“Um mês entre os nudistas”

Intitula-se “Um mês entre os nudistas” o livro escrito pelo jornalista francês Rogério (Roger) Salardenne, publicado em 1931, em Paris. Volume in-16, de 190 páginas, ilustrado com dez fotografias (verdes) de pessoas em nudez natural (adultos e crianças de ambos os sexos), narra, com observações e diálogos, a visita do autor a centros nudistas alemães; trata, a seguir, do nudismo na França, lá também denominado de livre cultura ou, ainda, naturismo.
 
Enunciou as conclusões da sua excursão no prefácio: Regressei à França, senão totalmente convencido da necessidade do movimento [nudista], ao menos absolutamente certo de que o nudismo não era pretexto para a libertinagem, porém ensaio de moralização –pela negação do pudor e pela habituação à nudez - ao mesmo tempo em que tentativa de regeneração física pela exposição do corpo ao ar e aos raios solares.  (p.8).
 
O percurso de observações de Salardenne principiou na Lichtschulheim, escola de luz, mantida em Glüsingen, pelo doutor Valter Fränzel, seu diretor. Na altura, Glüsingen era aldeia de cinco ou seis residências e de, se tanto, cinqüenta habitantes.
 
Reconhecida oficialmente pelo governo alemão e vegetariana, adotava o programa das escolas superiores alemãs. Internato, nela, professores (em número de quatro), alunos e funcionários praticavam a nudez integral durante o ano todo.
 
À escola pertencia o Lichtland, terreiro de luz, para aceder ao qual o interessado carecia de autorização do professor Fränzel.  Achava-se circunscrito por um único fio de arame, como medida de separação das áreas públicas, para atravessar as quais, em direção a ele, os integrantes da escola de luz vestiam camiseta e calções.
 
O terreiro era arborizado e habitado por animais silvestres, como cervos, lebres e javalis. Nele, tomavam sol e folgavam famílias (o pai, a mãe, os seus rebentos), todos em nudez, a que nos habituamos facilmente, observa Salardenne, a quem os nudistas observavam por inteiro, da cabeça aos pés e dos pés à cabeça, sem que os seus olhares se detivessem mais particularmente aqui do que ali. (P. 23). 
 
Mesmo no inverno praticava-se a nudez no Lichtland, sob vinte e trinta graus negativos, frio que se combatia por exercícios físicos.
 
Uma situação motivou uma reflexão ao autor: uma menina de óculos ruborizava-se intensamente a cada vez em que ele lhe dirigia a palavra, embora, momentos antes, no terreiro, se lhe apresentasse inteiramente nua e destituída de qualquer pejo, o que prova, pondera Salardenne, que a timidez é coisa relativíssima... (p. 35/36). Demais, nos centros nudistas, as mulheres usavam maiô apenas quando menstruadas.
 
Duas outras reflexões formulou ele: estou bem obrigado a dizer o que vi. E o que vi demonstra peremptoriamente que a nudez é casta... Convido os que não têm esta opinião a visitar um grêmio nudista. Se após esta visita, eles não reconhecerem o seu erro, aconselhar-lhes-ei a consultar um especialista... (p. 31/32). A outra, dirigindo-se aos leitores: Certamente, a idéia de exibir-vos sem véu perante qualquer um assusta-vos um pouco, bastante, talvez; porém afirmo-vos que é menos penoso, menos constrangedor, menos difícil do que se imagina...(p. 37).  Salardenne visitou a escola e o terreiro nu.
 
De Glüsingen, Rogério Salardenne deslocou-se a Berlim, onde visitou a Private Heilpadagogische Körperkulturschule, escola privada de cultura do corpo, mantida pelo professor Adolfo Koch em um prédio, no centro da cidade.
 
Por instituir a nudez no seu estabelecimento, o professor Koch suscitou escândalo em uma mulher pudibunda e católica, que mobilizou o clero e invocou o pudor da gente bem pensante, o que resultou em processo judicial “escandaloso” por ultraje ao pudor. Hostilizou-o a imprensa católica e burguesa com artigos virulentos, intitulados, mormente “Danças nuas na escola” (p. 144).
 
Porque os juízes reconhecessem-lhe a pureza de intenções, absolveram-no, com base em decreto de 1752, que autorizava os professores a recorrer aos banhos de ar e de sol, se eles o julgassem indispensáveis à saúde dos seus alunos.
 
