Perfume feminino

Sacada.
“Ela sempre cheirava meu pescoço ao me abraçar”
“Por quê?”
“Tentava identificar algum perfume feminino que não fosse o meu”
“Sua mãe era neurótica”
“E continua sendo...”

Mantiveram silêncio por algum tempo, enquanto tragavam, de tempos em tempos, seus cigarros. Uma delas saía quando foi puxada e beijada levemente: “Obrigada Débora...” sorrindo em resposta pelas palavras e pelo toque labial ganho “Que sorte a sua, tem uma namorada e enfermeira de plantão!”.

Entrou pelo quarto. Verificou alguns equipamentos improvisados, próximos a uma senhora deitada, debilitada e de olhos rasos.

“Porque cê não larga minha filha?” disse a paciente que descansava em sua cama adaptada. “Estávamos falando da senhora agora mesmo”, respondeu aquela cuidadora com sorriso entre lábios secos pelo frio. “De qualquer forma cê deveria cobrá-la por seus serviços...” falou tossindo levemente pra garantir uma voz firme e clara para ser entendida por completo enquanto a menina lhe retrucava: “Somos parentes, lembra? Eu nunca cobraria pra cuidar da minha sogrinha”; seguiu-se o segundo momento de silêncio dessa história.

Por ser estudante e bancada pelo pai, Carol, a enfermeira, realmente não precisava de auxilio financeiro pelo seu esforço de algumas horas do dia para cuidar duma paciente tão especial para si; Sabia que sua namorada havia tirado a mãe do hospital bem antes da hora por conta de custos muito elevados. Imaginava ser injusto cobrar qualquer quantia.

“Volta mais tarde, por favor” pediu aquela mulher doente com voz suplicante. Carol se sentiu tentada a atender aquele pedido, contudo tinha compromissos “Eu tenho aula da pós, e é importante”. Ainda precisou resistir a um último apelo: “Por favor, venha me fazer companhia!”.

Saiu preocupada com aquele pedido, mas precisava se dedicar, era formanda. Vagou entre pensamentos, imaginou lendas urbanas onde alguém em eminente sentimento de aproximação da morte pede por um último alento, um último carinho. Sua cabeça maquinava, constantemente, essa ideia do fim.

Faculdade.
Foi impossível se concentrar, sequer conseguia olhar pros slides com figuras humanas, órgãos que pareciam desconexos para sua mente dispersa. Na primeira oportunidade fingiu atender uma emergência no celular e sem muitos detalhes apresentados a professora, saiu fugida.

Abriu a porta de serviço e entrou naquele apartamento. Novo silêncio, o derradeiro dessa narrativa. Nem ela sabia bem o porquê tentava tanto manter segredo de sua presença, todavia pressentia a necessidade desse comportamento. Andou devagar, em passos calmos, chegou ao quarto. “Vim lhe fazer companhia”. Olhos atentos encararam Carol. Dedos nervosos pediram pra que não fizesse barulho “Vá ao quarto de minha filha e veja o que ela esconde de ti”.

Corredor.
Fiquei tão preocupada, naquela noite, por tão doce menina sendo enganada. Senti-me culpada, num primeiro momento, sendo a progenitora de um ser maléfico que traia Carol de forma tão despudorada. Nem respeitava o ambiente onde aquela enfermeira dedicada cuidava da minha saúde como se eu fosse sua própria mãe.

Só minha consternação restou quando demorados mais de trinta minutos sem qualquer reação decidi ir até elas e tentar intervir na situação, minha curiosidade aguçada me fez levantar da cama, mesmo com muito esforço e espiar pela porta do quarto de minha filha, quem dera fosse apenas uma fresta, mas a passagem estava escancarada e permitia ver as três se fundindo em um só corpo, em uma só carne.




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