Quando um sorriso mata

Há pouquíssimo tempo, Junior decidiu descobrir a noite das baladas gays. Foi andando por entre ruas e avenidas, descobrindo um novo mundo. Não era um novato, mas um curioso procurando seu novo rumo. Queria encantar-se com novas amizades e até mesmo aventurar-se por sentimentos inusitados, provavelmente, recheados de prazer. Se perguntado, com certeza, não conseguiria descrever o que realmente procurava ou se poderia ser considerado um aventureiro.

Subiu a Alameda Cabral e passou despercebido por entre travestis e cafetões. Achou engraçado ver tão pouca roupa e tantos corpos expostos e ele vestido da cabeça aos pés; Seus amigos já o haviam avisado de que ver pessoas semi-nuas nas baladas era comum; Sua mente comparou com o que via naquela rua e riu-se por dentro. Havia algo em comum, com certeza.

Procurou pelo número do lugar, que havia anotado em um pequeno rascunho e olhando por entre garagens e portões, encontrou o barzinho. Muitos se aglomeravam do lado de fora, e outros se inclinavam pelas grades internas, analisando todos os passantes. Ouviu algumas frases soltas e tantas palavras perdidas; Nada daquilo lhe interessou. Decidiu enfrentar a fila que se formava na porta. Foi calmamente se posicionando e passou a observar mais atentamente cada um dos outros participantes daquele ritual de entrada, como se fosse um novo membro de uma gangue, aguardando ser aceito pelos comandantes do grupo. Já na fila observou um garoto loiro que o espreitava; Analisou seus olhos e sua boca e tudo estava em perfeita harmonia. Quando, por mais de uma vez, seus olhares se cruzaram ele percebeu uma sintonia de pensamentos. Decidiu então estreitar o contato visual e abriu um lindo sorriso, demonstrando interesse. No mesmo instante, como se tratasse de uma máquina agindo automaticamente a um comando, o garoto de cabelos dourados virou o rosto e manteve-se inerte a situação, inclinando-se para dois amigos ao seu lado e balbuciando algumas frases entrecortadas. Junior abaixou os olhos e se manteve quieto.

Ao entrar, começou a analisar cada canto daquele ambiente novo que adentrara e, como um descobridor de novas terras, foi avaliando o público e seus modos, do garçom ao cara bêbado encostado no bar; Era como subir o monte Pentélico e encontrar os gregos rústicos e seus costumes distintos. Por vezes, mostrava seu sorriso mas apenas recebia descaso. Foi para casa naquela noite com outro semblante. Andou cabisbaixo pelos becos e sentiu em sua alma o frio gélido de uma madrugada de inverno na capital paranaense. Chegou ao prédio onde morava e ao ser cumprimentado pelo porteiro, que lhe abriu um grande sorriso de boas vindas como de costume, virou as costas em direção ao elevador e ignorou aquele gesto de amizade.




Comentários

Os gregos eram rústicos, mas definitivamente não enrustidos, uehueheuehue. Já leste Fedro de Platão?

A carapuça serviu direitinho. E é só em Curitiba mesmo que isso acontece, nas baladas de fora todo mundo se anima,se junta e se diverte, só aqui mesmo que ninguém quer dar o braço a torcer e fazendo carão a noite interia...

Comentar

Conteúdo relacionado