Para mais, o governo alemão autorizou o professor Koch a abrir escolas de ginástica nua em numerosas cidades da Alemanha, nomeadamente Hamburgo, Erforte, Dresden e Elberfeld. Elas eram, então, frequentadas por operários e por empregados subalternos, membros do partido socialista, que recebia 5% dos salários dos seus alunos e remunerava o professor Koch. Os numerosos alunos desempregados freqüentavam gratuitamente.
As atividades da escola consistiam em ginástica, anatomia e educação sexual, dispensada para cerca de quinhentos alunos de todas as idades, de crianças a sexagenários, parte dos quais formavam companhia teatral que se exibia em Berlim e no interior da Alemanha em representações de ginástica nua, sempre com êxito considerável.
 
Também havia filmes de divulgação do nudismo, dos quais um dos mais célebres intitulava-se “Homens felizes na luz e no Sol”.
Assim justificava a nudez total o dr. João Graaz, médico da escola de Koch: A nudez é indispensável à educação dos proletários, à sua saúde e à sua cultura. Há, já, em nossos dias, escolas ao ar livre para crianças – e o Dr. Graaz pronuncia estas palavras com amarga ironia- que tem a “possibilidade” de serem tuberculosas! As outras, as de boa saúde, devem encerrar-se em prisões de pedra durante a mais bela parte da sua existência. Somente quem conhece seu corpo e não lhe ignora nenhuma função será capaz de exigir instalações saudáveis e escolas sãs para os seus filhos.
 
Já o professor Frederico Weigelt expõe o aspecto moral e sexual: Todos os rapazes, na época da sua puberdade –e mesmo bem antes-  interessam-se pelos mistérios do outro sexo. Você vê-os girar à volta dos... locais reservados às moças e procurar ver o que lhes intriga. É uma verdadeira obsessão sexual que se instala na criança e manifestar-se-á, em breve, por hábitos e vícios absolutamente deploráveis. É fácil de compreender que tal curiosidade sexual desaparecerá e mesmo não existiria, jamais, se se acostumasse as crianças, rapazes e raparigas, a tomar banho em comum, sob a mais integral nudez.
 
O professor Weigelt completa as suas ponderações com a informação da ausência de moléstias venéreas dentre os 4.000 alunos que cursaram na escola desde 1921 (embora dois terços fossem solteiros e, portanto, capazes de liberdade sexual). A tuberculose praticamente fora erradicada.
 
Na região de Berlim funcionavam grêmios nudistas, como o Pelagianer-Bund, dirigido por Bernardo Gröttrup, literato diretor de revistas nudistas, ilustradas com fotografias de nus, motivo da animadversão dos moralistas que, indignados com o que entendiam ser ultraje público ao pudor, processavam-no e obtinham, judicialmente, a interrupção das revistas. Extinta uma ele, a seguir, criava outra, sob novo título e diferente formato, por sua vez, também proibida, o que o levava a criar uma terceira, igualmente perseguida em tribunal e assim sucessivamente...
 
A liga para a cultura do corpo e o esporte náutico era integrado pela alta sociedade berlinesa. Ela mantinha o Luna Park, dotado de lagoa agitada por ondas artificiais.
 
Para mais de outras cerca de vinte associações nudistas em Berlim, havia-as em Munique, Dortmund, Stettin, Dessau, Chemnitz, Estugarda, Ingramsdorf, Dresden, Leipzig, Thüringen, Francoforte, Ludwigshafen, Darmstadt, Mayence, Egestorf, Klingberg e alhures. Incontáveis grupos de amigos e famílias praticavam a nudez integral em casa.
 
Salardenne travou relações com um entusiasta do nudismo, morador em uma vila, nas imediações de Francoforte do Meno, que se identificava pelo pseudônimo de Max Barpens (em que o sobrenome derivava de um termo alemão e de outro, grego, cujos significados Salardenne omite). 
Ferido na primeira guerra mundial, Barpens julgava necessário acostumar os olhos à vista do corpo nu. É preciso libertar-se de todo falso pudor e dos assim chamados sentimentos morais que são arcaicos. Abaixo o tapa-sexo! É traje como outro qualquer, também nocivo, também supérfluo... Os que não ousam suprimi-lo ainda devem começar, na sua própria casa, a despir-se inteiramente diante do espelho, de manhã, ao lavarem-se. Eles habituar-se-ão rapidamente ao espetáculo da sua nudez. Mais tarde, poderão conversar sobre isto com os seus parentes, seus irmãos, suas irmãs e – se estiverem de acordo – começar a sua prática em comum. Eles descobrirão, assim, que a nudez não é nem vergonhosa, nem pecaminosa, porém a expressão da pureza e da virtude desde que se aprenda – o que é fácil – a dominar os seus sentidos...(p. 68).
 
