It´s not right but it´s ok

De acordo com uma conceituada revista americana de psiquiatria, jovens LGBT apresentam um risco maior de apresentarem transtornos mentais e comportamento sexual de risco do que o grupo HT correspondente. O que eu me questiono, como psiquiatra e como cidadão, é o motivo disso, para pensar na possibilidade de se reverter as estatísticas.

Hoje, reconhece-se, na psiquiatria, que a maioria dos transtornos mentais são decorrentes de uma diátese orgânica (base genética, lesões orgânicas...) combinada a fatores ambientais. Como não existe na literatura científica qualquer relação entre a base orgânica da homossexualidade com a susceptibilidade orgânica a transtornos psiquiátricos, penso que o ambiente deva exercer um peso considerável na diferença entre os jovens LGBT e HT nos quesitos que a pesquisa americana encontrou.

A adolescência não é um período fácil para qualquer um. Não preciso dizer para você, leitor da Revista Lado A, o quanto o fato de se descobrir LGBT pode ser um fator estressor importante. Não bastasse a dificuldade pessoal para se aceitar, muitos ainda precisam enfrentar pressão da família, de amigos, do trabalho, “bullies” (“valentões” que abusam dos mais fracos) e outros problemas. Não é difícil se fazer a correlação disso com transtornos depressivos ou outros.

O que não me deixa satisfeito, nessas explicações, é que elas nos fazem parecer vítimas indefesas contra um meio ameaçador. Acredito que, a partir do momento em que uma pessoa aceita o papel de vítima, ela está perdida, porque o Mr. Big só para de enrolar a Carrie e casa com ela em filme mesmo...

Acredito, por outro lado, que a autocomiseração (sentir pena de si mesmo) seja uma maneira de pensar que realmente nos coloque em risco. Primeiro, porque ela é autorecompensadora (choramos por dias no quarto ouvindo Whitney, nos sentimos no direito de tomar litros de sorvete, os amigos nos ouvem, nos dão colo...), o que gera perpetuação do comportamento. Segundo, porque ela não permite com que nos vejamos como protagonistas de nossa própria história (mocinha indefesa que é salva pelo Richard Gere que chega de limusine é tão anos 80)! Terceiro porque “coitadinho”, sofreu tanto e é por isso que apresenta comportamento sexual de risco pode explicar o fenômeno, mas não o justifica.

O que eu vejo como necessário para reverter o quadro retratado pela pesquisa americana, portanto, é ajudar os jovens LGBT retomarem seus papéis de protagonistas. O meio em que vivemos está aí (precisamos lutar para mudá-lo, mas por enquanto, aquele tio chato vai continuar perguntando quando é que o menino vai levar uma namorada pra casa), então busquem/ofereçam apoio. Não me refiro a ombro, mas realmente a um apoio que instrumentalize a crescer, a se desenvolver e a lutar.

* Médico Psiquiatra . Terapeuta Cognitivo-Comportamental

Categoria: 




Comentários

O Gustavo realmente é um excelente profissional e essa coluna será, sem dúvidas, um grande sucesso! O texto está muito interessante, realista e bem escrito. Bom saber que os psiquiatras escrevem tão bem quanto os jornalistas...rs Abraços!

O problema da ciência americana é que continuam tomando como biológico aspectos comportamentais, que são puros efeitos da cultura. Deste precedente sai teorias das mais absurdas, como do gene gay ou que homem trair é do gênero para passar gens à frente. Somos seres de cultura assim como os chamados bullies, mas não meros produtos do meio. Seja o que for, seja: assuma a sua vida!

Parabéns pela matéria. É tudo o que estou passando neste momento de minha vida. Faço psicoterapia há sete meses e estamos focando minha sexualidade, no momento. Tomo medicação controlada (Cymbalta) para controlar minha ansiedade e a síndrome do pânico que adquiri em 2008. Sei que a melhora de nossos problemas depende muito da gente. Confio em Deus e aguardo um futuro melhor a todos os GLBT.

O Gustavo realmente é um excelente profissional e essa coluna será, sem dúvidas, um grande sucesso! O texto está muito interessante, realista e bem escrito. Bom saber que os psiquiatras escrevem tão bem quanto os jornalistas...rs Abraços!

O problema da ciência americana é que continuam tomando como biológico aspectos comportamentais, que são puros efeitos da cultura. Deste precedente sai teorias das mais absurdas, como do gene gay ou que homem trair é do gênero para passar gens à frente. Somos seres de cultura assim como os chamados bullies, mas não meros produtos do meio. Seja o que for, seja: assuma a sua vida!

Parabéns pela matéria. É tudo o que estou passando neste momento de minha vida. Faço psicoterapia há sete meses e estamos focando minha sexualidade, no momento. Tomo medicação controlada (Cymbalta) para controlar minha ansiedade e a síndrome do pânico que adquiri em 2008. Sei que a melhora de nossos problemas depende muito da gente. Confio em Deus e aguardo um futuro melhor a todos os GLBT.

Comentar