Você conhece a Gilda da Rua XV?

Assista o documentário Beijo na Boca Maldita (2008), de Yanko Del Pino:

 


Abaixo, confira o texto Gilda da Rua XV*

*Trecho inédito do Livro O Gay Curitibano de Allan Johan (TCC Jornalismo UTP 2007)

Na famosa Rua das Flores, mais precisamente na Boca Maldita, palco de manifestações populares e de encontro dos intelectuais da cidade, vivia desde os anos 70 uma figura mitológica que atendia pelo nome de Gilda. Se você já ouviu falar nas mulheres barbadas que figuravam o imaginário popular dos circos mambembes, bem, poderia ser Gilda uma delas. Ele, ou ela, era na verdade Rubens Aparecido Rinke, que atendia pelo nome de Gilda e se dizia travesti, e era uma figura popular de Curitiba até o ano de 1983, quando foi encontrada morta em um casarão abandonado.

Não se sabe ao certo quando chegou, mas no inverno que nevou na cidade, em 1975, ela já estava lá, dizem que abandonou um circo e ficou na cidade. Com o passar dos anos, a alegria se transformou em melancolia, mas Gilda fez graça até o fim. Animava todos os anos o Carnaval de rua da cidade, desfilando a frente da Banda Polaca e fazendo brincadeiras com os transeuntes que passavam por lá. “Cinco cruzeiros ou um beijo”, dizia ela, que tascava a boca em quem não lhe ajudasse. Dizia-se o primeiro gay assumido de Curitiba, mas a comunidade homossexual da cidade não a considerava assim. Era moreno, com muitos pêlos pelo corpo e barba quase sempre para fazer. Dinheiro nunca faltava, graças a generosidade alheia e às suas táticas de terrorismo inocentes. Volta e meia, ainda conseguia um troco para dar um beijo sob encomenda.

Conta a lenda que certa vez um office boy foi abordado por Gilda e, com medo, deu-lhe os 10 mil cruzeiros que possuía. Feliz, ela tascou-lhe um beijo, de agradecimento, como frisou. Também não fugiram de sua boca jovens que depois se tornaram deputados e senadores. O até pouco tempo presidente da Câmara Municipal de Curitiba, Francisco Derosso, foi mais um dos que ela beijou. Gilda espalhava alegria e carinho, embora recebesse em troca olhares hostis que a acompanharam até depois da morte. Sofreu dois atentados que quase lhe custaram a vida. Em um deles, Gilda foi enforcada por outro morador de rua. No outro, recebeu duas facadas no abdômen que infeccionaram e quase levaram Gilda antes da hora.

A ‘travesti’ como era chamada na época, era na verdade um híbrido de personalidade excêntrica e morador de rua. Gostava de beber e de curtir a vida sem pretensão dos que escolhem as vias públicas como lar. Cultuava a liberdade e a cidade com suas criações que iam de vestimentas feitas com bandejas coloridas, jargões, até vestidos adaptados, ou mesmo inteiros, ganhos de amigos ou confeccionados pela própria.

No Carnaval de 1981, veio a grande traição que já dava sinais de que Gilda seria eterna. Ela foi presa às vésperas do Carnaval, sob pretexto de que precisava passar por um atendimento hospitalar. As pessoas foram as ruas exigir a presença da figura mais esperada no Carnaval todos os anos. Mas a Banda Polaca saiu sem Gilda naquele ano. Depois, ficou aquele clima de complô na cidade e muitos dizem que impediram Gilda de desfilar por preconceito. Outra lenda urbana que se formou com seu nome era que ela seria de uma família rica, que o pai seria um político conhecido da época.

Gilda foi encontrada morta em 15 de março de 1983 em um casarão abandonado à Rua Desembargador Motta, número 2290. Depois daquele ano, o Carnaval da cidade nunca mais seria o mesmo. Morta, em estado avançado de putrefação devido à meningite purulenta que lhe consumiu as últimas gotas de alegria, Gilda foi para o IML e a notícia correu a cidade.