A seguir, confirma a experiência de todos os nudistas, a de que a castidade entre os membros dos nossos grêmios é uma castidade que vale mais do que os desejos malsãos que vegetam nos cérebros dos nossos adversários e impedem-nos, justamente, de se despir inteiramente, porque eles temem sucumbir à tentação...(p. 68). 
 
No mesmo sentido reagiu a mulher de Rogério Salardenne, que, após hesitações, decidiu-se, afinal, a conhecer o campo dos Homens Livres, de Darmstadt: nua em meio a nus, acreditou assitiria a um espetáculo imoral... Porém não, absolutamente, não se retira nenhuma impressão malsã desta comunidade nudista, afirmou ela ao seu marido (p. 123), que lhe indagou, após recrear-se ela com outros circunstantes com o Faustball, jogo de bola, se ela se achava, já então, entusiasmada com o nudismo, ao que obteve por resposta: Totalmente. Sequer percebo mais que estou nua. É interessante, jamais teria acreditado que se podia habituar tão depressa a isto. (P. 130).
 
Com sede em Dresden, o Freie Menschen, Homens Livres, era associação proletária e nudista, proprietária de um diminuto campo de nudismo, cercado, em Darmstadt, dotado de cerca de cem metros quadrados de área e 140 associados. Se o nudismo suscita curiosidade malsã, pondera Rogério Salardenne, não é no interior dos campos que se deve procurá-la, porém no seu exterior: referia-se à curiosidade de indivíduos que espiavam os despidos por entre as frestas da cerca do campo, que os nudistas soíam afugentar com água que lhes lançavam de baldes.
 
A uma senhora nudista, Salardenne indagou se não havia membros dos grêmios nudistas que, decepcionados com as práticas da cultura do corpo livre, se retirassem deles ou renunciassem à doutrina respectiva: ela respondeu-lhe que tal jamais se verificara.
 
Alguns integrantes do Homens Livres desnudavam-se mesmo sob o frio.
 
Na cidade de Worms, célebre pelos sucessos relativos ao luteranismo, surgiu um entusiasta do nudismo, Pedro Bender, que, menos de quinze dias após a primeira reunião em que tencionava fundar um grêmio nudista, foi internado, à força, no hospital de alienados de Alzey, cujos médicos relaxaram-no dois meses mais tarde, sob a averigüação de que se encontra mentalmente são. Reposto em liberdade, Bender desistiu da sua pregação.
Os habitantes de Worms, naturalmente – é o ambiente que quer isto – são os mais atrasados de toda a Germânia, observa Salardenne. As idéias novas inflitram-se lentamente nesta velha cidade, o que ele exemplifica com o uso, feminino, dos cabelos curtos, que elicitou escândalo e mesmo houve pai que expulsou de casa a sua filha por usá-los assim.
 
Não obstante, nas imediações de Worms havia sociedades nudistas, a saber, em Darmstadt, em Ludwigshafen (com centenas de partícipes), em Manheim, cujo agrupamento possuía a Liebes-Insel, ilha do Amor, no rio Reno, freqüentada por famílias. Indignados com o desnudamento destas, os habitantes de Worms costumavam lançar-lhes pedras.
 
Em 1929 reuniu-se, em Berlim, o primeiro congresso da livre cultura, locução que Salardenne emprega em sinonímia com cultura do corpo livre (por abreviação, em alemão, F.K.K.), nudismo e naturismo .  Na programação do congresso executou-se apresentação teatral, com atores nus, para cerca de três mil espectadores.
 
Entre os nudistas alemães, havia duas fórmulas de polidez, empregada como fecho das suas correspondências: saudação de luz e saudações de liberdade.
 
