Chão de fábrica

Passos leves, soltos, minha mente fervilhando em idéias, uma praia paradisíaca, o calçadão de Ipanema repleto de belos músculos: era verão; criava coragem para atravessar uma daquelas ruas transversais e rumar à sauna da qual ouvi comentários, diziam lotar durante os dias mais quentes do ano (lotar, mas não de clientes – vai e vem frenético de michês) finalmente encontraria um típico carioca sem a costumeira inquietação esnobe das seletas baladas da Zona Sul. Exemplar quente libidinoso daquela cidade ensolarada, precisava desse típico homem bem ao estilo do qual minha mente fantasiara. Havia escolhido as saunas por conta do calor e das toalhas; esses últimos acessórios facilmente removíveis. Uma exposição maior e de contato mais fácil.

Rumei de encontro aos meus desejos – fonte natural do prazer da espécie humana – habitados logo além das escadarias à minha frente; estava à porta daquele estabelecimento onde se vendiam corpos. Os hábitos me impediam de buscar um lugar assim, tão libertador, carregado por prazeres inigualáveis ou talvez por desilusão; maior era meu curioso sentimento de necessidade. Precisava encontrar o calor de braços fortes, mulatos, malandros, insaciáveis, resumindo: um carioca como sempre sonhei. Ânsia enorme por realização que nem havia percebido quão cedo chegara. O local estava fechado. Quase voltando para rua, descendo as escadas, encontrei outro perdido no tempo: “Ainda não abriram?”.

“Podemos esmurrar a porta, quem sabe atendam.” – Um sorriso espontâneo nos tomou; conversamos por horas, sentados no início da escadaria. Amizade fresquinha, cheia de novidades, carregada até por um momento nostálgico de lembranças compartilhadas em um ideal: procurávamos a mesma satisfação, apenas por rumos distintos, ele também queria encontrar um rústico exemplar da cidade maravilhosa...
Eu me contentaria com o pagamento dos serviços enquanto meu novo amigo precisava da naturalidade de um encontro casual. Um paulista sonhador, buscando encantar-se em contraste ao sólido realismo de sua vida, tal qual Picasso frente ao visceral encantamento das máscaras africanas encontrou fonte poética para seu cubismo; somos movidos pelos contrastes em busca das formas perfeitas. Mal sabia do tipo de freqüência daquele lugar, preferi não estragar-lhe a surpresa fingindo concordar plenamente com suas idéias: demonstrou em palavras ser totalmente contra michês.

Tínhamos muitos outros assuntos em comum e conversando tanto perdemos noção do tempo; a sauna já estava aberta nos aguardando. Antes de entrar percebemos uma falha de comunicação; nem sabíamos o nome um do outro: “Pedro” – entre uma bela gargalhada ele me respondeu sorrindo – “Prazer chará”. Dois nomes iguais, mas com objetivos diferentes, um pouco de diversidade, bem do que nosso povo e seus governantes precisam.

Lá dentro tentei disfarçar meu encantamento enquanto o amigo das escadas estava apavorado com aquele monte de homens esculturais portando apenas uma minúscula toalha azul – engraçado, apesar de sua repulsa, sabia exatamente como identificar um garoto de programa. Seus empolgados, inflamados, discursos éticos sobre a prostituição me cansavam gradualmente; o preconceito velado também é oriundo da instituição da sociedade, até mesmo os defensores da liberdade brasileira não o podem negar.

Decidi me afastar; precisava acertar valores. Fui examinando corpo a corpo, apalpando conforme permitiam, medindo, esquadrinhando cada curva; ainda olhei uma última vez a fim de verificar o sumiço do outro Pedro. Devia ter engolido da própria saliva e vazado pra bem longe (minha paz merecida) permitindo minha exploração em meio ao vapor sufocante do lugar.

*****

Um paulista perdido no mundo carioca, minha descrição perfeita daquele momento, motivo genérico de piada; perguntava-me onde estava aquele garoto curitibano também desorientado. Sumira de repente. Precisava ser alertado dos perigos que o cercavam – imaginei quão sombrio seria seu desencantamento em sua primeira visita àquela cidade – era meu dever protegê-lo. Saí do meu esconderijo isolado num canto do bar, vasculhei o ambiente com meus olhos, não foi difícil encontrá-lo: apalpava um garoto mulato que lhe cochichava algo. Escondido, atrás de uma coluna estratégica, observei a cena, pensei em correr ajudá-lo, mas o desgraçado sabia exatamente o que fazia: foram para o caixa onde receberam um pequeno papel, a partir de então permaneceram estáticos em frente ao sutil painel eletrônico na entrada dos quartos, esperaram chamarem sua senha. Nojo foi meu sentimento mais forte. Inveja, talvez, por não ter a mesma coragem, era um sentimento secundário igualmente destrutivo.

*****

O número trinta e dois piscou no painel acompanhado de uma pequena sineta eletrônica irritante; talvez essa inquietação viesse por ouvi-la constantemente no meu oficio diário ou do nervosismo precedente a conclusão de meu trabalho. Precisava me livrar logo do cliente naquele dia comprido... Estava muito fatigado. Já passava de três coitados, bem comidos (tentava sempre fazer meu melhor); mesmo sem o devido reconhecimento. Será que sabemos o que é o melhor pra cada um dos seres que dividem essa terra conosco? Geralmente nem sei o que é melhor pra mim. Finalmente o trinta e cinco apareceu no visor, sorri para o garoto, – parecia tão alegre por aquele momento! Não queria decepcioná-lo – levei-o pela mão até nosso quarto temporário; ao entrar nem reparou na imundice do lugar...

Busquei estremecer seu corpo em cada instante, fui malandro, safado, vendia exatamente o personagem como todos visitantes daquela cidade sonhavam, era o típico malandro morador dos arcos da Lapa. Cada nova investida de meu corpo suas pernas enrijeciam...
Havia me empolgado demais: o sangue escorreu por seus pêlos atravessando seu corpo; uma poça formou-se no chão. Estávamos de pé não o deixei deitar naquele lençol putrefato. Indolor, ainda me indagou: “Já gozou?”.

*****

Não consegui entender aquela atitude insensata, provavelmente mantinha o gozo para a última foda. Pensei em oferecer mais pelo serviço; desisti ao ver meu sangue perdido entre minhas coxas cambaleantes. Senti então o desconforto da dor ao mesmo tempo em que, confortavelmente, apoiava-me em seus braços: “Caramba! Isso foi uma grande lembrança pra levar de um carioca de verdade” ele sorriu negando “Não, eu sou sulista, de Curitiba”. Foi impossível conter meu espanto e posterior gargalhada: o carioca típico era meu conterrâneo.

 




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