Chispada

Chama-se de chispada a prática de alguém disparar, de súbito, em público, a correr, nu (se tanto, calçado); chama-se de chispante quem pratica a chispada. Denominam-se, em inglês, respectivamente, de “streaking” e “streaker”.

A chispada surgiu na porção meridional dos Estados Unidos da América, em março de 1974; quiçá em Mêmfis (Mississipi) ou na Flórida, fosse quando um estudante que dormia nu despertou de madrugada e, às pressas, acorreu à latrina, premido por uma emergência intestinal, fosse quando Rocky Janda e Dwight Lee surgiram, de súbito e apenas calçados, em um campo de tênis, durante um torneio: atravessaram-no a correr.
 
Propagou-se maciçamente por entre as universidades norte-americanas: em quatro dias, 200 estudantes, rapazes e moças, chisparam por várias horas, no campus da universidade de Mêmfis. Em fuga da polícia, alguns treparam em árvores e telhados, sob os aplausos de alguns dos presentes na praça do campus e sob a indignação de outros.

Na universidade da Carolina do Sul, 510 estudantes aderiram à prática; pouco depois, na Universidade de Maryland, os chispantes eram 553; a seguir, em uma universidade do Missouri, eram 800 os seus aderentes, número ultrapassado pela Universidade da Carolina do Norte, em que 895 estudantes chisparam. Logo após, na Universidade da Georgia, contaram-se 1.000 chispantes e 1.200 na Universidade do Colorado. No Ilinois, quatro chispantes saltaram de para-quedas antes de desatarem a correr; o mesmo praticaram outros cinco, na Universidade da Georgia. Também houve chispantes na Academia Militar de West Point.
 
Sob temperaturas álgidas, 16 estudantes da Universidade do Alaska chisparam sob oito graus Celsius negativos e, na Universidade de Purdue, um grupo fê-lo sob vinte abaixo de zero graus Celsius.
 
Divulgado pelas gazetas, comentado por articulistas, fotografado pelos repórteres, por semanas a chispada preponderou na atenção norte-americana e na imprensa do mais mundo. 
 
Por imitação, ocorreu no México, na Nicarágua, na Costa Rica, no Panamá, na Colômbia, no Chile, no Uruguai, na Argentina, na República Dominicana. Em todos estes países, a polícia perseguiu ou tentou perseguir os chispantes, quando se lhes deparou, ao contrário da Dinamarca, em que numerosos grupos de homens e de mulheres deambularam desvestidos pelas ruas, sob a observação passiva da polícia. Também na Inglaterra verificou-se o fenômeno, com ainda na Bélgica, na Holanda, na Itália, na Grécia, em Chipre, no Líbano.
 
Tanto quanto se saiba, inexistiram chispadas no Brasil, provavelmente em razão do ambiente mental acentuadamente conservador e da vergonha do corpo, arraigada nos brasileiros. Para mais, a censura imposta pelo governo da altura aos órgãos de comunicação proibiu a veiculação do vocábulo “streaking”: omitir o significante é forma de ocultar o significado. 
 
A gazeta Tele/eXprés, de Barcelona, reproduziu publicação de “The New York Times”, que traduzo para o vernáculo:
 
“Esta nova proibição de citar a palavra `streaking´ está em linha com uma proibição anterior dos temas considerados como eróticos ou obscenos e com o puritanismo que manteve, em todos os momentos, o regime militar.
 
Ignorar a existência do fenômeno do `streaking´- que por outras vias o povo brasileiro conhece-, parece-nos faltar aos princípios elementares que devem reger qualquer empresa periodística. Se se considera o `streaking´ erótico ou obsceno no Brasil, o que dizer do alucinante carnaval do Rio, a mais rítmica orgia que degenera em mortes, conflitos e arrastra, com a algazarra do samba, tudo quanto se encontre na sua frente?”.
 
A censura exprimiu a forma mental do brasileiro conservador e pudômano, resultado da influência cristã (em que, por sua vez, foi típica a atitude jesuítica, de acentuado ocultamento do corpo, notadamente da genitália, parte por excelência reputada indecente pela mentalidade que se formou a partir da lenda de Adão e Eva), índice, por sua vez, do quão, para o brasileiro, o corpo em seu estado natural é problemático, em comparação com a atitude do europeu e de abundantes norte-americanos, para quem o corpo nu é apenas o corpo nu, livre de implicações morais negativas. Na dicção popular, enquanto o brasileiro é careta, outros povos não o são.
 