Na França, o nudismo teve um precursor, Nicolau Dragoumis, que inspirou o segundo precursor, Teo Varlet; teve um pioneiro, o dr. Grumberg, e um introdutor, Marcelo Kienné de Mongeot.
 
Intelectual alemão, Grumberg instalou, em 1925, na herdade de Villars, nos Alpes Marítimos, um centro nudista, inspirado nas idéias de Frederico Nietzsche e composto por várias famílias com crianças, e avulsos. Agrícola e pastoral, na comunidade, predominantemente vegetariana, havia leituras e sessões de música, ensino de idiomas e de ciências para os infantes, com nudez opcional para todos e sem ginástica.
O empreendimento escandalizou a França.
 
Se o naturismo triunfar, dizia Marcelo C..., um dos poucos franceses que dele participou, não haverá somente progresso enorme pelo aspecto físico (em relação ao corpo), não somente progresso pelo lado moral (da sexualidade), mas acederemos a um progresso genericamente humano, a uma “inversão de valores”. Não será o regresso ao estado selvagem; ao contrário, é toda a parte ancestral e bárbara do homem que se desprenderá dele, com os seus trajes, e ver-se-á a alegria dionisíaca ocupar o lugar que ocupam hoje os instintos mais baixos e mais abjetos.
 
Nicolau Dragoumis era grego e andejo que percorreu, em 1905 o sul da França e da Espanha a pé; tomava banhos de sol e inspirou, naquele ano, Teo Varlet, poeta (autor dentre outros poemas, de Sol, publicado em 1922 e em que cantava a estrela assim nomeada), romancista e tradutor, que passou a tomar sol em nudez completa, no que o imitaram alguns dos seus amigos e conhecidos, malgrado a incompreensão alheia e as mofas de que foi objeto, com exageros (1900 anos de preconceitos sexuais cristãos não se cancelam em um dia!, escreveu a Rogério Salardenne). Em 1930, por ocasião da redação de “Um mês entre os nudistas”, Varlet perseverava nas suas insolações.
 
Sob a hostilidade acirrada do clero e dos poderes públicos , na França havia inúmeras sociedades naturistas e um único grêmio nudista, chamado de Viver  , animado por Marcelo Kienné de Mongeot, diretor da única  revista nudista francesa, Viver integralmente, e que introduziu no seu país o nudismo, sob  desconhecimento do movimento homólogo alemão. Aderiram à iniciativa do Viver intelectuais, médicos, um príncipe indu, um marquês e mais figurões franceses.
 
Na ilha Medan (ou Platais), no rio Sena, os irmãos André e Gastão Durville criaram a Sociedade naturista, cujos membros velavam a genitália e, as mulheres, as mamas. Não se tratava, pois, de nudismo e sim do que os Durville nomeavam de naturismo.
 
O dr. André Durville consultou, por escrito, o Prefeito de Polícia de Paris, quanto à possibilidade de se introduzir o nudismo integral na ilha Medan, sem resposta. Dois meses mais tarde, o mesmo dr. Durville declarou, na revista A vida sábia, que dirigia, a dispensabilidade da nudez total no naturismo e mesmo a sua inconveniência por então: A opinião pública francesa não está madura para um realização de grande envergadura de nu integral em comum, particularmente na ilha dos naturistas. Criando-se um campo de nudez integral, satisfazer-se-iam a algumas centenas de nudistas, porém afastar-se-ia do naturismo moderado milhares de adeptos que ainda não vieram à idéia do nu em comum,  que assustar-se-iam e seriam perdidos para a causa [do naturismo] (P.168).
 
Pondera Rogério Salardenne: Esta apostasia súbita é estranha. Ela dá a impressão de uma capitulação ou, pelo menos, de um abandono incompreensível do principal benefício –na minha opinião- do naturismo: a libertação da obsessão sexual  pela prática da nudez em comum. (P. 171).
Os tempos, contudo, cambiaram as resistências em aceitação: nas décadas posteriores a nudez em campos e praias francesas propagou-se assaz, como na restante Europa.


Arthur Virmond de Lacerda Neto é professor, filósofo e advogado. 


1 Todas as traduções são de autoria do colunista.
2 A expressão cultura do corpo livre é de origem alemã; a locução livre cultura e a palavra naturismo são francesas.
3 Assim era em 1931. 
4 Rogério Salardenne abstém-se de explicitar a diferença entre naturista e nudista.
5 Única em 1931


 

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