não tive sua presença, seu carinho, seu apoio, da infância a vida adulta. Isso nunca me impediu de trilhar o meu cominho e conquistar minhas vitórias. Lutei duras batalhas. Contra a desigualdade, o preconceito, a falta de oportunidades. A pobreza. O meu pai trilhou o seu também, formado em direito pela Universidade Federal de Santa Catarina e de família influente ingressou na magistratura como desembargador. Em dezembro de 2007, foi nomeado ao cargo de ministro do STJ e foi membro do Tribunal Superior Eleitoral. Assim como agora não fui convidado para nenhuma de suas posses. Ele se envergonha de ter um filho com a empregada doméstica. O que me leva a concluir que tal caminho de êxito e sucesso, como homem que aplica a lei, não o sensibilizou do meu direito, como filho de ter um pai. Mas a justiça só é justa quando feita com coração.

Em respeito a minha mãe, não tornei púbica essa luta. Não usei da visibilidade das minhas conquistas pessoais, como diretor do Procon municipal ou como vereador mais votado de Florianópolis em 2008, para tornar pública essa injustiça. Mas esse ano, a vida levou a minha mãe. Uma mulher guerreira que com ajuda da minha avó decidiu não brigar com o homem que era o pai do seu filho para ajudar a me criar. Desde muito jovem ela também precisou enfrentar inúmeras dificuldades. Entre elas a de criar um filho sozinha.

Mas eu, por decisão própria enfrentei, sozinho, uma intensa e turbulenta batalha na justiça. O meu pai, ministro Jorge Mussi, utilizou de toda a sua influência e aproveitando-se da morosidade dos processos judiciais do país para dificultar o reconhecimento de paternidade. A ponto de a rolar uma testemunha que morava nos Estados Unidos para ser ouvida. O que não impediu que a justiça fosse feita. Venci. Me tornei, nos documentos, Tiago Silva Mussi. Porém, muitas pessoas que acompanharam essa luta me questionam porque não assino usando o Mussi. Me sinto mais confortável sendo um Silva. Somos um país construído por Silvas. Muitos inclusive, sem pai, mas a maioria honestos e éticos.

Redação Lado A

SOBRE O AUTOR

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A Revista Lado A é a mais antiga revista impressa voltada ao público LGBT do Brasil, foi fundada em Curitiba, em 2005, pelo jornalista Allan Johan e venceu diversos prêmios. Curta nossa página no Facebook: http://www.fb.com/revistaladoa

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