Reunião da família Esquilo

Autor: Maven

Na reunião anual da família Esquilo, o esquilinho olhava os irmãos e primos comerem as nozes com gosto. Olhava para a mesa dos adultos (porque na família do esquilinho todos eram conservadores, e as crianças tinham sua mesa separada dos assuntos dos adultos) e via o pai, a mãe, o avô, a vovó, os tios, as tias e mais uns parentes distantes e uns chegados, todos deliciando-se com as nozes apetitosas que o convescote merecia. Mas o pobre esquilo não gostava de nozes. Mas as engolia mesmo assim, fingindo adorar, porque se o pai desconfiasse que ele detestava nozes teria logo um bafafá. Mas eis que então, começou a ponderar... teria ele que passar o resto da vida comendo nozes? E se quando ele não estivesse comendo nozes, e sim as coisas que gostava, alguém o pegasse com a boca na botija? Ele precisava dar voz à sua vontade! Então no ápice da ceia, o esquilo não quis comer o bolo de nozes. Todos estranharam. Então o esquilinho resolveu confessar:

_Eu não gosto de nozes!
 
_Como não? - perguntaram os primos, embasbacados pela revelação.
 
_Ha, ha, ha - riu a mãe esquila, achando que essa era mais uma das peças que seu filho pregava - essa foi boa filho! Agora pega um pedacinho e come, porque tá uma delícia!

_Não quero! É de nozes, e eu não gosto de nozes!

_Mas... você é um esquilo... - disse o avô, olhando por cima dos óculos de grossas lentes - todo esquilo gosta de nozes.

_Nem todo! Eu não gosto, e estou farto de fingir gostar!

_Mas filho, nozes fazem bem para você. Olhe, eu cresci comendo nozes! Não quer crescer como eu? - indagou o pai, decepcionado com a aversão que o filho sentia pelas nozes que ele tanto amava.

_Pai, eu não quero crescer comendo nozes sem gostar delas. Mesmo agora, se eu concordar em comê-las, vocês ficarão satisfeitos, mas eu vou continuar não gostando, e eu vou crescer infeliz, só porque isso os satisfaz!

_Okay! - disse a tia - então o que você gosta de comer?

_Eu amo baguetes e adoro comer rosquinhas! (nessa hora a avó desmaiou)

Enquanto a acudiam, um dos primos gritava de dedo em riste:

_Olha o que fez com a vovó só porque você tem esse gosto bizarro!

_Oras! Você fique quieto - indignou-se o esquilo - que moral você tem? Por acaso não lembra que você me ofereceu rosquinha quando éramos menores? E você pensa que eu não sei que você se delicia escondido com um baguete sempre que pode? (o primo ficou branco, enquanto a tia vinha aplicar-lhe o corretivo com a cinta de fibra de palmeira, que era a coqueluche do momento na floresta).

Mesmo com o primo apanhando e a avó desmaiada, o esquilinho continuou a falar:

_Eu, a partir de agora, declaro: chega de nozes para mim! Vou me nutrir de baguetes e rosquinhas açucaradas, que é do que eu gosto e ponto final!

_Ponto final digo eu! - Bradou o pai, dando um murro na sólida madeira da mesa - Se você vai me dar esse desgosto, eu prefiro que saia dessa casa! Filho meu não come outra coisa que não seja nozes!

_Querido - disse a esposa, tentando apaziguar a cólera do marido - não precisa agir assim... Talvez seja só uma fase. Talvez ele queira comer coisas diferentes, mas eu tenho certeza que ele vai perceber que nozes é o melhor para ele!

_Não mãe! Eu tenho certeza! Eu sou um esquilo que não gosta de nozes!

_Mas isso é caso para psicólogo - opinou o tio, que sempre se fingiu de surdo, berrando do banheiro dos fundos, mostrando a todos que audição melhor que a dele era impossível de existir.
 
_Eu sou normal - protestou o jovem esquilo - só porque eu não gosto do que vocês gostam eu mereço ser crucificado?

_Talvez a Rita dê um jeito! - disse a cunhada do pai.

_Quem é Rita? - ele quis saber.

_É a galinha preta. Dizem que ela entende de macumba. Talvez ele esteja com um encosto...

_Pode ser - concordou a mãe - porque não é normal esse desvio de gosto num esquilo! Onde já se viu? - e balançava a cabeça choramingando - baguetes... rosquinhas...

_Pois eu acho que o menino deve comer o que ele quiser! - disse um dos irmãos.

_Você não se meta! - gralhou o pai.

E enquanto os pais tentavam disfarçar o embaraço perante a família, o esquilinho saiu pela porta e foi andando feliz da vida, cantarolando, ouvindo ao longe os pais se indagarem: onde foi que nós erramos?.

Para ele não havia erro, não havia ninguém a culpar, para ele não havia nada, além da imensa alegria em saber que agora poderia comer os baguetes e rosquinhas que tanto amava!

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