Ocasionalmente praticado como aposta, a chispada serviu como veículo de protesto contra qualquer situação que desconfortasse os seus atores, desde o escândalo denominado de “Watergate” até o cardápio do restaurante universitário. Muitos o praticaram por divertimento, outros por espírito de mimese, em jeito de moda.
 
Foi a igreja católica a primeira e mais importante antagonista da chispada, que a denunciou como séria ameaça à moral, malgrado a ausência de qualquer conotação sexual na exposição da nudez do chispante: não se tratava de exibicionismo nem de assédio, mesmo porque a velocidade em que se deslocavam os seus atores impedia que se tornassem objetos de atenção detida (ao contrário do exibicionismo, em que o intuito do seu agente consiste em fixar a atenção do espectador), como, igualmente, impossibilitava-lhes qualquer tipo de assédio.
 
O desnudamento escandalizaria nos países da América Latina, de formação católica, e muito menos na Europa protestante (Alemanha, Austria, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Noruega, Croácia, Grécia, Inglaterra), como também menos na França e na Espanha, todos países em que o nudismo doméstico ou em campos e praias inveterou-se há décadas. 
 
Nos próprios E.E.U.U.A.A., nascedouro da chispada, malgrado o conservadorismo de costumes da parte religiosa da população, há dezenas de centros de bem estar (“resorts”) nudistas.   Lá, entre 1930 e 1940, havia mais de uma centena de campos nudistas; as Associações Cristãs de Moços (por sigla YMCA) adotam a nudez nas suas piscinas.
 
Na Itália, Francisco Alberoni (cujos livros acham-se publicados no Brasil) escreveu, sobre a proliferação da chispada (em 1974): “Algo produziu-se depois de dez anos de ideologia da não violência, da alegria de viver, do gosto pela liberdade e do desejo de regressar-se à natureza...”.
 
Em entrevista do “Diário de Barcelona”, o dr. Carlos Castilla del Pino, então diretor do Dispensário de Psiquiatria de Córdoba,  asseverou que se procederia erradamente se se interpretasse a chispada como questão de falta de decoro.  “Encaramo-lo como atentado às normas e escandalizamo-nos com um `aonde vamos chegar?´ ou , se atuamos inteligentemente, encaramo-lo com aceitação humorística. No final das contas, trata-se de um carnaval pelo que contém de desinibição social”. E concluia: “[...] a minha simpatia está com os irreverentes. Eles são, quando menos e ainda que instintivamente, excelentes higienistas sociais” (traduções minhas, do espanhol).
 
Alguns estudantes de Milão redigiram decálogo do chispante:

1- Deve-se realizar a chispada em pleno dia, em lugar público e concorrido.
2- Indumentária admitida: sandálias, meias, relógio, pulseiras, correntes e colares.
3- O trajeto percorrido não deve ser inferior a cinqüenta metros.
4- Proíbem-se bigodes e barbas postiços, máscaras e todo tipo de maquilagens.
5- A chispada ideal é a que se realiza com pessoas em número par e de sexo diferente.
6- Escadas, pontes, balcões e, em geral, qualquer lugar público, propiciam mais prestígio à empresa.
7- É essencial o fator surpresa.
8- Está proibido todo tipo de efusão, como beijos, carícias etc..
9- Diferentemente do passeio – a chispada dos antigos exibicionistas, que se realiza passeando – há que correr a toda velocidade.
10- O lema do chispante é: “Despe-te e corre”.
 
Na Espanha, Juan Soto Viñolo publicou, em 1974 “Correr desnudos como el rayo. Streaking”, compilação do noticiário que encontrou, pelo mundo afora, relativo à chispada, fenômeno de nudismo que, assim, registrou-se organizadamente, em livro divertido como anedotário e enriquecedor pelo aspecto antropológico, como testemunho de costumes.

 
 
 

Tags: 




Comentar