Curitiba parou para homenagear a figura que por mais de uma década fazia parte do cenário da Rua XV. Uma vigília, uma série de flores e presentes foram colocados próximos ao local onde todos os dias Gilda cumprimentava os pedestres. Mas o Instituto Médico Legal não quis liberar o corpo sem que um parente fizesse a identificação com a devida documentação do morto. Criou-se um drama na cidade pois ninguém conhecia a origem verdadeira da figura mais popular, que chegava a ter uma cadeira cativa no teatro Guaíra, para quando quisesse “aparecer” - mais uma lenda lançada por ela.

Um grupo de amigos providenciou uma placa afixada em um dos obeliscos da Boca Maldita, o que travou um guerra com Anfrísio Siqueira, criador da Ordem dos cavaleiros da Boca Maldita, que não via com bons olhos as peripécias de Gilda em seu auto-intitulado território. Siqueira, meses depois, deu cabo da tal homenagem, mas terá que se conformar, in memorium, a ser lembrado sempre como sombra da travesti mais famosa da cidade.

Três dias após dada como morta, Gilda foi enterrada em um caixão lacrado, devido ao vírus mortal. Uma multidão conduziu o corpo de Gilda até o cemitério do Bom Retiro, ao jazido da travesti Márcia, que doou uma vaga para a colega. Uma verdadeira multidão de curiosos e admiradores de Gilda foram dar o último adeus e prestar as últimas homenagens. De imediato, seus amigos do restaurante Bife Sujo e o teatrólogo Celso Filho, pioneiro na noite gay da cidade, fizeram uma exposição em homenagem à Gilda. O enterro só foi possível depois que um envelope lacrado, remessado da cidade de Ibiporã, cidade do interior do Norte Pioneiro do Estado trazia a certidão de nascimento da falecida, dois dias depois de sua morte. Os pais não quiseram comparecer mas responderam aos pedidos quase que diários na imprensa, de que dessem ao menos um enterro digno à figura que tanto alegrou a cidade.

No ano seguinte de sua morte, o bloco Embaixadores da Alegria pulou o carnaval sem a presença de Gilda mas com um samba enredo em sua homenagem. Gilda virou ainda peça de teatro, documentários e um pequeno livro de imagens feito por amigos com apoio da Fundação Cultural de Curitiba.


Gilda sem nome (1984)

Ai que saudade, que me veio!
Das brincadeiras que Gilda aprontava
50 mangos para beijar certo alguém

Descontraída Gilda ia... e beijava
Beijou doutor... o senador...
Falou de amor; brincou... brincou...

Gilda, o seu bom humor deixou
um oceano de saudade

Gilda, o seu carnaval marcou
por muito tempo a rotina da cidade

Da melindrosa, de princesa oriental
Da avenida faz seu palco natural e
de repente transforma-se o artista

De Carlitos, a vedete ou passista
Ai que saudade
 

Categoria: 




Comentários

Noooosssa, bateu saudade! Quanto cigarro, cerveja, pinga e conversas; o quanto era pessoa boníssima, amiga, cúmplice de quem começava e tinha que se esconder da polícia; o quanto companheira de infortúnio de muita "tia" velha que ficava no Avenida ou no Ópera, jogada num canto porquê na XV era território da Boca. O Kraide até que tentou colocá-la no Rock Horror, no Teatro do SESI, mas ela só compareceu como "convidada", porquê tinha "horror" de cerco à sua liberdade. Saudosa "Gilda", marco de uma época. Foi uma honra tê-l@ conhecido. Obrigado, Allan, pela homenagem. O texto é lindo.

