Porque Jean Wyllys não deveria chamar Carlos Bolsonaro de enrustido

Redação Lado A 09 de Junho, 2021 13h10m

Esta semana, o filho do Presidente Jair Bolsonaro chamou atenção em uma postagem na rede social de uma foto antiga em que o ex presidente Lula e o então Ministro da Defesa Celso Amorim assistem uma performance com um beijo gay. “Isso diante de um sorridente e serelepe ex-ministro da Defesa. Ex-chefe do Exército, da Marinha e da Aeronáutica”, afirmou Carlos Bolsonaro, vereador no Rio de Janeiro (Patriotas), em seu Twitter.

Não demorou muito e o ex deputado federal Jean Wyllys (Psol RJ) respondeu a postagem em seu Twitter: “Já disse: A homofobia segue sendo um dos principais combustíveis da desinformação (fake news, distorções e mentiras) perpetrada pelo “gabinete do ódio” não apenas porque ela um mal ubíquo na sociedade brasileira, mas principalmente porque Carluxo é sexualmente enrustido”.

Não é a primeira vez que Jean afirma que Carlos Bolsora é gay. Em 2019, em defesa do jornalista Glenn Greenwald, esposo do deputado David Miranda (que substituiu Jean no Congresso Nacional depois que Jean pediu afastamento de seu mandato por conta de ameaças que vinha recebendo), também afirmou que “Carluxo” seria homossexual. “O filho do presidente que é bicha presa no armário devido à vergonha de sua homossexualidade e, por isso mesmo, homofóbico, ressentido e mau tem verdadeira obsessão por mim. Aliás, o pai também”, afirmou Jean na época. Um pouco pesado.

Ora, é notória a homofobia da família Bolsonaro mas isso justifica Jean retirar alguém de um suposto armário? Bem, se houvesse prova concreta, não haveria problema mas o que se vê é tentar justificar a homofobia como algo apenas de homossexuais egodistônicos. A história já mostrou que há relação entre homofobia e não auto aceitação mas, sem provas, seria justificar que a homofobia vem da própria suposta sexualidade do vereador.Não é tão simples assim.

E por que é errado fazer isso? Há o senso comum de dizer que uma mulher nervosa está naqueles dias ou lhe falta sexo. É outro preconceito disseminado, assim como o de que a homofobia vem apenas de pessoas que não lidam bem com sua sexualidade.

É igualmente simplista e perigoso afirmar que a a homofobia parte dos próprios homossexuais. Ainda, que a sexualidade é foro aberto. A mesma relação serve: estaria fixação de Wyllys relacionada a sua insegurança sexual? Não, a raiz da homofobia não está na sexualidade mas na construção social e histórica da homofobia.

Hoje, sabemos que a sexualidade humana não se restringe apenas a homo, bi e hétero. Ainda, que a identidade de gênero e a auto identificação são direitos. Apressar e dizer que alguém é algo, fere a noção de que cada pessoa tem uma vivência e sexualidade própria, e essa deve permanecer no campo privado, se assim ela desejar. Ainda, justificar a homofobia com a própria sexualidade parece querer usar do fato da pessoa ser gay para desqualificá-la. Se reclama das fake news homofóbicas do ser, como uma fake news sobre sua sexualidade pode ser justificada?

Ser gay é uma identidade e a auto aceitação é, muitas vezes, um processo doloroso e longo. Fazer sexo com pessoas do mesmo sexo não torna ninguém gay. A homossexualidade é parte da experiência ou possibilidade da vivência de todas as pessoas. Tão natural quanto a heterossexualidade. Alguns não entendem assim, mas o livre arbítrio é fato.

Apesar dos dois marmanjos tratarem o tema desta forma, sempre é bom lembrar o impacto entre jovens e crianças. “Brincadeiras” como atribuir a homossexualidade a alguém como forma de depreciar o outro em uma discussão é algo antigo. O bullying por ser homossexual em ambientes familiar, do trabalho e escolares trazem danos reais a pessoas vítimas de violência homofóbica verbal. O processo de auto aceitação não pode ser apressado e cada um tem seu tempo. A negação faz parte do processso, muitas vezes, mas não é regra.

Por fim, acredito que usar a sexualidade de alguém como forma de argumento de debate contra a homofobia, acredito eu, é naturalizar o preconceito. Uma coisa é, por exemplo, uma pintura de Putin de drag queen, outra, é afirmar, sem provas que alguém é maldoso por ser enrustido. Por mais que o deputado esteja em suspeição de ser homossexual, o respeito exigido é o respeito dado. Há uma linha que separa o certo do errado. A vítima, do algoz. Não podemos reproduzir violências por mais violentados que estejamos.

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