Final de Ano: Tempo de Mudanças

Por Alex Spake

Nesta semana joguei tudo para o alto. Sai da empresa em que trabalhava, encerrei minha participação numa outra em que era sócio. Desisti não exatamente daquilo que sonhei, mas daquilo que sonharam para mim.

Fui uma criança precoce: Com oito anos de idade eu era o 4º colocado no ranking paranaense de Xadrez (o 1º entre as escolas públicas) e no mesmo ano figurava entre os cem melhores enxadristas do Brasil. Sou muito bom em lógica e em matemática e, sendo uma criança “prodígio”, fui alimentado com os olhares mais cheios de orgulho e de esperança dos meus pais, meus maiores fãs. Aconselharam-me a fazer uma faculdade que desse dinheiro e que eu pudesse usufruir destes, hum, dotes com melhor proveito.

Aos 18 anos ingressei na faculdade de Ciências Contábeis na FAE e sai de lá aos 22. Adorei a faculdade, achei interessantíssima a matéria em si, diria até desafiadora, mas a prática e o exercício dela me frustraram: o contador ainda é visto como um Mal Del Monde e logo notei que eu poderia fazer aquilo para o resto da minha vida... mas iria ser infeliz. Ainda na faculdade descobri minha paixão em lidar com pessoas, em escrever, na compreender a história e a filosofia, coisas que eram dispares com aquilo que praticava.

Levou um tempo (e algumas consultas de análise) para eu entender que a falta de atenção, a preguiça costumeira e a falta de foco não eram problemas psicológicos, mas sim problemas profissionais. Não se enganem: eu fazia com primor o meu trabalho, mas aquilo me custava muito em energia e em empenho. Ganhava bem, tinha a minha empresa, mas não era feliz, e então veio a pior parte: se decidir por continuar no caminho que estava seguindo infeliz e não realizado, ou então dar um rumo diferente, recomeçar de baixo (não diria do zero, mas de uns passos atrás) em uma direção adversa, e com isso também mudar os sonhos e as expectativas de quem tanto lutou comigo neste tempo, principalmente meus pais.

Antes do feriado tive uma conversa com meu agora ex-chefe, e expus que não iria mais conseguir desempenhar a função que até então eu fazia (mesmo porque já havia um tempo que entrava em atrito com ele por diversos por menores relacionados), fizemos um acordo e fui dispensado na segunda-feira. Ainda antes do feriado falei com meus dois sócios do meu problema e decidi me retirar da sociedade (para evitar que a empresa sofresse com meu desgaste também). A relação de um contador com as empresas que cuida é como à de um professor cuidando de crianças, se ele não esta bem as crianças acabam sentindo isso também, então o melhor é ele se retirar e colocar um substituto, afinal, estamos falando de desenvolvimento e educação, e isso vale tanto para crianças como para empresas.

Quando expus minha decisão para minha família, a aceitação até foi melhor do que eu esperava. Meu pai, bem mais exigente, só se preocupou com a renda que eu vou ter de obter a partir de agora, e minha mãe, ao contrário do que imaginei, falou de tantas outras ocupações que posso ter.
O que fazer? Ano que vem pretendo entrar num cursinho, estudar para outro curso (talvez história, talvez relações públicas, não sei ainda), por hora, talvez aproveitar esse final de ano e trabalhar como temporário em uma loja em algum shopping. Não digo, contudo, que jamais voltarei a trabalhar com contabilidade (inclusive recebi algumas propostas diferentes de tudo que já trabalhei na área contábil, que são desafios novos), apenas não tratarei mais ela como uma prioridade. Ela vai ser uma ferramenta para eu continuar buscando o aperfeiçoamento enquanto pessoa e enquanto profissional.

Em outro texto, falei sobre Ostentação, e em um outro ainda sobre a real diferença entre ricos e pobres. Existem pessoas que talvez olhem para essa situação e falem para si mesmas “Meu Deus, não faça isso, você tem tudo já” ou então “Você não da valor as oportunidades que tem, tanta gente queria estar no seu lugar”. Veja, talvez outra pessoa REALMENTE possa ser melhor do que eu no meu lugar, tanto é que disponho o mesmo à essas pessoas para mostrarem o seu valor. Eu não em arrependo, como disse, de ter feito Contabilidade, apenas não me sinto realizado com ela atualmente, Eu posso SIM mudar de ideia num futuro, mas hoje, agora, é melhor tanto para mim enquanto profissional, quanto para ela que jurei “Atender com primazia e rigor a escrituração dos débitos e créditos” que essa relação não se aprofunde mais por hora. Talvez com mais experiências, talvez com um pouco mais de maturidade, eu possa novamente sentir-me realizado como Contador.

Para encerrar, deixo aqui meus votos de força e coragem para todos que neste fim de ano que se aproxima também desejam mudar a sua carreira, mudar algo em si, mudar algum hábito, enfim, mudar tudo aquilo que lhe aflige e ir atrás de sonhos maiores e com mais perspectiva de felicidade. Vou continuar a escrever minha coluna aqui na Lado A, talvez ainda com mais primor já que agora terei um ponto de vista diferente daquele que sempre tomo para falar sobre dinheiro com vocês.

Decisões assim não são fáceis, é verdade, mas é preferível dar um sorriso sincero para si mesmo por um segundo do que passar o resto da vida dando falsos sorrisos para o resto do mundo. Me desejem sorte e, como diria aquele livro Comer, Rezar e Amar... Attraversiamo ;)

Alex Spake é contador e consultor financeiro. 

 
 



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