Engraçado ... tenho recordações de Gilda ainda adolescente, muito embora não a tenha conhecido pessoalmente. Era um tipo de celebridade aqui em Curitiba e lembro que a morte dele/dela !? foi bastante divulgada na época. Temido por uns, admirado por outros, Gilda tinha fama de porrada: " - tipo não leva desaforo para casa". Dizem que era forte, e que pegava os "bofes" a força. Devia ser algo realmente engraçado presenciar a Gilda agarrando esses sujeitos escroques e metidos a besta que ainda pululam a Boca Maldita. Gilda era um acinte a esse pseudomoralimo que infesta a nossa sociedade. Morreu doente e em depressão. Faz falta ... que Deus a tenha ...

Noooosssa, bateu saudade! Quanto cigarro, cerveja, pinga e conversas; o quanto era pessoa boníssima, amiga, cúmplice de quem começava e tinha que se esconder da polícia; o quanto companheira de infortúnio de muita "tia" velha que ficava no Avenida ou no Ópera, jogada num canto porquê na XV era território da Boca. O Kraide até que tentou colocá-la no Rock Horror, no Teatro do SESI, mas ela só compareceu como "convidada", porquê tinha "horror" de cerco à sua liberdade. Saudosa "Gilda", marco de uma época. Foi uma honra tê-l@ conhecido. Obrigado, Allan, pela homenagem. O texto é lindo.

Engraçado ... tenho recordações de Gilda ainda adolescente, muito embora não a tenha conhecido pessoalmente. Era um tipo de celebridade aqui em Curitiba e lembro que a morte dele/dela !? foi bastante divulgada na época. Temido por uns, admirado por outros, Gilda tinha fama de porrada: " - tipo não leva desaforo para casa". Dizem que era forte, e que pegava os "bofes" a força. Devia ser algo realmente engraçado presenciar a Gilda agarrando esses sujeitos escroques e metidos a besta que ainda pululam a Boca Maldita. Gilda era um acinte a esse pseudomoralimo que infesta a nossa sociedade. Morreu doente e em depressão. Faz falta ... que Deus a tenha ...

Rodrigo,muito bons seus

Rodrigo,muito bons seus comente1rios, o que nos leva a aorfpundar o assunto.Digamos, que a geste3o de conhecimento vem justamente da estreiteza das pessoas por gerenciar a informae7e3o.Como os gestores da informae7e3o deixaram as pessoas de lado, resolveram criar outro nome e outra e1rea para esbarrar no mesmo muro.Que e9 um problema conceitual be1sico do que afinal e9 informae7e3o e conhecimento, por isso fiz aquele texto da batata. (Ver no blog)Para que um processo informacional ocorra e9 preciso lidar com pessoas, pois sf3 existe informae7e3o e conhecimento em relae7e3o, todo o resto e9 vazio.Ne3o e9 por mal que fomos estreitando essa vise3o.Compreender que qualquer projeto, pequeno ou grande, depende exclusivamente de pessoas e9 algo difedcil de lidar, pois o ser humano e9 no nosso planeta o ser mais complexo que existe.Cada pessoa permite mil variantes, humores, situae7f5es, condicionamentos, etc .Um setor especedfico e deslocado de sua verdadeira fune7e3o, acaba ne3o tendo fore7a para lidar com esse ambiente propedcio e cai para o te9cnico, o pobre, o vazio por falta de pernas e e0s vezes, por falta de vise3o conceitual do problema.Viram bibliotece1rios, arquivistas, quando deveriam zelar tambe9m pelo ambiente, pois se ningue9m vai e0 biblioteca por falta de motivae7e3o, a biblioteca e9 apenas um lugar para se relaxar, curtir o sileancio e tomar um banho de ar condicionado. Ou seja, quando se fala em informae7e3o e conhecimento, para coisas concretas e9 assim uma forma de reduzir a dificuldade do problema, deixando o principal de lado.O problema, portanto, me parece, antes de tudo, conceitual. Castells no texto The Network Society fala um pouco disso ao afirmar que ne3o vivemos na sociedade do conhecimento mas em mais uma e avisa que teremos problemas se9rios, em fune7e3o desse erro tef3rico. Concordo.Ao criarmos na empresa setores de informae7e3o ou de conhecimento estanques e isolados nos tirou o poder e a possibilidade de perceber que basicamente o que deve se trabalhar e9 o ambiente informacional, antes de tudo, que, na verdade, e9 o prf3prio ambiente da empresa que vai permitir que tudo isso acontee7a.Uma empresa que trabalha sob chicote, tere1 pouco espae7o, por exemplo, para a criatividade, curiosidade, tre2nsito de informae7e3o, e o que fare3o os nossos gestores???Claro, que a parte te9cnica da organizae7e3o dos registros e9 fundamental para dar suporte a esse movimento, mas ne3o pode ser reducionaista, como e9 hoje Podemos optar assim pela geste3o do ambiente do conhecimento, geste3o do sistema de conhecimento geste3o do ambiente informacional, o que me agradaria mais e ficaria mais coerente com o que estamos falando.Note que o ambiente e9 algo intangedvel, mas no todo pode ser gerenciado, pois e9 formado por coisas concretas que existem e se relacionam.Volto a dizer o conhecimento e9 relacional e potencialmente possedvel, dependendo do ambiente que se cria.Se vamos chamar geste3o do conhecimento para reduzir o nome, um apelido, tudo certo, mas sob o risco das interpretae7f5es que acabam acontecendo Muita gente que trabalha com GC, na verdade, je1 encara o projeto dessa forma, entende que deve ser um esfore7o coletivo, que trabalha diretamente com o poder central e que deve ser formada por basicamente diversos perfis.Nem sempre uma e1rea, que cria uma burocracia, mas um grupo permanente de trabalho, por exemplo.Ou seja, manter o ambiente da empresa para que ele possibilite a inovae7e3o e a criatividade.Como falar em algo assim sem o RH, TI, as e1reas especedficas, pessoal de informae7e3o, trabalhando de forma integrada ???Podemos, se quisermos, em falar de metas desse grupo, por exemplo, em promover a geste3o da mudane7a da empresa 1.0 para outra 2.0.E um grupo de trabalho e ne3o um setor formal que todos os departamentos discutiriam o ambiente de conhecimento interno para ser cada vez mais aperfeie7oado.Ao questionar a geste3o do conhecimento esse nome em si, veja, que estamos batalhando contra o reducionismo que acaba ocorrendo, que e9 justamente de sf3 gerenciar o palpe1vel e ne3o o intangedvel, diferente de como vocea entendeu a queste3o.Assim, vou apelar para Espinosa, citado no livro Direito Autoral da antiguidade a Internet de Joe3o Henrique da Rocha Fragoso. A maioria dos erros consiste apenas em que ne3o aplicamos corretamente o nome e0s coisas .Vocea concorda?Grato pela visita.

Gilda...saudades, minha xará.

Gilda...saudades, minha xará...eu estudava no CEP e após as aulas, era nosso ritual sair do colégio e ir até à Praça Osório, todos os dias...lá encontrávamos com a Gilda, muito alegre sempre...mexia com todos que passavam pela Boca Maldita...um dia ela soube meu nome e, sempre que me via, dizia:" Hum, que petulância ter o mesmo nome que eu..." ríamos muito, mas ela nunca nos faltou com o respeito ! Gilda, figura antológica desta minha Curitiba !!

A minha mãe sempre falava das

A minha mãe sempre falava das peripécias dessa Gilda de um jeito carinhoso até e, sempre divertido. E eu era pequeno e ficava tentando entender se o filme Gilda era sobre ela ou o que ela tinha a ver com a Madame Satã. Acho tão legal ter essas personalidades "made in Curitiba", como o Oil Man ou a Maria Bueno.Acho que cria uma certa identidade só nossa.

Comentar

Conteúdo relacionado